broder, Textos

29 de outubro de 2012

Ao maluco mascarado no furacão

A repórter entrou ao vivo da zona sob risco de alagamento em Washington protegida por casacos e capa de chuva. Mais um tópico da cobertura do furacão Sandy, a tempestade mais feroz da história recente. Ela preparou seu texto que ressaltaria o perigo iminente e os preparativos pra enfrentá-lo, mas não conseguiu falar nada. O assunto passou a ser o homem do outro lado da rua. A câmera aproximou a imagem. Lá estava você. Só de shorts, tênis de corrida e uma bizarra máscara de cavalo. Fazia jogging pela calçada imitando um atleta olímpico. Parou por um momento, enxugou o rosto, percebeu a câmera, acenou e sumiu dobrando a esquina.

Ao ver você, eu ri. Depois assisti ao vídeo de novo. Os movimentos desengonçados, o momento pouco indicado pra uma corridinha pelo bairro, a roupa inadequada, tudo indicava a sua vontade de dobrar a lógica fria dos fatos à sua loucura momentânea. Você não parecia ter um plano. Você apenas era. Se estivesse dizendo algo, seria: “eu estou aqui”.

O absurdo daquilo era hipnótico.

O desastre iminente fomenta a máquina. As câmeras posicionadas para pegar as imagens de destruição mais espetaculares. Pros canais de notícia, é o equivalente de um capítulo final de novela. Meticulosamente promovido pra causar suspense, exaustivamente planejado pra ter impacto. O mundo espera ansioso por esta cobertura, com uma necessidade inconfessável de que o vento seja inclemente, as ondas sejam altas, a destruição seja visível e chocante. Só não queremos ver corpos espalhados, que isso tira o apetite.

Queremos o caos limpinho e impessoal. Mas você acaba de estragar tudo.

Vestiu sua máscara e saiu correndo pela chuva gelada. A expressão corporal triunfante. Você comandou a atenção de todos por quem passou, e desafiou-os a decifrar a charada que a sua mera presença propôs.

Você é o único herói possível. Não o que impede furacões, mas o que, em meio às notícias mais assustadoras, nos lembra daquilo que importa: estamos aqui. Podemos fazer o que quisermos.

Estamos consumindo apenas a lógica que serve pra vender anúncios entre blocos de notícias, mas notícia é o que acontece com os outros enquanto nossa vida congela na frente da TV.

O lógico é que podemos viver como bem quisermos, podemos amar loucamente, podemos sorrir sem motivo, podemos sonhar com futuros diferentes, podemos correr na tempestade que nem malucos com uma máscara cretina. Isso jamais seria notícia, mas é o que merece e precisa ser lembrado.

O furacão vai passar e os canhões dos noticiários se voltarão pra próxima tragédia, anunciada ou não. Ficaremos nós, com nossas vidas, nossas escolhas e nossas relações uns com os outros. Isso é real. Estamos aqui. Vamos sobreviver.

E se não sobrevivermos, a tragédia não é o furacão, ou o partido que ganhou, ou a guerra, a fome, a peste (a máscara de cavalo te tornando uma paródia ridícula de um cavaleiro do apocalipse talvez não tenha sido acidental), a maldita notícia. A tragédia será amigos não feitos, sorrisos não dados, amores não vividos, impulsos bobos não seguidos.

Obrigado por nos lembrar que ainda há tempo. Na próxima chuva, vou sair pra correr e deixar as gotas lavarem as lágrimas. Estamos aqui. Isso é importante.

Fábio Martinelli
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