Textos

11 de outubro de 2013

Eu quero

Não dá pra fugir. Publicam na internet um artigo sobre um evento qualquer e pipocam os mesmos comentários: “Quero muito ir!”. Acontece em foto de show, de festa, de flyer, de viagem, de gente feliz mostrando ingressos, rola nas redes sociais e rola também fora, nos comentários de festivais de cinema ou de música. Parece existir uma irresistível atração pela proclamação da vontade de ir em alguma coisa.

Leio muitas reclamações sobre como a internet torna todo mundo um crítico e que existem opiniões demais. O número de “Eu quero muito ir!” é assustadoramente maior, e bem mais lamentável. Uma opinião escrita, mesmo a pior opinião escrita do pior jeito possível, siginifica que alguém analisou uma obra de arte ou situação, comparou com suas experiências de vida e refletiu como ela se encaixa neste contexto. Pode não ajudar ninguém que leu, mas ao menos incentiva a auto-crítica, que, mesmo míope, é melhor que não existir.

A pessoa que diz “eu quero” não pensou em droga nenhuma, simplesmente escreveu, por instinto, uma reação momentânea pra marcar sua presença no planeta. Se escrever uma opinião for o equivalente a alguém cutucar o seu ombro quando você está tentando ler numa pracinha, escrever que quer muito ir no show seria mijar no seu pé.

Funciona tão bem que dizer que gosta de algo é um fim em si mesmo. Está dito, território imaginário demarcado, próximo post. Suspeito que a graça esteja em se sentir incluído num suposto clube de pessoas que manifestam o gosto por aquele filme ou banda. Descobriu-se que liberamos a dopamina, substância associada ao prazer e ao vício, a cada “like” ou interação online de que participamos. Estaríamos então nos condicionando a nos sentir incluídos em tribos virtuais, não importando o quão difusas sejam. O que importa é o pequeno gozo da curtida virtual, o “high-five” delirante com os outros membros daquele clube que aceita pra sócio qualquer um que passe por ali com tempo de sobra e dedos nervosos no teclado. É um prazer real, viciante, e sinto dizer, devastador.

Nossa sociedade ensina que conseguir o que quer é muito, muito difícil, privilégio de uns poucos que merecem ter seus sorrisos branquinhos e filhos higiênicos (e vice-versa) admirados na TV. Agora estamos vivendo uma transição pra nem tentar realizar, o querer já é recompensa. Concluo isso da epidemia de comentários em eventos passados: “Queria ter ido!”, “Que lindo!”, ou o pior de todos, “Inveja branca”, reservado a shows particularmente incríveis naquela foto de celular. Tenho vontade de responder em cada um: “Por que não foi?” – e deixar a pessoa se enforcar no seu longo rosário de desculpas paralisantes.

Nos tornamos seres que retiram prazer de meramente manifestar intenções. Não é à toa que dizem que o caminho do inferno está cheio delas. Talvez a imagem mais assustadora de inferno seja ficar encerrado num quartinho asséptico de vontades, proclamando ao vento que queria isso, faria aquilo, contemplando catatônico no teto a imagem que pinta de si mesmo. A porta está destrancada mas você não sai, precisa seguir trabalhando na capela sistina em louvor à vida que você não terá enquanto definha lentamente.

O próximo passo é não mais querer – qual o ponto se não há satisfação possível? Nos tornaremos monges atingindo o nirvana da negação do desejo. Não por acreditar, mas por falta de opção. E o apocalipse se daria por todos, exatamente no mesmo momento, sem comentários na internet ou alarde, fecharmos os olhos e expirarmos com um sorriso.

Fábio Martinelli
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