Textos

17 de novembro de 2012

O amor

— E essa foto?

— É do Henri Cartier-Bressom.

— Arrã. Eu conheço. Mas por que você pendurou aqui, em cima da sua cama?

— Ah, por nada. Só acho bonita.

— Me conta. Fiquei curioso.

— Não sei. Eu gosto de fotojornalismo.

— Tá bom, mas entre todas as fotos, por que essa?

— Você não gosta?

— Gosto. Não sei. Acho que gosto. Mas então… por quê?

— Ah, sei lá. Acho que essa foto me lembra de que o amor é possível.

— Que o amor é possível?

— É. Você sabe, essa cena aconteceu assim como foi retratada. Sem tirar nem por. Ele só clicou. Não é um cenário, as pessoas não foram orquestradas. Ao menos por um instante, elas estavam assim: apaixonadas, felizes.

 

Ele deu uma risada. Ela não entendeu bem o tom, mas não gostou.

 

— Que foi?

— Não, nada.

— Diz. Por que você riu? Agora quem ficou curiosa foi eu.

— É que… como é que você tem tanta convicção de que eles estavam apaixonados e felizes?

— Ah. Porque eles mal podem evitar ficar longe um do outro, se beijam contra a distância da mesa. E são casados, viu a aliança no dedo dele? O casamento não precisa acabar com o romance. Essa foto me lembra disso também. Que de vez em quando, só de vez em quando, a vida pode se parecer com o melhor do cinema e da literatura, com o melhor da ficção.

— Arrã. Vi a aliança. Mas por que você acha que ele era casado com ela?

— Lá vem você.

— Ué. Eles podiam ser amantes.

— Não, não. Eles são casados e esse é o cachorro dos dois. O olhar do cachorro pra ela é de ternura, de intimidade. Presta atenção.

— É nada. É um olhar de estranheza, quase de desconfiança. Olha só.

 

Quem riu agora foi ela. Ele entendeu bem o tom, e também não gostou.

 

— Você é muito cético.

— E você é muito ingênua.

 

Pronto, dois minutos e já estavam armados e defensivos.

Todo encanto de antes foi comprometido por uma rachadura que deixava vento, chuva e trovões passarem.

 

— É uma pena que você não acredite em nada.

— Parece que quem não acredita é você.

— Eu? De onde você tirou isso?

— Não sou eu que preciso ter uma foto enorme na parede do quarto com dois estranhos dando um beijo morno pra me lembrar que o amor existe.

— Eu gosto de fotojornalismo. Só isso.

— É, você gosta porque… como você disse? Ah, porque mostra que a vida pode parecer com o melhor da ficção.

— Sim, e qual o problema?

— Ficção. Pra você, amor é ficção.

— Você está distorcendo o que eu disse, assim como fez com o quadro.

— Eu não distorci nada. É assim que eu vejo.

— Distorceu, sim. Eu aposto que eles eram bem casados. E felizes.

— Eu aposto que ele era casado. Mas com outra. E infeliz.

 

Ela pegou o celular, digitou alguma coisa no Google, mas não achou nada que comprovasse a sua teoria, nem a dele.

 

— Acho que cada um vai ter que ficar com a sua versão.

 

E ele foi tão amargo nessa constatação que, quando ela se deu conta, as palavras já estavam saindo da sua boca:

 

— E eu acho melhor você ir embora.

 

Ele franziu os olhos e fez um sinal de que ela era maluca, rodopiando o indicador ao lado da cabeça. Ela achou aquilo a gota d’água, foi até a sala e abriu a porta do apartamento sem hesitar.

Ele deixou a taça de vinho pela metade ao lado do abajur e vestiu a jaqueta sem questionar.

Billie Holliday ainda cantava ao fundo, mas ela só escutava o som do seu coração partindo.

Nos poucos segundos em que ele esperou pelo elevador, no hall, os dois se olharam pela última vez. Era quase amor. Quase amor ali entre eles. Não importava a fotografia.

Mas o elevador chegou e o levou consigo.

Ela ainda pensou em mandar uma mensagem e dizer que exagerou. Mas achou melhor cortar o mal pela raiz.

Ele ainda pensou em ligar e lhe pedir desculpas pelo que havia dito. Mas achou melhor deixar como estava.

Ela vestiu um pijama de flanela e meias quentes. Olhou de novo para o quadro, em lágrimas. Agora, como se o visse pela primeira vez:

— Mentirosos de uma figa!

Fabiane Secches
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