Entrevistas

18 de agosto de 2015

Cecilia Arbolave

Cecilia Arbolave nasceu na Argentina, mas vive em São Paulo há alguns anos. Ao lado dos jornalistas João Varella (que também é seu marido) e  Thiago Blumenthal, é sócia da Lote 42, editora fundada em 2012. Autora do livro Curitibocas – Diálogos Urbanos e da antologia Queria Ter Ficado Mais, este último publicado pela Lote, também trabalhou como repórter nas revistas Casa Claudia Luxo e Minha Casa.

Conversamos sobre sua história de amor com os livros, sua visão do mercado editorial brasileiro e os desafios de fazer parte de uma editora independente.

 

CONFEITARIA – Você nasceu e viveu muitos anos na Argentina, país que tem um mercado editorial muito mais estabelecido que o nosso [só na cidade de Buenos Aires há mais livrarias do que em todo o Brasil]. Isso chegou a ser uma diferença cultural considerável para você quando se mudou pra cá? Quero dizer, foi algo perceptível logo de cara? 

Cecilia Arbolave – Olha só que curioso: estou respondendo a entrevista de Buenos Aires e a presença de livros na cidade é algo que me chama a atenção mais uma vez. Desta vez, reparei não tanto nas livrarias tradicionais (que já são muitas) mas sim na quantidade de sebos que vejo pelas ruas. De toda forma, quando cheguei ao Brasil o que me chamou a atenção mesmo foi outra coisa: eu sentia muita falta de ter mais cafés. Em Buenos Aires, esses espaços são quase uma instituição e têm um microuniverso muito particular. Em São Paulo claro que existem cafés, mas a proposta é diferente (e não tem um em cada esquina!)

 

Qual é a sua primeira memória de um livro? E em que momento esse interesse pelo livro impresso passou a ser um motivador para trabalhar como editora ao lado de seus sócios?

Um que lembro com carinho é o Dailan Kifki, de Maria Elena Walsh, de uma escritora infantil argentina. Lá pelos oito anos comecei a escrever histórias, que juntava em coleções e fazia livros. “Paginava” eles no computador, ia nas papelarias do bairro, fazia xérox, encadernava e depois dava de presente para meus pais, tios, avós, amigos… Já na vida adulta escrevi junto com João Varella um livro de entrevistas a figuras curitibanas. Nos envolvemos em todas as etapas do livro e percebemos como o mercado editorial tradicional é complicado. Naquela época falamos que se um dia tivéssemos uma editora, teríamos outra atitude e outra proposta. Foi o que aconteceu. Quando ele e o Thiago criaram a Lote 42, já apresentaram uma abordagem diferente, tanto com o tipo de livros que eram publicados quanto na forma de divulgá-los. Eu me envolvi nesse trabalho logo nos primeiros meses e percebi como era apaixonante — tanto que um tempinho depois pedi demissão do meu trabalho para me dedicar à Lote 42.

 

De todo processo que envolve a publicação de um livro, qual é a fase ou área de que você mais gosta? E qual é o maior desafio?

Cada etapa tem seu encanto. Depois de trabalhar o texto, gosto especialmente de pensar no formato do livro. É gostoso o processo de buscar o melhor tamanho, papel e encadernação, entre outros detalhes, para aquele conteúdo específico. A vantagem de ser uma editora pequena é que podemos trabalhar num ritmo diferente e dedicar tempo a essa pesquisa.
O maior desafio é a parte administrativa da editora — é bem chata, porém necessária para continuar publicando livros.

 

No final de 2014, a Lote também investiu em um novo desdobramento com dinâmica própria, a Banca Tatuí, que vende publicações diversas do mercado independente e realiza eventos abertos com música, projeções e convidados de diferentes áreas. Como tem sido essa experiência? E como é conciliar o dia a dia editando livros, um trabalho mais introspectivo, e na Banca, organizando eventos e lidando diretamente com o público?

Tem sido muito divertida a experiência. As possibilidades da Banca Tatuí só crescem e nos surpreendem. É empolgante ver como o público que frequenta o espaço se interessa cada vez mais nas publicações independentes. E pessoas que talvez nunca foram em uma feira acabam entrando e descobrindo um universo completamente novo para eles. Aos poucos estamos ampliando o catálogo e temos editoras de diferentes lugares do País — e agora também temos alguns livros da Argentina, como os livros da Galería Editorial e da Big Sur.

Não sei se diria que a vida na editora é introspectiva — é bem agitada, na verdade! E as tarefas da Lote 42 e da Banca Tatuí acabam se misturando bastante no dia a dia. Para conseguir colocar de pé aquelas festas com shows no teto e tudo mais tem muito trabalho que foi feito no escritório semanas antes.

 

Em julho do ano passado, vocês fizeram uma promoção nas redes sociais anunciando que a cada gol que o Brasil sofresse, os leitores poderiam encontrar consolo em descontos (cumulativos) de 10% nos livros da editora. Depois dos 7 a 1 na partida contra a Alemanha, os descontos chegaram a 70%. De um lado, vocês viveram momentos de caos por conta do resultado. De outro, a editora ganhou mais visibilidade pela estratégia publicitária ousada. Como tem sido de lá para cá?

Ganhamos bastante visibilidade, sim. Mas de lá pra cá continuamos trabalhando do mesmo jeito de sempre: cuidando muito cada etapa da produção de um livro, tendo um contato próximo com os autores, caprichando no projeto gráfico, entre outros aspectos. E também conseguimos fazer algumas coisas novas, como uma campanha de crowdfunding que trouxe o artista uruguaio Troche para oito cidades brasileiras, ajudar a produzir uma peça de teatro baseada no livro Seu Azul, de Gustavo Piqueira, abrir a Banca Tatuí, organizar uma mostra do artista argentino Kioskerman no Epicentro Cultural, na época do lançamento do livro Portas do Éden

 

Como você vê o cenário de publicações independentes no Brasil hoje? E quais são os planos para a segunda edição da Feira Miolo(s)?

Vejo um cenário com cada vez mais artistas produzindo e desafiando as possibilidades gráficas para publicações impressas. E vejo pessoas lidando com assuntos que não aparecem com frequência no mainstream. A segunda edição da Feira Miolo(s), que acontece dia 7 de novembro, vai ter uma mostra do artista Fabio Zimbres, referência para o universo dos quadrinhos e das publicações independentes, além de uma programação com palestras e oficinas. Ainda, uma das principais novidades é a primeira edição do Prêmio Miolo(s), que busca reconhecer e ajudar a consolidar as iniciativas de artistas independentes. As inscrições, tanto para a feira como para o prêmio, estão abertas até o dia 31 de agosto.

 

Empreender no Brasil não é tarefa fácil — em um momento de crise como o que vivemos, menos ainda. Como tem sido para vocês?

Sempre tentamos cuidar muito dos custos (não só dos livros mas da editora em geral) e manter a estrutura pequena. Investimos bastante na divulgação nas redes sociais e vamos encontrando diferentes caminhos para fazerem os livros circular. Por enquanto, tem dado certo!

 

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Fotografia por George Leoni

As incrições para a Feira Miolo(s) estão abertas até dia 31 de agosto. Saiba mais aqui.

Conheça os livros publicados pela editora Lote 42.

Fabiane Secches
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