Entrevistas

14 de dezembro de 2015

Maria Clara Drummond

A jornalista e escritora Maria Clara Drummond nasceu em 1986 no Rio de Janeiro e acaba de voltar a viver na cidade depois de uma temporada em São Paulo. Esta não é a única novidade na vida da autora: Maria Clara acaba de lançar o seu segundo romance, A Realidade Deveria Ser Proibida, pela editora Companhia das Letras, uma das maiores e mais respeitadas do país. O seu livro anterior, A Festa é Minha e Eu Choro Se Quiser, foi publicado pela Editora Guarda-Chuva em 2013.

Maria Clara conta que, na infância, já gostava muito de ler: “Decorava os livros didáticos das aulas e do curso de inglês, e saía recitando por aí. Aos dez escrevi uma série de contos de detetive chamada Melhores que o FBI. Depois disso, embora escrevesse compulsivamente fluxos de consciência e diálogos soltos, não consegui concluir mais nada. Tentei diferentes formatos, vozes, estilos, temas, mas nada com início-meio-fim que fosse além da segunda página do Word. Os únicos dois trabalhos de ficção que eu tenho concluído são os dois romances que publiquei, não tenho nada na ‘gaveta’. Tenho facilidade para textos jornalísticos, que é a minha profissão, mas com literatura eu sofro muito até conseguir um resultado que me satisfaça.”

Conversamos com a autora sobre seu novo livro, a passagem para uma grande editora e suas referências e inspirações literárias:

 

CONFEITARIA — Além da passagem de uma pequena para uma grande editora, outra mudança significativa marca o lançamento do seu segundo romance: o eu-narrativo. Se no livro anterior o seu protagonista era masculino (Davi), dessa vez não se trata apenas de uma personagem feminina — narradora-personagem, no caso –, mas de uma Eva, simbolicamente uma representação do universo feminino. A escolha do nome teve intenção de abarcar um ideal de feminino que pode ser compartilhado coletivamente ou foi uma decisão de outra ordem?

MARIA CLARA DRUMMOND — Um dos motivos é objetivo: como não uso aspas em nenhum dos meus livros, o indicativo de fala, de diálogo, é apenas o chamado ao protagonista, e por isso prefiro que meus personagens-narradores tenham nomes curtos, sem necessidade de apelido. Como gosto pessoal, nomes portugueses ou judaicos me atraem, e selecionei alguns nomes curtos que achava bonitos. O pensamento de Eva, como homônima da primeira mulher, surgiu posteriormente, ao longo da escrita, mas gostei do simbolismo. Sempre soube que muitas mulheres iriam se identificar com a Eva, então do feminino e o feminismo sempre estiveram na minha mente, embora nas versões finais essas questões estivessem bem mais diluídas que nas versões iniciais, que eram praticamente um panfleto.

 

O eu-narrativo feminino invariavelmente desperta a velha reflexão sobre a distância entre a ficção e a autobiografia. Essa foi uma questão para você ao construir e escrever sobre a Eva? Foi mais difícil se separar dela?

Foi bem mais difícil. No primeiro livro, além do protagonista masculino que afasta da biografia – e aquela escolha foi proposital – eu era mais preocupada em não pegar nada emprestado dos outros. Neste segundo, criei um patchwork de diálogos e gestos que percebi ao longo de toda minha vida – tem falas de pessoas com quem eu jantei apenas uma vez na vida, dez anos atrás, e nunca mais esqueci, e agora estão no livro. Eu tenho o costume, por exemplo, de anotar no bloco de notas diálogos e frases que acho interessantes. Como foi um processo bem mais demorado, com infinitas versões, o que existia de real ou autobiográfico foi sendo maquiado pouco a pouco, até sobrar apenas a ficção.

 

Apesar das diferenças entre os livros, a temática de certo modo permanece: o seu olhar sobre as relações contemporâneas. Relações afetivas de diferentes naturezas (paixões, casos, namoros, amizades), mas também relações entre as pessoas e o mundo das coisas, das redes sociais, dos bens de consumo. O que você, como autora, percebe que salta da contraposição entre as suas duas obras nesse sentido? 

No primeiro livro, não havia pensado em nenhuma temática de antemão. Escrevi aquele romance de um jato só, sem grandes revisões, sem nenhuma edição, foi simplesmente um fluxo. Fiquei surpresa quando disseram que era o “retrato da geração Instagram” porque para mim era muito natural mencionar e refletir sobre redes sociais. São ferramentas que a cada dia fazem mais parte de nossas vidas. No segundo livro, queria escrever sobre amor. Mas é muito difícil escrever sobre amor sem soar piegas. Elaborei então todas as variações sobre o tema, como se fosse uma investigação, para tentar criar algo que não fosse tão óbvio. De resto, eu tenho uma personalidade um pouco obsessiva em racionalizar e analisar qualquer coisa, desde bens de consumo até relacionamentos, então isso acabou que transpareceu nos dois livros. Reflexões que eu não havia concluído no primeiro, passaram para o segundo, e as próximas reflexões sobre esses mesmíssimos temas estarão no terceiro.

 

Os seus livros trazem uma infinidade de referências “intelectuais”, assim como de outros universos — como moda, gastronomia, a noite e a elite paulistana. De certo modo, essas referências se misturam em um caldeirão de superficialidades, como se livros, filmes e quadros pudessem também ser tratados como uma bolsa, instrumentos de construção de imagem a serviço de impressionar o interlocutor. Foi sua intenção fazer esse paralelo? Esse “uso” mais consumista e enlatado da literatura, do cinema e das artes a incomoda pessoalmente ou você acredita que são apenas características da geração que permeia seus romances?

Acho que essa intelectualidade para consumo, não muito diferente de uma bolsa de grife feita para impressionar, é bem característica dessa minha geração. Conheço muitos “intelectuais de salão” que impressionam porque leram as orelhas de todos os livros do mundo. Nos últimos anos, a gente tem visto uma democratização do debate, que saiu da esfera acadêmica e ganhou o cotidiano. Temas como feminismo, gênero, apropriação cultural, genocídio negro e política em geral entraram nas vidas das pessoas comuns, mesmo as que não tem histórico com militância. Por um lado, é positivo porque nas redes sociais pode-se ter acesso à debates extremamente qualificados fora da universidade, e que podem informar melhor que a grande mídia, mas percebo também o caminho inverso, o achismo mais banal sendo tomado como opinião relevante e ganhando espaços nobres no jornal. Tenho a impressão que as pessoas da minha geração acham que sabem muito sobre determinado tema, quando não sabem nada, somente viram um vídeo de dez minutos do Chomsky falando sobre alguma coisa, percebo uma certa arrogância opinativa, nada hesitante ao dizer o que pensa, somado a necessidade de ter sempre uma opinião. Sinto falta do bom e velho “só sei que nada sei”. Bem, sou parte dessa geração, não sou imune a essas coisas, mas cada vez mais acho libertador dizer: não tenho uma opinião sobre esse assunto.

 

Você releu este livro depois de publicado? E o anterior? Se sim, como é essa experiência de leitura para você?

Sim, os dois. Tenho a tendência a ficar mais satisfeita quando o livro não é irregular. Em geral, A Realidade… é melhor em vários sentidos do que A Festa é Minha…, mas como tem partes que são bem mais trabalhadas que outras isso me dá um pouco de aflição, de perceber que eu poderia ter me esforçado mais aqui e ali. O primeiro livro é bem menos elaborado, é mais superficial mesmo, mas todos os capítulos são bons de maneira igual, então tendo a ficar mais satisfeita.

 

E quais escritores você admira mais, como leitora? E quais deles são uma inspiração também ao escrever?

A maioria das minhas obsessões são de não-ficção: Janet Malcom, Tony Judt, Hannah Arendt. Recentemente, Susan Sontag, mas ainda é cedo para dizer que ela é para sempre na minha vida. Proust é um escritor que me emociona demais, mas ainda preciso me dedicar mais a ele. Outras obsessões são: Albert Camus e Sylvia Plath. A última talvez seja uma referência mais clara, os outros não. O livro que eu gostaria de ter escrito é Os Enamoramentos, do Javier Marias.

 

Por que Os Enamoramentos? O que faz do livro tão especial para você?

Então, sempre gostei de ler sobre amor, mas, para escrever, tinha medo que o lirismo que costuma ser presente nesse tipo de texto resvalasse para algo cafona e piegas. Os Enamoramentos trata do amor de uma perspectiva mais analítica dentro da ficção. Foi a partir daí que entendi que também poderia escrever sobre amor. Antes, só tinha visto esse olhar quase científico em Fragmentos de um Discurso Amoroso, do Barthes, livro que gostei muito, mas Os Enamoramentos me seduziu bem mais.

 

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Saiba mais sobre os romances de Maria Clara abaixo:

A Festa é Minha e eu Choro Se Eu Quiser
A Realidade Deveria Ser Proibida

* Fotografia de Renato Parada

Fabiane Secches
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