Textos

17 de abril de 2014

Os Loiros

Começo este texto com duas ressalvas: a primeira é que assisti a “Os Loiros” no original e não sou fluente em espanhol. Então, provavelmente, muito foi perdido. A segunda é que minha própria experiência com documentários é bastante reduzida, embora me interesse muito pelo formato.

Temos o vício de tentar encontrar traços autobiográficos na ficção, mas muitas vezes desconsideramos o fato de que toda biografia, de certo modo, também é ficcional. Quando contamos uma história, também a ficcionalizamos em alguma medida. Quem conta se torna parte do que conta, ainda que tente ser imparcial.

A partir dessa premissa, o tema da Mostra Silêncios Pessoais e Históricos me fez pensar: em que medida é possível contar a história dos ausentes de maneira estritamente documental?

“Os Loiros (“Los Rubios”) é um filme lançado em 2003 que conta a história da cineasta Albertina Carri, diretora do documentário. Acompanhamos a jornada de Albertina (interpretada pela atriz Analía Couceyro, portanto há no mínimo uma instância de ficção) em busca de seus pais, desaparecidos durante a ditadura da Argentina.

Seria possível encontrar a verdade sobre os pais de Albertina? Ou, a essa altura, eles já teriam se tornado personagens quase fantasiosos nas lembranças de quem os conheceu?

Em uma esfera mais geral: é possível encontrar a verdade sobre o passado ou o passado será sempre uma criação fantasiosa inscrita sobre traços da realidade?

O filme começa com uma brincadeira de Playmobil que remete à infância. Depois, vemos Albertina em sua busca da própria história, fazendo entrevistas e pesquisas na tentativa de juntar fragmentos do passado. O tom documental está presente em quase todas as cenas, mesmo nas que são interpretadas: quando a acompanhamos assistindo à fitas cassetes e fazendo perguntas aos antigos vizinhos, trata-se de uma representação de Albertina, não dela mesma . A câmera é amadora e os silêncios do filme — como no tema da mostra — são longos. Barulhos de páginas de álbuns sendo viradas, o vento contra o carro na estrada, o trânsito, a porta do elevador se abrindo… O silêncio só não é completo, às vezes, por conta desses ruídos, que ajudam a dar o tom realista do que vemos.

Em algumas cenas, a sensação é quase a de que a câmera foi esquecida ligada, gravando em tempo real as ações, como quando Albertina escreve à mão um cartaz em que lemos: “Exponer la memoria en su propio mecanismo. Al omitir, recuerda”.

Assistimos também ao que seriam os bastidores do próprio documentário, em um recurso de metalinguagem que me parece bastante apropriado para a abordagem escolhida.

O dilema que me acompanha desde sempre continuou depois do filme: nossas memórias são imprecisas e ressignificadas, e não temos como resgatar o que se foi sem criar uma nova versão do evento.

O presente escreve o passado tanto quanto o passado escreve o presente.


Uma versão desse texto foi publicada no site da Woman in Film & Television (WIFT Brasil), em abril de 2014.

Fabiane Secches
Leia mais textos de Fabiane aqui.