Textos

28 de outubro de 2012

Cartas | Escolhas e Renúncias

“Querida V.,

 

Eu queria poder ser todas as pessoas que estão em mim, mesmo as mais contraditórias.

Eu queria ser a mãe dedicada de três filhos com casa, gramado e cachorro, mas eu queria ser também a solteira independente em um apartamento moderno, cheio de livros e gatos.

Eu queria ser a garota descolada que coleciona tatuagens e conquistas. Desapegada. Mas queria ser também a mulher elegante que coleciona arte e sabe falar francês. Fluente.

Eu queria voltar a estudar piano para aprender a tocar os clássicos. Eu queria voltar a estudar piano para aprender a tocar MPB, Regina Spektor e Coldplay.

Eu queria morar em Nova York, em São Francisco, em Paris, em Barcelona e aqui em São Paulo. Talvez no Rio de Janeiro, talvez em Londres. Já quis viver em Florença e até flertei com Buenos Aires.

Eu queria tirar férias para visitar aquela amiga que tanto amo e mora com a família em Berlim. Mas também queria fazer um cruzeiro romântico, bronzeada e de branco, pelas ilhas gregas no verão. Eu queria conhecer a Islândia e a Patagônia Argentina – ir pra Ushuaia e esticar até a Antártida.

Eu queria largar tudo e ir pra África de chinelinho e roupa de algodão orgânico, e fazer parte de alguma ONG que cuidasse de crianças ou animais.

Eu queria ajudar mais as crianças e os animais que estão perto de mim.

Eu queria um óculos de sol (outro) que estou namorando nas revistas. E trocar meu carro também. Mas, ao mesmo tempo, queria doar (quase) tudo que eu tenho para quem realmente precisa. E, de agora em diante, só andar de bicicleta.

Eu queria ser metade disso, metade daquilo: ter a responsabilidade, mas não a culpa.

Eu queria agora estar com meu vestido novo e as pernas de fora, passeando livre por aí. Mas eu queria também estar na minha cama quentinha, quietinha, com um grande amor ao lado.

Eu queria ir ao aniversário do meu avô e rever a minha família, mas também queria não ter que viajar pra lugar nenhum e ficar só na minha casa.

Eu queria cortar o cabelo na altura do ombro, talvez com franja, mas também queria usá-lo assim comprido, como está agora. Eu queria fazer a unha hoje, mas também queria voltar pra cama e dormir só mais um pouquinho.

Eu queria passar dias inteiros sozinha, tirando fotografias do meu bairro, da minha cidade e do mundo. Mas também queria passar dias inteiros apaixonados, melados e grudados, quase sem ar.

Eu queria reler os clássicos, e ir assistir a uns dez filmes da Mostra. Mas também queria escrever textos e cartas bobas, como essa, porque escrever é uma necessidade – não um luxo.

Só que cada texto que eu escrevo é também um que deixo de escrever. Cada amor que eu não vivo poderia ser o que merecia viver.

Sabe, V., o dilema é que temos só essa existência — e muita imaginação. A ideia de passar todo tempo só experimentando é tão sedutora que a gente esquece que, até pra isso, ainda teria que escolher os sabores. Você não pode chegar na sorveteria e pedir pra provar todos. Tem que ser dois ou três. Quatro, vá lá. Mas não conheço ninguém que chegou ao quinto, não sem a cara feia da atendente do outro lado do balcão.

É como nos sentimos quando vamos ao nosso restaurante preferido e queremos pedir o cardápio inteiro. Mas não, é preciso fazer uma escolha  – e todas as renúncias que ela implica. Cansa só de pensar.

E você me conhece, V.,  sabe que eu sou uma das primeiras a decidir qual será o meu pedido, porque faço aquela coisa (chata) da Pollyanna e do Jogo do Contente: eu tento me concentrar na delícia do prato que está pra chegar, e não em lamentar por todos os outros que ficaram pra trás.

Mas no restaurante da existência, é um pouco mais complicado. Seria maravilhoso se, nesse caso, a gente pudesse apenas chegar, sentar e dizer: “Garçom, por favor, me vê o menu degustação”.

Se bem que desconfio, V., que, ainda assim, a gente continuaria faminto.

Com amor,

S.”

* Imagem: colagem digital “//censored//memories//”, de Ashley Edwards.

 

Fabiane Secches
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