Entrevistas

28 de agosto de 2014

Juliana de Faria

Juliana de Faria Kenski é a jornalista por trás do Olga, “um think tank dedicado a elevar o nível da discussão sobre feminilidade nos dias de hoje”.

Juliana  também é responsável por uma das campanhas mais polêmicas dos últimos tempos, a Chega de Fiu Fiu, que tem como objetivo compreender e combater o assédio sexual contra a mulher em espaços públicos, e pelo Talk Olga, grupo no Facebook com mais de 2 mil participantes — um fórum bastante ativo sobre o feminismo: “Sentia falta de um lugar onde pudéssemos ampliar as reflexões, horizontalizar a conversa e dar espaço também para as leitoras. Por isso, criamos um grupo de discussão”, conta.

Os últimos meses foram movimentados. Apesar de ser uma iniciativa independente, que pede de Juliana dedicação integral (não remunerada), três projetos importantes surgiram: o Mapa Chega de Fiu Fiu, o e-book Meu corpo não é seu — Desvendando a violência contra a mulher, escrito em conjunto com Bárbara Castro (assista ao debate de lançamento aqui), e também o projeto Entreviste uma mulher, recém lançado e já bastante elogiado.

Ficamos contentes em publicar aqui essa entrevista com a Juliana, contando parte da trajetória dessa mulher forte e sensível, verdadeiramente inspiradora para a gente, que, por tentativa e erro, está empenhada em fazer do mundo um lugar menos hostil para as mulheres.

 

CONFEITARIA — Você abriu mão de um caminho mais convencional como jornalista para criar um veículo próprio, com a proposta de elevar a discussão sobre a feminilidade nos dias de hoje. Como aconteceu essa transição? Mais do que isso, como aconteceu o estalo que levou a essa transição?

JULIANA DE FARIA — Eu me formei em jornalismo e comecei a trabalhar em redações aos 18 anos. Em 2008, comecei a me especializar em jornalismo de moda. E foi aí que passei a trabalhar com assuntos do universo feminino – e não apenas roupas, mas desejos, sonhos, frustrações… Durante meu tempo trabalhando nesse segmento, aprendi muito, tive a oportunidade de trabalhar com algumas das mulheres mais inspiradoras que conheço e escrever matérias muito legais. Mas em um determinado momento, eu sentia que a conversa que eu criava ali, nessas revistas, eram limitadas a um grupo muito pequeno de leitoras. Às vezes, o conteúdo não falava ou representava nem eu mesma. Percebi que algumas sugestões de pauta que eu sugeria eram gongadas — ou por não fazerem sentido para essas publicações ou até mesmo por faltar categorias e seções nas revistas que englobassem as temáticas que eu queria abordar. Então decidi que eu mesma ia criar o conteúdo que eu queria ler. Foi aí que nasceu a Olga, como um projeto de conteúdo sobre e para mulher que fosse mais diverso, mais abrangente, mais respeitoso e livre de estereótipos.

 

CONFEITARIA — Qual é o maior desafio em estar à frente de um projeto independente? E qual o maior desafio em estar à frente de um projeto independente e feminista?

JULIANA DE FARIA — Transformar a Olga em um projeto sustentável, financeiramente falando. Não temos parceiros ou patrocinadores. Tudo o que fiz via Olga até hoje — o Mapa Chega de Fiu Fiu, os eventos, as campanhas — foi custeado por mim mesma. Com relação ao desafio de ser uma ação feminista, entre tantos, cito a violência online contra a mulher. Sabemos que a internet pode ser um lugar violento onde qualquer um pode sofrer abusos, bullying, ameaças, perseguições. Mas há uma diferença enorme como homens e mulheres são afetados. Em 2006, a Universidade de Maryland fez uma pesquisa sobre o tema. Criou um monte de perfis falsos — alguns femininos e outros masculinos — e os jogou em chats variados. Chegaram a um número assustador: os usernames femininos recebiam uma média de 100 mensagens ameaçadoras ou de cunho sexual, enquanto os masculinos, apenas 3.7. Esses abusos virtuais interferem na democracia, é claro, pois muitas vezes as mulheres têm medo de continuar seus projetos na internet — sejam eles feministas, sejam eles simples vlogs sobre look do dia. Mas é claro que aqueles focado em temáticas feministas acabam virando alvos fáceis para esses trolls. Quando lancei a Chega de Fiu Fiu, recebi até ameaças de estupro. Minha forma de lidar com isso foi desativando os comentários do blog. Não convido o vampiro para entrar em minha casa. Isso diminuiu drasticamente a interação violenta ali. Mas eu tenho consciência que isso ainda é um problema. Nós, blogueiras feministas, até conseguimos identificar usuários (fakes ou não) que fazem a ronda pelas páginas, deixando comentários, ofensas e ameaças semelhantes em nossos posts.

 

CONFEITARIA — O site tem vários desdobramentos: há a campanha Chega de Fiu Fiu, o livro Meu Corpo Não é Seu e um fórum de discussão bastante ativo (grupo fechado no Facebook), além de encontros presenciais e iniciativas como o Edit-a-thon e agora o projeto Entreviste uma Mulher. Extrapolar a internet e transformar o Olga em uma comunidade foi uma consequência ou um objetivo desde o princípio?

JULIANA DE FARIA  — A Olga nasceu no mundo online, porque encontrei ali um formato não apenas acessível para muitas mulheres, em localizações variadas, mas também acessível para mim. Ninguém precisa pagar ou se deslocar para ler o que eu tenho a dizer. E eu também não preciso me preocupar com todos obstáculos que a criação de uma revista traz: impressão, distribuição, etc. Eu acredito muito na força da internet e no poder da viralização. E a Chega de Fiu Fiu está aí para provar isso, afinal, toda a mídia que tivemos com ela foi espontânea. Mas a mudança que propomos, a vontade de seguir com o sonho do empoderamento feminino no Brasil, precisa ser acompanhada de ações reais. Durante o processo de criação da Olga, sempre tive comigo o desejo de levar nossas discussões, nossas lutas para o mundo offline. Na internet, as pessoas chegaram até a gente — e muitas vezes, sem qualquer esforço da nossa parte. Na vida offline, nós que temos que fazer esse esforço para chegar até essas pessoas, até essas mulheres, para iniciar novas conversar, atingir novos públicos… E é bom que façamos esse esforço pelo outro. Só assim para sairmos das nossas bolhas, entendermos as necessidades diferentes de cada grupo de mulher e abraçarmos soluções que dialoguem com a diversidade e a interseccionalidade.

 

CONFEITARIA — Que outros veículos feministas você confia e recomendaria hoje para quem busca conteúdo de qualidade voltado para as mulheres?

JULIANA DE FARIA — A Revista Capitolina e a Rookie Mag são dois portais femininos focados no público teen, mas isso não me impede de ser leitora fiel. Admiro muito o trabalho feito pelas Blogueiras Negras e aprendo muito com elas. Tem o Lugar de Mulher, com uma linha editorial que abraça o debochado, o humor, o satírico. Com um recorte de nutrição e fitness, o Não Sou Exposição fala sobre padrões de beleza de uma forma muito delicada, muito inteligente. Admiro muito também o trabalho que a autora faz nas mídias sociais, tirando barato das propagandas absurdas de dieta que vemos por aí. Sou fã incondicional da Aline Valek, que tem blog na Carta Capital também, o Escritório Feminista; da Giza Sousa, que iniciou uma campanha chamada #valorizeasminas em que divulga textos feitos por, para e sobre mulheres; da Jéssica Ipólito, que fala sobre gordofobia, racismo, homofobia no seu blog Gorda&Sapatão. Adoro seguir a página da Amy’s Smart Girls, da Amy Poehler, e Miss Representation que faz uma curadoria das melhores matérias na internet sobre o tema feminismo e empoderamento feminino.

 

CONFEITARIA — A Campanha Chega de Fiu Fiu incomodou e causou discussões interessantes (outras nem tão interessantes assim) no Brasil e no mundo. Existe um movimento global de combate ao assédio nas ruas, e sem dúvida foi um marco importante para o nosso país. Agora na segunda fase, quais são as críticas que você ouviu que fizeram mais sentido, as poucas e boas críticas construtivas? 

JULIANA DE FARIA — A Chega de Fiu Fiu foi feita com carinho e cuidado. Tenho muito orgulho do desenvolvimento da CDFF e é com satisfação enorme que vejo que o termo assédio sexual enfim ganha destaque no noticiário e também, enfim, que estamos, como sociedade, discutindo esse tipo de violência contra a mulher. Mas eu entendo que a CDFF tem suas limitações. Afinal, ela é uma campanha que nasceu apenas da vontade de mudança de algumas mulheres, sem apoio financeiro, sem apoio governamental, sem contar com a ajuda de uma rede de voluntários. Como disse anteriormente, criamos a campanha e o mapa colaborativo na internet. No entanto, sabemos que nem todas têm acesso a essas ferramentas. E queremos ampliar a campanha, criando ações também no mundo real, levando palestras sobre violência contra a mulher para espaços onde ainda não conseguimos chegar.

 

CONFEITARIA — Por fim, há alguma pergunta sobre a Chega de Fiu Fiu ou sobre a sua jornada como jornalista feminista que você gostaria que fizessem e ninguém fez antes? Algo que você queira dividir, mas ainda não teve  oportunidade?

JULIANA DE FARIA —  Acho que sobre a Chega de Fiu Fiu, a verdade é que não sei se há uma pergunta que eu gostaria que me fizessem. Afinal, a verdade é que nunca me perguntaram nada a respeito de assédio — se eu gostava, se eu detestava, como eu me sentia em relação a isso, se poderíamos evitar esse comportamento — e mesmo assim eu fui lá e falei. Mas, bem, gostaria muito de ser abordada para falar sobre a violência contra a mulher na internet. Acho que precisamos fazer barulho em cima dessa questão que afasta as mulheres dessa plataforma e as isola do seu direito de expressão. Mas talvez eu também não tenha que esperar que me perguntem, né? 🙂

 

 

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Página do Olga no Facebook: facebook.com/thinkolga
Email de contato: juliana@thinkolga.com

Fabiane Secches
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