Textos

24 de setembro de 2013

Hipnose coletiva

As luzes se apagam e eu deixo de existir.

Não se trata de uma não-existência vazia: tudo o que é meu ainda ecoa, mas agora em silêncio. Os pensamentos, as lágrimas, as gargalhadas… tudo também é silêncio. Na tela, as personagens não são eu. Por uma hora e meia, ou duas, ou mais, provo a experiência de sair do corpo.

Tudo se acalma, mesmo quando a catarse traz ondas turbulentas que me naufragam. Não é sobre mim, mesmo quando é. Mesmo quando é quase, ou quando é muito, mesmo quando cutuca as feridas mais profundas nessa alma que é minha, mas que, nesse momento, não está em mim.

Eu conheço lugares que nunca vi como a palma da minha mão. Reconheço falas de diretores como as de um amigo íntimo. E experimento vidas outras, amores outros. Outros dramas, outros sorrisos. O mundo é grande, embora às vezes tão pequeno, e nesse pequeno momento fica maior: com ou sem aperto no peito, eu consigo respirar.

As luzes se acendem e eu desperto. Do meu lado, o outro desperta também. Dividimos entranhas e alucinações. Agora somos apenas desconhecidos embriagados, que tentam disfarçar o constrangimento diante da hipnose coletiva.

Ir ao cinema é como tirar férias de mim mesma. E, ao mesmo tempo, me reencontrar depois de uma longa viagem, com a estranheza e a familiaridade que somente certa auto-ausência nos torna capazes de sentir.

– É por isso, então? — você poderia me perguntar.
– É por isso, também.

 

* Imagem: Lucille Michieli.

Fabiane Secches
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