Cartas, Textos

20 de setembro de 2012

Blonde Redhead e o hype

O hype é uma coisa realmente triste. A imprensa elege a salvação do rock mais ou menos uma vez por mês, pra dar nova capa de revista. Ou a cada dois dias, pra blogueiros. Mesmo o pessoal descolado, antenado e muderno que dá de ombros tatuados para o mainstream diz amém, todo animado. Então, do nada, aparece uma banda que todo mundo precisa ouvir e amar, senão está out. Nomes que você – e as pessoas de bem – jamais ouviu na vida. E, na semana seguinte, aparece outra, porque aquela já virou super semana passada e é só pros desinformados. Nesse ciclo, a relação das pessoas hype é com a informação, não com a música.

Sou fã descabelado de Elvis Costello, por exemplo. Sei em qual dos trocentos álbuns cada uma das músicas está. Tenho bootlegs, lados B não lançados, sobras de estúdio, acho tudo genial e sempre tive que conviver com o fato do Costello não ser hype. Dentro do panteão dos ídolos punk/new wave, quando ele é lembrado, é como parte do segundo time da cena. E agora entrou pro time dos tiozões, sem merecer maiores ponderações da maioria dos amantes de róque & raipe. Se isso em algum momento me incomodou, não sei mais o porquê. Ele até teve o momento da moda aqui, quando veio pro TIM há alguns anos, e as pessoas emocionadas lotaram os shows para ouvir “She”, cantada sob visível constrangimento. Mas isso não importa. O mais importante é que, conhecida ou não, a música dele serve pra mim. Minha vida é mais feliz com essa trilha sonora, por motivos insondáveis. A informação que a sociedade possa ter é irrelevante neste relacionamento.

Então, quando chega a turma jogando confete e nomes obscuros pro alto, dá vontade de não ouvir e não gostar. Existe uma forte chance de só estarem falando porque todo mundo está falando. Um fenômeno parecido com as pseudo-celebridades que são muito famosas pelo fato, apenas, de serem muito famosas. Desconfio de queridinhos do pessoal que só mede o grau da novidade e não da contribuição musical. Óbvio que essa atitude rabugenta acaba me fazendo perder alguma banda realmente boa, mas, ao mesmo tempo, me livra de centenas de ruindades.

E, fazendo compras num dia de inverno, passei a acreditar numa justiça musical divina.

Num fenômeno que acontece a cada conjunção de Marte com as luas de Urano, ou a cada filme bom do Tim Burton, o que ocorrer primeiro, eu resolvi comprar uma calça nova (Sobre o Tim Burton talvez eu esteja errado, mas quem conhece minhas calças sabe: é um evento raro). Estava na fila do provador da loja. Enquanto esperava, me vi balançando a cabeça sonhadoramente, depois batendo o pé de leve no chão, e então fui invadido por uma onda pensamentos de felicidade e desejos de paz para toda a humanidade, incluindo meu vizinho que reclamava quando eu tocava violão na sala. Me dei conta de que era a música ambiente da loja. Acabei perguntando pro vendedor o que era, ele foi olhar no winamp: Blonde Redhead.

Ahhh, esse nome já tinha me sido soprado pelos passarinhos do hype há um tempaço, e como ninguém mais tinha mencionado desde então, caiu no meu limbo de “banda que sei que existe e só”. Mas, chegando em casa, a primeira surpresa foi descobrir que tinham uma discografia enorme. Escolhi dois álbums ao acaso – meu limite mínimo pra conhecer uma banda. Meu queixo caiu de vez. Como assim os hipsters não me explicaram *direito* que daquela vez era sério e a banda era boa de verdade?

Senão vejamos: Uma japonesa, Kazu Makino, que canta com sotaque e voz fininha característica. Pode parecer irritante, mas Polysics e Pizzicato Five já me ensinaram a achar charmoso. Se as músicas do Blonde Redhead já seriam por si só tristes, a voz de Makino faz com que sejam quase que insuportavelmente doloridas e, por isso mesmo, belas. Completando a banda, temos dois gêmeos italianos, Amedeo e Simone (homem) Pace. Tá explicado porque bateu de cara. Meu coração criado com música brega italiana sabe reconhecer e amar o drama característico dos ancestrais. Tudo parece feito para ser uma experiência emocional extrema, mas isso está longe de sugerir complexidade, afinal a banda são só eles três. Amedeo dedilha guitarras, Makino, às vezes, ajuda na guitarra ou eventual baixo. Simone toca as baterias de poucas notas, mas isso merece um comentário à parte. Certos bateristas batem. Simone toca. Cada tambor sugere uma nota musical. Sob seu comando, a bateria é uma orquestra capaz de expressar os mais variados sentimentos. Some-se mais um teclado coringa, e é isso. Um som épico e quase lo-fi, simples e onipresente.

Embora a banda tenha se formado em New York, quando Kazu, então uma estudante de arte, pediu aulas de guitarra a Amedeo, nenhum deles tem inglês como língua-pátria e, mesmo assim, as letras terminam o trabalho de te arrepiar até a medula, tornando a experiência de ouvir o CD inteiro algo só para os mais fortes e corajosos. De qualquer forma, melhor se acovardar para sorver devagar as amargas e divinas iguarias do Bonde Redhead.

You were sorry that i was alone
So sorry that you run away

lamenta Makino em “Hated because of great qualities”, com a voz de uma solidão infinita, para depois fechar a estrofe no suspiro: “It never meant a thing/So be it”. Resignação, raiva e dor unidas numa melodia impossivel de tão doce. A guitarra dá apenas notas longas e graves, a bateria, sem baixo, adiciona um clima desértico. “I can’t understand this at all/I can’t pronounce this at all” – aqui o sotaque estrangeiro dá outro peso a esta confissão. Quando ela finalmente conclui que “These are different matters/These are uncertain feelings/They should never be discussed here/So keep it to yourself”, para dar lugar ao lento solo de guitarra em outro tom, não há como não dar razão a ela. Ele não merecia mesmo, aquele crápula.

Esta é apenas a terceira música de “Melody of Certain Damaged Lemons”, lançado em 2000, e eu já estava embriagado de beleza. A próxima música, “Love despite of great faults”, cantada pelo Amedeo, dá um contraponto com melodia e instrumental, que só posso descrever, sem a criatividade que deixo pros críticos da Pitchfork, como puro Beatles. A letra, já a partir do título, parece ser uma resposta à canção anterior. A voz esganiçada de Amedeo ajuda a letra a soar mais torturada, e explode no refrão: “That you refuse to fade away/I hide to stay the same/Where do we go from here/I don’t know”. Não poderia ser mais humano. Talvez ele pudesse ter uma segunda chance?

Por algum motivo, as músicas da Makino são em 4/4, as de Amedeo em 6/8. Uma música quebra a outra. Soa alienígena e distante como o que se esconde em nossas almas. Mais tarde, “This is not” remete ironicamente ao som de synthpop dos anos 80, quase sinalizando uma concessão à pista de dança, não fosse a bateria quase marcial de Simone. A letra continua discorrendo sobre amores impossíveis: “He could have been with her/But today can’t be anymore/Tomorrow maybe yes./But today he is not there”. Depois, ela trai sua amargura solitária novamente: “I think it’s so pathetic./Don’t you ?/Were you listening to me./No not even one word”. Quando a música fecha com um “la la la la”, fica evidente a ironia no lugar da alegria.

“For the damaged” é sua balada com acompanhamento apenas de piano e violão, misto de canção de ninar e sussurro de promessas muito mais negras: “Don’t cross your finger/Sundays will never change/They keep on coming/You’ll be a freak/And i’ll keep you/company” – a música termina abruptamente como se houvesse algo mais a ser dito, e é automático procurar o repeat do player para entender melhor.

O álbum seguinte, “Misery is a Butterfly”, lançado só 4 anos depois, devido a um acidente com um cavalo sofrido por Makino, ganhou auxílio apropriado de cordas. Na abertura, “Elephant Woman”, cada “ah” dói como se o cavalo tivesse passado por cima de nós. Ela sufoca com frases como “Do return my heart to me/No don’t insist I’m already hurt”, “Elephant girl/It was an accident unfortunate” ou “Lay me down on the ground softly softly/Don’t remove my head hurts much too much “. Foi essa a música que me apaixonou naquela loja. Depois vem “Messenger”, onde um hipnótico tema instrumental dá o clima dos lamentos de Amedeo. Quando a música chega na repetição de “So how can I keep anything to myself?” para explodir novamente no tema, juro que me dá vontade de botar saia de filó e sair fazendo pliê. Isso pode não fazer o menor sentido, mas é o mais perto que chego de descrever a sensação.

Eu poderia seguir essa mal-traçada tentativa de guia turístico e seguir mostrando o que vi, e explicar porque canto junto com o Amedeo o refrão “I’m just a man still learning how to fall” de “Falling Man”, mas seria fútil.

Ouçam no mínimo esses dois álbuns e conheçam uma banda que acredita tanto em sua mistura de beleza e drama que se desligaram de sua gravadora para gravar “Misery is a Butterfly” com mais liberdade criativa.

E quando forem assisti-los (eles tocam agora, dia 22/9, em Recife. e dia 23/9, grátis em São Paulo), esqueçam o hype. Vão ver artistas trabalhando. Eles já existiam muito antes, e se tivermos sorte, seguirão compartilhando sua arte conosco por muito mais tempo.

Deixo vocês com a arrebatadora 23, que abre o sétimo álbum deles, de mesmo nome, de 2007.

PS.: Há alguns anos, esbarrei com o irmão mais novo dos gêmeos num café de Montreal. Ele confessou que a Kazu é deprimida e esquisita, vai nos eventos da família dele, mas não fala muito e se isola de todo mundo. Não sei vocês, mas eu confio bem mais em música feita por gente assim.

Fábio Martinelli
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