Entrevistas

08 de abril de 2015

Liliane Prata

A escritora e jornalista Liliane Prata é mineira como eu, mas foi em São Paulo que nos encontramos. Primeiro, eu a conheci através de seus textos. Só mais tarde é que nos conhecemos pessoalmente. Quanto mais nos aproximávamos e quanto mais eu a lia — as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo –, tanto mais eu me surpreendia.

Liliane tem tanto carisma que gostar dela é inevitável — é uma dessas raras pessoas solares e genuínas, que nos atraem para seu campo magnético sem nenhum esforço. Mas, se de um lado existe essa mulher comunicativa, leve e bem humorada, de outro existe uma escritora habilidosa em tratar de situações tristes, confusas e pesadas. A mulher bonita, interessante e popular, que facilmente poderia ser “a garota esquisita” que se torna a rainha do baile em um filme americano, também é uma “intelectual” com duas graduações — formou-se em jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais e, depois, em filosofia, na Universidade de São Paulo –, tem Sêneca na cabeceira e uma história com passagens dolorosas de TOC e depressão.

Estereótipos são mais do que tolos: são insuficientes. Insuficientes não apenas para descrevê-la como pessoa, mas também para descrevê-la como escritora; dos livros infantojuvenis aos adultos, Liliane transita entre universos bastante distintos.

“Encaro cada livro que escrevo como único e cada história mexe muito comigo enquanto estou escrevendo. Minha doação é igual, não importa se o livro é para jovens ou adultos, e não acho que escrever para jovens seja mais simples ou fácil, por exemplo. A diferença, pra mim, não está na idade do leitor ou do protagonista, mas na ‘tonalidade’ do livro, sabe? Se estou criando uma personagem depressiva como a Claudia de Três Viúvas, sofro com o sofrimento dela, aquilo me pesa. Por outro lado, se estou escrevendo algo leve e engraçado, como o que publico este ano pela Editora Gutenberg, todo o processo é bem mais alegre. Os dois tipos de tom são convidativos para mim: quando estou escrevendo um livro, meu momento preferido do dia é sentar para escrevê-lo, fico até meio inquieta enquanto não chega esse momento. Mas páginas leves me deixam bem, e páginas pesadas me deixam mal”, simplifica a autora.

Aliás, a simplicidade é uma característica marcante desta mulher/escritora tão complexa. E na tentativa vã de escrever uma introdução que possa apresentá-la de algum modo, fico com um trecho de Ana Maria Machado ao falar sobre Luis Fernando Verissimo: “Estamos exatamente diante daquele processo que Carlos Drummond de Andrade descreveu tão bem, ao dizer que queria a beleza da simplicidade — mas não a beleza do que nasceu simples e sim a beleza do que ficou simples. Fruto de atenção impiedosa, muito trabalho e aguda consciência”.

Dizem que os mineiros vão comendo pelas beiradas e chegam lá sem contar vantagem: com apenas 34 anos, Liliane escreveu oito livros (sete publicados, o oitavo saindo em breve, ainda neste ano) e é uma das pessoas mais versáteis e produtivas que conheço. Lê muito (mesmo), participa de diversos grupos de estudo, é uma mãe, amiga e esposa presente, mantém um blog e dois canais do YouTube — um próprio e outro com a amiga Isa Maiolino — , é uma das autoras da Confeitaria e agora também uma das editoras da revista Claudia.

Como ela consegue?, você deve estar se perguntando. Eu me pergunto muitas vezes. Talvez porque Liliane seja tantas, porque extrapola qualquer descrição que se tente fazer dela.

Essa introdução e a entrevista que a segue jamais darão conta — como dizemos em Minas. A mim, cabe acompanhar com admiração — e cada vez mais, com carinho e gratidão.

 

CONFEITARIA – Como você se sente ao reler os seus primeiros livros? Quem publica cedo se transforma como pessoa e como escritor na frente do público, o que não é uma tarefa fácil. Muitas cobranças internas e externas. Como você lida com isso?

LILIANE PRATA – Gosto mais de ler minhas crônicas do que meus livros. Porque a crônica é pequena, então, quando releio, penso que mudaria só duas ou três coisinhas naquele texto e fico satisfeita. Já ler um livro de 300 páginas, como o O Novo Mundo de Muriel… Aí são 300 vezes duas ou três coisinhas, e a leitura não é muito agradável. Mas depende do livro. À Revelia, meu primeiro romance adulto, eu mudaria quase todo. O Diário de Débora, apesar de ter sido meu primeiro livro, me deixa mais satisfeita, me dá a sensação de que cumpri bem o que me propus a fazer ali. O Diário de Débora e Sem Rumo são meus livros que mais me deixam satisfeita (ou que me deixam menos insatisfeita) quando cismo de reler algumas partes. Mas todo mundo que escreve, seja profissionalmente ou não, precisa aceitar que o papel é estático, enquanto nossa cabeça é dinâmica. Posso gostar de algo que escrevi hoje e detestar anos depois. Aceito esse fato, não fico com vergonha de nada que já produzi, mesmo que hoje aquilo não faça mais sentido pra mim.

 

CONFEITARIA – Você conta que sempre escreveu diários pensando em quando tivesse uma filha, desde novinha. E que realmente guardou e quer entregar esses diários para a sua filha, Valentina, quando ela tiver a mesma idade que você tinha ao escrevê-los. Através desses diários e dos seus livros,  sua filha vai conhecer outras Lilianes além da Liliane mãe. Como você se sente sobre isso?

LILIANE PRATA – Quando leio meus diários, sinto ternura e compaixão por aquela menina agitada, angustiada e cheia de ansiedade e preocupações intermináveis. A Valentina vive falando que sou “calminha”, assim como as pessoas do meu convívio. Tenho certeza de que vai ser um choque pra ela, que vai ver uma versão bem diferente de mim. Nos diários antigos, sou puro drama e intensidade. Aquele típico drama juvenil. Mesmo nos meus diários de hoje (sim, ainda escrevo!), minha escrita tem muito mais caos e intensidade do que aparento no meu dia a dia de “calminha”.

 

CONFEITARIA – Em Sem Rumo você teve dois grandes desafios: ambientar a história em um passado próximo (o que me parece mais difícil do que num passado distante, com linhas de divisão de tempo mais claras) e escrever sob a perspectiva de um protagonista masculino, já que o livro alterna o ponto de vista de Júlia e de Fernando, sendo ambos essenciais para a história. Como foi essa experiência pra você?

LILIANE PRATA – Tive a ideia de Sem Rumo aos 22 anos, mas não me senti capaz de escrever aquela história e ela ficou anotada. Quando finalmente achei que estava na hora, levei, entre escrever e reescrever, cinco anos. Ou seja, foi um processo longo. Na primeira versão, a trama se passava nos tempos atuais. Aí, um dia, tomando um café, pensei: “Minha história está errada, ela se passa nos anos 80”. Fui pesquisar sobre a data, sobre o início da AIDS no Brasil, e então fiz ajustes na trama e reescrevi todo o livro. Por isso fiquei surpresa quando um crítico que resenhou o Sem Rumo para o Guia da Folha falou que o livro tinha “elementos demais” dos anos 80. Não foi nada forçado, pelo contrário: fui substituindo celular por ficha de telefone, Ipod por walkman etc. Não posso fazer nada se nos anos 80 havia muitos elementos dos anos 80 (risos). E essa década deu muito mais sentido ao livro e aos dilemas e perturbações do Fernando, o protagonista, um cara, acima de tudo, covarde, na minha opinião. Pra mim, Sem Rumo é um livro sobre covardia perante os próprios desejos. Quanto ao gênero, escrever pensando em um cara bem “metido a macho” como o Fernando, entrar na cabeça dele, isso foi uma parte bem saborosa do processo. Acho que é o mais prazeroso de escrever ficção: sair de mim e me colocar no lugar de outras pessoas, como se, num filme, eu fosse todo o elenco, a diretora, a figurinista, tudo ao mesmo tempo. Fui homem e mulher enquanto escrevia.

 

CONFEITARIA – Agora você também é editora da revista Claudia. Como é a sensação de estar de volta à Editora Abril [Liliane já havia trabalhado na Abril como colunista e editora da revista Capricho, há sete anos] e ao dia a dia de uma redação?

LILIANE PRATA – Foi muito repentina essa minha volta à Abril. Num dia, me ligaram da Claudia, logo em seguida eu estava lá. Achei uma delícia essa oportunidade de oxigenar meu dia, minha rotina, meus contatos — afinal, foram sete anos de home office! Ainda estou me adaptando à nova rotina, mas devo dizer que a ideia de estar num veículo tradicional, que fala com um numeroso contingente de mulheres do Brasil inteiro, de profissões e mundos variados, me agrada muito. Em mim, estar de volta à Abril mistura sentimentos de estranheza e de familiaridade. Familiaridade principalmente pela rotina de se estar numa redação e pelo concreto da coisa: é outro título da casa, mas são os mesmos corredores, elevadores. Estranheza porque a Abril mudou e eu mudei. Entrei na Capricho aos 24 anos, recém-divorciada, agitada, mergulhando de cabeça numa rotina de extremos: de dia na Capricho, um ambiente jovem, solar, e à noite na USP, cursando filosofia, numa atmosfera séria, intelectualizada. Volto agora formada, casada, com uma filha, e não para um título jovem, mas para um que fala para mulheres adultas. Me observo enquanto ando pelos corredores, estranho tudo e, ao mesmo tempo, me reconheço. Fazia sete anos que eu trabalhava em casa, escrevendo meus livros e indo à Abril apenas eventualmente, para freelas e reuniões. Agora, tenho um crachá de novo, estou de volta à “firma”. Dá um frio na barriga. O legal é que acabei de entregar meu livro novo pra editora e não vou ter que conciliar redação/escrita de livro tão cedo. Até lá já me adaptei!

 

CONFEITARIA – A sua experiência como jornalista ajuda ou atrapalha a escrever ficção? Se de um lado pode ser um instrumento valioso de pesquisa para os livros — como imagino que aconteceu em Sem Rumo — de outro, pode engessar a criatividade, aprisionar em regras de manual de redação. Como é a sua relação jornalista x escritora?

LILIANE PRATA – Acho que o segredo é uma espécie de hipnose… Explico melhor: escrever ficção tem um efeito quase hipnótico sobre mim. Para você ter uma ideia, quando eu estava escrevendo Três Viúvas, já aconteceu de tocarem o interfone três vezes em casa e eu não ouvir. Fico imersa naquele mundo. Sonho com os personagens, penso neles no banho. Então, não existe essa confusão para mim, a não ser, claro, que eu esteja dispersa, desconcentrada enquanto estou escrevendo — acontece, né? Agora, quando estou fazendo um freela de jornalismo ou publicidade, não entro em outro mundo, fico mais pé no chão: dou telefonemas, faço as entrevistas e pesquisas necessárias, ouço perfeitamente os interfones.

 

CONFEITARIA – Você diz que as pessoas se surpreendem quando você afirma que é também uma pessoa triste — somos todos tantos, mas acabamos cometendo o equívoco de tentar simplificar o outro. Você é vista como uma pessoa alegre, extrovertida, social. Não é a “imagem tradicional” que se tem de uma escritora — ao menos não até pouco tempo. Existe um imaginário em torno de escritoras mulheres, como Sylvia Plath, Virginia Woolf, Anne Sexton, envolvendo depressão, doenças mentais, suicídio. Tem até uma carta da escritora Cheryl Strayed em Pequenas Delicadezas tentando combater essa ideia. Você sente que existe algum preconceito nesse sentido?

LILIANE PRATA – Há um certo encanto humano pela subversão. Pessoas que não aceitaram se enquadrar nas convenções chamam a nossa atenção, viram notícia e até mesmo ganham nossa admiração e respeito. É por personagens assim que nos interessamos nas telas do cinema e nas páginas dos livros. Já aqueles que negociaram no mundo a ponto de viver nele com alguma serenidade, que sorriem com facilidade e guardam leveza no olhar podem se tornar excelentes vizinhos, mas não dão bons personagens. Não é à toa que o André Gide afirma que, com bons sentimentos, faz-se má literatura.

Estou falando da arte, mas penso que esse encantamento pelo desajuste e pelo sofrimento é transportado para a vida por muitos. Não tenho dúvidas de que, em certos meios — penso no ambiente acadêmico, no editorial e no artístico, de modo geral, é claro — há uma glamourização da tristeza e de uma certa perturbação mental à la Birdman. Gente equilibrada é entediante, gente louca é interessante. Aristóteles dedicou mais páginas de sua Poética à tragédia do que a comédia (apesar de haver a suspeita de que as páginas dedicadas à comédia teriam se perdido); romances premiados são, em boa parte das vezes, pesados, sombrios. É, sem dúvida, um modo de encarar as coisas.

Como todo mundo, já experimentei diversos momentos de tristeza. Já fui diagnosticada com depressão três vezes, mas só aceitei medicação em uma delas (por menos de um ano, porque eu ficava aflita, querendo deixar o remédio). Na minha infância, tive TOC por muitos anos e aquilo era muito sofrido para mim. Adolescente, eu experimentava as flutuações de humor comuns à idade. Não usava drogas, mas, em alguns momentos, voei para além dessas flutuações comuns e passei por algumas situações mais extremas, como inclinar meu corpo para fora numa janela do quinto andar e atravessar de olhos fechados, de madrugada, a avenida Brasil, em Belo Horizonte, ouvindo as buzinas para mim. Não tenho dúvidas de que eu achava tudo aquilo bonito e interessante. Eu adorava falar sobre o meu (superado) TOC. Eu falava daquilo com orgulho. Eu era uma pessoa problemática, que coisa sensacional! Eu era sorridente, eu me dava bem com meus pais e tirava boas notas na escola, mas, no fundo, era uma mente tumultuada. Tenho textos afetadíssimos em diários dessa época.

Aos 23 anos, publiquei O Diário de Débora, postava num blog textos animados e engraçadinhos, comecei a escrever para a Capricho… Eu adorava escrever esse tipo de texto, mas ficava meio puta quando as pessoas à minha volta comentavam que eu era leve e engraçada. Minha vontade era gritar: “sim, sou leve e engraçada, mas não sou só isso, ok? Já tive TOC, depressão, tenho meu lado perturbada, triste, angustiada, eu sou… legal.”

Escrever Sem Rumo e Três Viúvas pra mim foi, nesse sentido, uma libertação. Canalizei para esses livros meu lado mais angustiado. Na época em que escrevi Três Viúvas, eu estava saindo de uma depressão foda, em que eu ficava quatro, cinco dias sem tomar banho. Nunca precisei deixar de trabalhar (ou de ir à escola quando criança), mas a existência era constantemente um peso para mim, embora, externamente, eu aparentasse mais alegria do que sofrimento.

Não sei dizer exatamente quando parei de ceder tanto à melancolia. Penso que foi quando comecei a ressignificar dentro de mim a tristeza e a angústia: o que elas representavam para mim? Comecei, aos poucos, a desglamourizar esses sentimentos e isso tem a ver com muitos fatores, desde me tornar mãe até conviver com outras pessoas com um olhar mais simples para a vida, menos afetado. Tenho uma amiga médica, superfocada no cuidado com os doentes — e que não faz a menor ideia da diferença de prestígio entre Nicholas Sparks e Herta Müller. Ela não sabe o bem que me fez ao passar uns dias lá em casa.

Como todos nós, sempre tive todos os sentimentos dentro de mim. Mas esse “ceder” ao meu lado alegre, sem achar que eu valia menos ou que era menos inteligente por causa disso, foi um processo longo, que começou num plano mental (leituras, o curso de filosofia) e evoluiu para além do discurso (meditação, exercícios físicos)… Perdi a resistência à minha alegria, parei de achar tanta graça no sombrio, no difícil, e esses lados foram ficando menos e menos frequentes em mim. Acho que desequilíbrio é uma delícia na arte, não em mim. Acho o máximo ver filmes com pessoas que atiram coisas em suas famílias disfuncionais, mas, lá em casa, busco o equilíbrio e a harmonia. Prefiro não alimentar meu lado que tem ódio, que é vaidoso ao extremo, que se ressente — características que, eu reforço, acredito que todos têm, em graus diferentes, dependendo do temperamento, da genética, da educação, das escolhas… Mas que todos têm. A gente pode alimentar essas características todo dia, até ficarem enorme e nos engolir, ou, pelo contrário, podemos achar que a paz interior é mais bem-vinda.

Sei que a dor, a minha e a da vida, existe, mas já faz alguns anos que não a experimento de um modo tão intenso. Deixo isso para os personagens que crio ou que vejo, leio. Cada vez mais, sigo um caminho de conciliação com o mundo do jeito que o mundo é, e isso me traz uma calma genuína. Virei uma pessoa calma. Na adolescência, eu detestaria ver que eu seria assim aos 34 anos, estou certa. Mas virei. Se é uma mudança sem volta, não tenho como saber, mas gosto de acreditar que a fase de achar a tristeza mais interessante do que a alegria já passou. Hoje, acho melhor ser alegre que ser triste. Ser alegre é diferente de ser ingênuo ou estúpido. Também é diferente de viver eufórico ou de comprar um discurso hedonista e raso. Vejo a alegria como uma sensação boa, de acolhimento interno, uma sensação zen. A alegria como algo que passa pela simplicidade. Não dar tanta importância ao ego, lembrar que a Terra é uma poeira entre tantos outros planetas e galáxias. Tenho uma imagem de Andrômeda no meu desktop e adoro olhar pra ela. Quando faço isso, não penso “nada tem importância, então foda-se”, pelo contrário: sinto uma paz enorme, sinto que estou no meu lugar, que Andrômeda está no lugar dela e é assim que as coisas são. Isso pode até soar desinteressante para os que padecem de melancolia crônica, os que não só enxergaram o abismo de Heidegger, mas se jogaram lá. Ser um alegre crônico pode não dar um personagem interessante, mas é um modo interessantíssimo de se experimentar a vida.

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Assista também à entrevista em três tempos com Liliane para o novo canal da Confeitaria no YouTube, o Confeitaria Apresenta (inscreva-se aqui).

* Imagem: fotografia de Liliane Prata por Isa Maiolino para a Confeitaria.

Fabiane Secches
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