Cinema, Resenhas

15 de maio de 2014

Hannah e suas irmãs

“Todas as famílias felizes se parecem. As famílias infelizes o são à sua própria maneira”. A frase célebre abre o romance Anna Kariênina, de Tolstói. Teria sido depois de relê-lo que o cineasta americano Woody Allen decidiu reescrever o roteiro de Hannah e suas Irmãs (1986), dando ao filme a estrutura narrativa que conhecemos hoje, na qual diferentes histórias se desdobram e se cruzam sem que nada pareça estar sobrando. Mas é de Confissão a frase de Tolstói que precede o capítulo no qual Mickey (personagem interpretado por Woody Allen) está miserável em busca de algum sentido para a existência: “O único conhecimento absoluto que pode ser alcançado pelo homem é que a vida não tem sentido algum”.

Outra influência russa inegável é a peça As Três Irmãs, de Tchekhov, que narra as angústias das irmãs Olga, Macha e Irina em uma cidadezinha na Rússia. É possível estabelecer um paralelo tanto com o tom do filme — as passagens existencialistas, as pequenas misérias humanas, o senso de humor particular — como com as personagens de Allen. O roteiro de Hannah e Suas Irmãs foi considerado o mais literário de Allen. Na época, houve um movimento para que fosse o primeiro roteiro de cinema indicado ao Prêmio Pulitzer.

Como o título do longa sugere, Hannah (Mia Farrow em um de seus melhores papéis) é a protagonista da família. Generosa e equilibrada, ela é o ponto em volta do qual as irmãs Holly (Dianne Wiest) e Lee (Barbara Hershey) orbitam. Holly tem um histórico de fracassos como atriz e agora pensa em abrir um serviço de buffet. Lee vive de seguro desemprego e está pensando em fazer aulas na Columbia, embora não pareça exatamente segura sobre o quê. Na peça de Tchekhov, Olga tem momentos tão generosos quanto os de Hannah; Macha é casada com um professor e se apaixona por outro homem, tal como Lee; já Irina passa por empregos completamente diferentes e é infeliz em todos eles, um pouco como Holly.

Não são apenas as irmãs confusas e errantes que tratam Hannah como o centro familiar, mas também seus pais, seu marido e seu ex-marido. Porém, logo na primeira cena, descobrimos que a vida de Hannah não é tão perfeita assim. O filme começa como uma comédia romântica: em uma pequena comemoração familiar, um homem observa uma mulher entre os convidados e faz uma declaração apaixonada em pensamento — acompanhamos seus devaneios pela narração em off. Logo descobrimos que a confissão é de Elliot (Michael Caine), o marido de Hannah, sobre o amor que sente pela cunhada Lee — tragicomédia romântica, isso sim. Tragédia e comédia andam de mãos dadas em um de seus filmes mais elogiados.

A ocasião é o Dia de Ação de Graças, comemorado no apartamento de Hannah. Woody Allen escolhe um momento simbólico de união e harmonia para desconstruir o estereótipo da família feliz. O pai toca piano, a mãe canta, crianças correm pela casa, uma enorme mesa é posta para o pomposo jantar e, no meio disso, vemos Holly pedindo dinheiro emprestado à Hannah na cozinha, ao que a irmã lhe responde: “nós estamos falando de cocaína de novo?”. Com a habilidade de um maestro, Allen consegue costurar os diálogos mais banais aos mais desconcertantes.

“Nós brindamos a ela e comemoramos com ela o seu sucesso”, diz o pai no jantar, referindo-se ao retorno de Hannah aos palcos, depois de um hiato longe da profissão, da qual havia se afastado para cuidar dos filhos pequenos. Sentados à mesa, os parentes também são seu público. Hannah: a mãe, filha, irmã, esposa e ex-esposa exemplar.

O roteiro começa e termina na mesma época e cenário, com dois anos de intervalo. São três jantares de Ação de Graças, três cenas chaves para o enredo. Entre eles, o filme é dividido em capítulos, nos quais acontece um pouco de tudo aquilo que é familiar ao universo de Allen: Elliot tem um caso secreto com a cunhada Lee, que, por sua vez, vive com Frederick, seu ex-professor — um artista e intelectual arrogante e ranzinza (interpretado pelo lendário Max von Sydow). É dele algumas das falas mais memoráveis do filme, como quando comenta a respeito de um programa na TV sobre Auschwitz. Argumenta que a razão pela qual nunca conseguimos responder a questão “Como algo tão terrível pode ter acontecido?” é porque nos fazemos a pergunta errada. Sendo as pessoas como são, a pergunta certa seria: “Por que não acontece com mais frequência?”.

O contraponto entre a erudição prepotente e a fruição da arte é outro tema constante na obra do cineasta americano. Aqui, Frederick poderia representar a primeira e Elliot, a segunda. Uma das cenas mais divertidas do filme é quando um potencial cliente indicado por Elliot procura Frederick para comprar um de seus quadros, mas acaba insultando o artista quando diz que precisa antes conversar com sua decoradora para saber se o quadro combinaria com seu sofá. Sai de lá enxotado. Já Elliot presenteia Lee com um livro de E. E. Cummings e diz que um dos poemas o faz se lembrar dela (“nobody, not even the rain, has such small hands”). Em outra cena, os dois falam de Mozart e ouvem Bach juntos. Usufruem, sem pedantismo.

Em ambos os casos, no entanto, Lee permanece no papel da pupila, sempre o alvo perfeito para homens professorais. Frederick elabora isso com todas as letras. Quando ela anuncia que vai deixá-lo, ele argumenta que não pode fazer isso porque ainda não ensinou a ela tudo que precisava aprender. “Quando você sair do ninho, quero que esteja pronta para enfrentar o mundo real”. Porém, quando a conversa avança e Lee demonstra que está convicta de sua decisão, tentando confortá-lo sobre a separação, é Frederick quem reage aos seus cuidados: “Não me paternalize!”

Mais tarde, Elliot confessa a seu terapeuta que apesar de toda a sua sabedoria, não consegue lidar com o próprio coração. E, embora se sinta muito culpado, não é capaz de se decidir entre Hannah e Lee: “Em nenhuma outra área sou um procrastinador”. Hannah simboliza a alegria calma de uma vida estável. Lee, a felicidade fugidia de uma paixão proibida.

De maneira quase paralela, somos apresentados a Mickey (personagem de Allen), o ex-marido de Hannah, com quem ela mantém uma relação cordial e teve dois filhos, através de inseminação artificial, já que Michey seria estéril. Ele é um produtor de TV hipocondríaco que suspeita ter um tumor no cérebro por conta de uma perda de audição no ouvido direito. Ou seria no esquerdo? Em determinada cena, nem ele parece saber. Enquanto aguarda os resultados, é confrontado pela ideia da morte de maneira concreta —  “não depois, agora” — e passa por uma crise existencial profunda, que tenta preencher com a religião. Já que o judaísmo parece não ter ajudado, uma vez que não prevê a vida eterna, Mickey vai atrás de outras alternativas, o que rende algumas das passagens mais espirituosas do filme.

É aí que entra Tolstói e sua constatação da falta de sentido da vida. Em um trecho de Confissão, o escritor russo diz: “Eu procurei em todas as áreas do conhecimento e não apenas falhei em encontrar qualquer resposta, mas também fui convencido de que todos que buscaram o conhecimento como eu também saíram sem resposta. Eles não apenas não a encontraram, mas claramente chegaram à mesma constatação que me levou ao desespero: o único conhecimento absoluto que pode ser alcançado pelo homem é que a vida não tem sentido algum”.

Em Hannah e suas Irmãs, o personagem de Allen conclui de maneira muito semelhante, enquanto passa pela estátua do Pensador e fala sobre Sócrates, Nietzsche e Freud: “Milhões de livros escritos sobre todos os assuntos possíveis por todas essas mentes grandiosas, mas nenhum deles sabe nada a mais sobre as grandes questões da vida do que eu”.

Enquanto assistimos ao triângulo amoroso de Elliot, Hannah e Lee, acompanhamos também o de Mickey, Holly e Hannah. Mickey e Holly já tiveram uma história mal sucedida no passado e agora se reencontram. Ou seja: Hannah é perfeita, mas seu marido está apaixonado por sua irmã imperfeita  e seu ex-marido, por sua outra irmã, ainda mais imperfeita.

Elliot, de fato, não consegue resolver a equação: é a equação que se resolve sozinha. Cansada de esperar por uma decisão e sofrendo por enganar a irmã, Lee se envolve com um professor (outro) da Columbia e rompe o caso com o cunhado. Se, de imediato, Elliot parece sofrer com isso, depois aceita com resignação, constatando que aquela paixão fugaz não passou de um equívoco — é o que escutamos em uma das últimas cenas do filme. O que Elliot nos diz em off enquanto observa Lee é praticamente a repetição do início do filme, uma cena simétrica: “Tudo que aconteceu entre nós parece mais e mais vago agora. Eu agi como um tolo. Não sei o que deu em mim. Aquela convicção de que eu não poderia viver sem você. Tudo que eu fiz com que a gente passasse. E Hannah, como você disse uma vez, eu a amo muito mais do que me dava conta”.

Quando assisti ao filme pela primeira vez, talvez fosse mais ingênua: acreditei que a constatação de Elliot sobre o amor que sentia pela esposa fosse genuína. Já da última vez que o revi, as palavras de Elliot soaram apenas cômodas, como quem conforta a si mesmo.

Allen havia escrito um final diferente para o filme, mais pessimista, mas teve de modificá-lo por exigência dos produtores. Essa é uma das razões pelas quais não gosta do longa: “Tem uma diferença tão significativa entre o filme idealizado em sua mente e o filme com que você termina nas mãos que você nunca está feliz e nunca está satisfeito. Quanto a mim, eu nunca gostei realmente de nenhum dos meus filmes. Mas sou sempre grato que a audiência tenha gostado de alguns deles, apesar do meu desapontamento”, conta.

Na última cena, todo a aura aponta para um final feliz. Durante a última festa de Ação de Graças, Mickey conversa com Holly, que se encontrou profissionalmente, revelando-se uma talentosa roteirista, e com quem agora está casado. “Eu estava dizendo ao seu pai o quanto é irônico… Eu costumava passar o Dia de Ação de Graças com Hannah e nunca pensei que poderia amar mais ninguém além dela. Agora, anos depois, você e eu estamos casados e estou completamente apaixonado por você. O coração é um músculo muito, muito resiliente. Ele realmente é. Isso daria uma ótima história: um cara casa com uma irmã. Não dá certo. Então, anos mais tarde, ele acaba se casando com a outra irmã. O que poderia superar isso?”. Holly emenda, já superando: “Mickey, estou grávida.”

A gravidez de Holly, sendo Mickey infértil, seria uma provocação final de Allen? A harmonia do casal, refletida no espelho, também apontaria para uma inversão da cena, escondendo as mentiras e os segredos que mantém tantas famílias unidas? Ou a improvável gravidez seria apenas parte do assombro da vida, com seus absurdos que desafiam a lógica da razão?

Não temos essa resposta no filme. Os créditos finais são mais rápidos do que as conclusões. Se depois a encontramos, talvez diga mais sobre nós mesmos do que sobre o longa, sobre o nosso otimismo ou pessimismo, a nossa visão de mundo. Sendo apenas realista, ficamos com a incerteza.

Roubando no jogo, encontrei uma declaração em que Allen admitiu que não teve a intenção de construir essa ambiguidade na cena final: “Ao longo de todo filme, ele era incapaz de ter um bebê, e parecia que não poderia, mas com a mulher certa, ele pode. E isso estava ok. Isso era algo que eu senti que poderia dizer.”

Esse desfecho, aliás, fazia parte do roteiro original e permaneceu inalterado. Allen se ressente de outras modificações: no final da versão original, Elliot continuaria apaixonado por Lee, apesar de manter o casamento com Hannah. E Mickey não teria encontrado conforto em Groucho Marx — a sequência em que o personagem vai ao cinema logo após quase ter cometido suicídio não existia. As novas cenas foram escritas e incluídas depois, o que deixaria Allen com a sensação de que foram apenas anexadas. Não concordo: tudo parece funcionar perfeitamente para o espectador. Mas posso compreendê-lo: o filme que tinha em mente era diferente do filme a que assistimos.

Após trair a esposa com a irmã mais nova pela primeira vez, Elliot reflete sobre aquela tarde apaixonada em contraponto à vida confortável que mantinha com a esposa, quando se sente parte de algo. Assume que sua existência era vazia antes de Hannah e que “precisava” dela. Porém, está seduzido pelo fato de que Lee é frágil e “precisa” dele. Sentir-se necessário parece mais primordial do que se sentir amado.

Hannah cuida de todos, e nunca pede que cuidem dela. Sua generosidade e sua força são também uma afronta, quase uma ameaça não apenas para Elliot como também para as irmãs, especialmente para Holly. Quando Hannah confronta Elliot pelo seu distanciamento, ele a acusa de não ter necessidades, de ser fechada e autossuficiente. Já Holly lhe diz que todos são gratos por tudo que a irmã faz pela família, ao que ela responde: são gratos, mas se ressentem.

Lee, por sua vez, faz o papel da jovem moça que precisa ser salva do mundo e de si mesma, sempre em busca de um novo tutor. Em uma relação de igualdade, como a que poderia ter com Hannah, Elliot se sente dispensável. Não suporta a ideia de que somos todos dispensáveis; o resto é ilusão.

Não é verdade que Hannah seja alheia apenas porque oferece mais do que solicita: em mais de uma cena, ela demonstra vulnerabilidade, como quando percebe a mudança de comportamento do marido. Após uma discussão, quando os dois estão deitados na cama, Elliot apaga a luz, a tela fica escura e Hannah diz “Eu me sinto perdida”. O marido acende o abajur, abraça e conforta a esposa. Como espectadores, sabemos que a sensação de Hannah é legítima: Elliot está distante porque mantinha um caso com a cunhada, rompido naquela noite contra a vontade dele. Sabemos que, na verdade, Hannah continua no escuro.

Em outro momento, Hannah e Holly saem para fazer compras juntas. A cena é de harmonia até que Holly comenta sobre seu relacionamento com um homem casado e, em seguida, conta à irmã que vai fazer um teste para atuar em um musical. Hannah tenta não deixar transparecer suas reservas em relação a ambos, mas fica claro que teme por Holly — que nunca cantou antes, nem demonstrou interesse em fazê-lo, e que obviamente está sendo enrolada pelo homem com quem está saindo. Mas não importa quanto tato Hannah se esforce em ter: a sua opinião sempre tem um peso de sentença e acaba por oprimir a todos — inclusive a ela mesma, que procura medir cada palavra e nem assim tem sucesso. Holly se ressente porque Hannah não age com o entusiasmo desejado: “Ninguém a não ser você consegue fazer isso comigo, e não sei o porquê”. Depois, acaba por admitir que é a sua própria insegurança que projeta na fala da irmã.

Se em alguns momentos Hannah age de maneira onipotente, como quando deseja juntar o ex-marido à Holly, na maior parte do tempo, a sensação que fica é apenas a de que ela é a única pessoa crescida da história, e isso encanta e incomoda todos na mesma medida.

Em uma cena na casa dos pais de Hannah, quando a filha é chamada para apartar uma briga, os dois trocam insultos e acusações enquanto percorremos junto com a câmera alguns porta-retratos em cima do piano, que mostram fotos da história do casal, momentos felizes que vêm acompanhados da reflexão de Hannah em off: “Ela foi tão bonita um dia, e ele tão estonteante. Ambos tão cheios de promessas e esperanças que nunca se concretizaram. E as brigas e as infidelidades para se colocarem à prova e culparem um ao outro. É tão triste. Eles amavam a ideia de nos ter [os filhos]. Já nos criar não os interessava. Mas é impossível usar isso contra eles. Eles não sabiam como fazer de outra maneira”.

Eles não sabiam. Nós não sabemos. Ninguém pode saber. Essa é a mensagem que salta de Hannah e suas Irmãs — e talvez de toda a obra do cineasta. E este, o que eu considero um dos trechos mais tristes e bonitos do filme.

Em uma entrevista, perguntaram a Woody Allen o que ele teria aprendido sobre relacionamentos depois de tantos filmes sobre o assunto. Ele respondeu que não aprendeu nada, e que nada pode ser aprendido sobre essas questões — exatamente como Elliot diz ao terapeuta: nenhuma sabedoria pode ser verdadeiramente útil ao coração.

“No que diz respeito às coisas importantes da vida, você nunca aprende nada. Você pode aprender sobre coisas de tecnologia, sobre coisas específicas, mas sobre os problemas reais com os quais as pessoas têm que lidar, em qualquer assunto, sejam existenciais ou românticos, você não aprende nada. Você faz a si mesmo de tolo aos 20, e faz a si mesmo de tolo aos 40, aos 60 e aos 80. Os gregos antigos estavam lidando com esses mesmos problemas. Eles estragavam tudo o tempo todo, assim como as pessoas estragam tudo agora. Em todo o mundo, relacionamentos são muito, muito traiçoeiros e muito difíceis. Você não aprende nada. Não é uma ciência exata, que se possa aprender. Você age sempre por instinto e seu instinto te trai, porque você quer o que quer, quando quer. É muito duro. A maioria dos relacionamentos não funciona, e não dura mesmo que funcione. Quando você vê um que realmente é amável, é uma raridade. É ótimo que duas pessoas, com todas suas complexas necessidades, encontrem uma à outra e que tudo funcione bem. Eu não aprendi nada. Eu tenho anos e anos de fracasso. E não tenho nada a dizer. Eu não tenho nenhuma sabedoria”.

Uma das passagens que o diretor não gosta no filme é aquela em que Mickey conta para Holly como conseguiu superar o desespero a que se entregou quando concluiu que a vida não tinha sentido algum. Ele confessa que após tentar suicídio e falhar — a arma escorregou porque sua testa estava suada; a tragicomédia da vida — acabou entrando em um cinema e assistindo a um filme que via desde sempre; na tela, passa um cena de Duck Soup, com os irmãos Marx. Lembrar que aquelas pessoas eram tão engraçadas e estavam se divertindo tanto no filme e que havia momentos como aquele o fez querer aproveitar essa experiência de vida pelo tempo que durasse, ainda que fosse finita.

Foi o cinema que o salvou — e eu não poderia compreender melhor essa sensação. Quando preciso “justificar” meu amor pela obra de Woody Allen, mais do que qualquer argumento racional, é este o mais verdadeiro: porque Allen salvou a minha vida, e mais de uma vez.

Ao contrário do filme, o fim da peça de Tchekhov não traz redenção. As três irmãs permanecem insatisfeitas, seus sonhos em suspenso, a felicidade tão distante quanto a idealizada Moscou, antes uma Pasárgada do que uma solução. Termina com uma fala de Olga, em certa sintonia com o discurso de Allen — e talvez um pouco também com o de Tolstói em Confissões: “Ah, meu Deus, o tempo passa. Tudo passa. Nós passamos. Estamos aqui por tão pouco. Pouquíssimo. Vamos ser esquecidas. Nossos rostos vão ser esquecidos. Se a gente soubesse o porquê de tudo isso…”

Allen afirmou que o talento de Tchekhov permitia ao escritor russo que seus finais fossem miseráveis e, mesmo assim, as pessoas pudessem sentir algo de bom nessa infelicidade, tamanha a qualidade da obra. Disse que se tivesse o mesmo dom, teria terminado Hannah e Suas Irmãs de forma mais dramática. Não o tendo, precisou dar o braço a torcer aos estúdios e ao juízo da audiência da preliminar. Em outros filmes, no entanto, o cineasta conseguiu. Em Vicky Cristina Barcelona (2008), por exemplo, que, apesar da atmosfera alegre, também tem um final desolador — e teve uma recepção calorosa do público, sendo um sucesso de bilheteria.

Sou suspeita, eu sei, mas vamos concordar que apesar da autoimagem destrutiva e do excesso de modéstia, falta de talento, definitivamente, nunca será um problema para Woody Allen.

Fabiane Secches
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