broder, Textos

04 de outubro de 2012

O amor segundo Antonio Banderas

“Antonio Banderafff” – O Chris pronunciava o apelido sacana forçando uma língua presa, que ele imaginava ser mais hispânica, e arrematava com uma pose de dançarino de flamenco. Todo mundo no Café morria de rir, menos o pobre alvo da piada, atrás do balcão. Pelo menos, o Chris só fazia a piada quando os mais chegados estavam no recinto. O que acontecia todo dia naquele Café.

Não era uma franquia – embora o dono, um italiano com jeito de mafioso, tivesse outra loja igual em outro bairro. O nosso ficava na área comercial do bairro inglês esnobe de Montreal. Com suas ruas tortuosas subindo o morro que batizava a cidade ocupadas por mansões antigas, compradas com dinheiro ainda mais antigo. Leonard Cohen cresceu numa delas.

Era ilustrativo para um forasteiro curioso com a situação política do Québec observar a fila do supermercado ali ao lado. Um dia, a mocinha do caixa estava conversando em francês com o empacotador e, distraidamente, esqueceu de trocar de idioma pra dizer o valor pra senhora de chapéu que comprava seus legumes. “I BEG YOUR PARDON?” e um olhar gelado foi a resposta.

Os funcionários do Café não cometiam esse erro. Alguns nem sabiam francês, como o Gideon, estudante de engenharia que pagava as gravações de sua banda com a grana que ganhava. Ele sempre me mostrava as novas músicas, eu sempre dizia que estava sensacional. Já pro Chris, eu não precisava mentir: suas músicas feitas só com o mouse e a alma (ele não sabia tocar nenhum instrumento) eram espetaculares. Ele nasceu no antigo Congo belga. Tinha francês e swahili como primeiras línguas, aprendeu seu inglês imaculado depois de fugir pra virar modelo em Londres, e dali pro Canadá.

O Antonio Banderas era mexicano e falava mal pacas quaisquer línguas, o que talvez incluísse o espanhol, já que ninguém nunca ouvia sua voz. Usava o cabelo domado com gel e preso num rabo de cavalo, sempre com apenas um cacho estrategicamente sobre a testa. O corpo era extremamente malhado, o que era sempre sublinhado por camisetas sem manga. Tinha o rosto quadrado com os olhos puxados típicos dos Aztecas. No fim das contas, era um cara bem bonito que justificava o apelido. Sabíamos que tinha morado em vários países, antes tinha sido o Japão. E só. Ele não falava sobre si. Ele não falava nada, só ouvia nossa lenga-lenga diária sobre todos os assuntos possíveis.

Eu chegava pontualmente às 4. Meu escritório ficava no prédio ao lado, era só descer um lance de escadas e quebrar a modorra da tarde com o sagrado espresso e, no mínimo, uma hora de papo. Quando se está sozinho num país novo não existe motivo pra ir cedo pra casa. Eu preferia trabalhar até umas 2 da manhã e ir direto pra cama a uma quadra dali. Morar ao lado era minha medida anti-inverno: facilita um pouco a adaptação se você não precisar afundar na neve  quando está 30 abaixo de zero. E me dava o direito de enrolar todo dia no Café, o que me fez entrar pro círculo dos chegados.

O resto da freguesia era composto de mulheres. Todas usavam alianças de diamante, e um acessório extra que podia ser um carrinho de bebê ou um cãozinho meio nervoso. Quase todas eram muito bonitas, com plásticas evidentes que devem ter deixado os cirurgiões orgulhosos e bem mais ricos. Nenhuma trabalhava. Elas iam pros cafés matar o tempo enquanto suas empregadas – um luxo proibitivo nos outros bairros da cidade – faziam o jantar. Às vezes, o vulto de um marido passava pra buscá-las em sua Mercedes.

Muitas se conheciam, ficavam fofocando nas mesas ao ar livre e, normalmente, não interagiam com os funcionários do café. Só pediam seus mocaccinos, muito frias e polidas. A não ser no turno do Antonio Banderas. Aí muitas sorriam discretamente e recebiam dele olhares de certa cumplicidade. Um romântico, o Antonio Banderas. Uma vez flagrei dedos se tocando de leve quando ele entregava a xícara, com a cliente suspirando. Teve outra moça que simplesmente se inclinou sobre o balcão e lhe deu um beijo na bochecha. O café devia estar muito bom mesmo.

A princípio imaginei que ele, tímido ao extremo, acabava se alimentando emocionalmente das paqueras daquelas jovens senhoras da alta sociedade, talvez sonhando com um futuro melhor. Só entendi que não era nada disso quando os vagabundos resolveram falar de amor.

Era uma tarde de pouco movimento e só os de sempre estavam ali. Os olhares perdidos denunciavam o início da depressão de março, quando o seu cérebro percebe que faz 5 meses que você bota 3 camadas de roupa pra não morrer e questiona o sentido de tudo aquilo. Acho que fui eu quem puxou o fatídico assunto. Seria possível encontrar amor naquela desolação branca?

O debate foi entusiasmado. No começo, todo mundo concordando que não, as mulheres idôneas provavelmente estariam hibernando ou seja lá o que for que elas faziam pra se esconderem de nós, rapazes cheios de viço que só precisavam de uma chance. Passamos a projetar as esperanças pra quando a primavera chegasse, botando à mostra brotos, flores e principalmente pernas, orgulhosamente exibidas por saias que iam diminuindo a cada semana. Aquele pensamento nos uniu, já fazíamos planos de cortar o cabelo, aparar as barbas, comprar roupas melhores, talvez tomar alguma atitude pra cumprir a fantasia, que todo mundo tinha, de arrumar uma asiática… Nossa bolha de sonhos estourou pela voz atrás de nós:

“Esqueçam essa merda, amor não existe. Ninguém presta e nada vale a pena!”

Todos nos viramos, assustados com a interrupção. O Antonio estava acabando de enxugar uma xícara e nos olhava tristemente, como um pai que não queria, mas precisava dizer pros filhos a verdade sobre Papai Noel. Ninguém conseguiu dizer uma palavra. Ele prosseguiu: “Vocês vão achar uma mulher alguma hora, e ela será perfeita, e vocês se apaixonarão, e depois se convencerão de que é o grande amor da vida, e se casarão e finalmente estarão felizes. E aí ela vai esperar você se distrair, ir pro trabalho ou coisa assim, e pagarão um cara que nem eu pra comê-las por tudo que é buraco. São todas umas piranhas.”

Caiu a ficha. Ele não era tímido, simplesmente tinha uma profissão onde falar pouco e ser discreto era um cartão de visitas fundamental. O café era fachada, um lugar conveniente com acesso ao seu público-alvo: mulheres com grana e tempo de sobra. Como é que ele conseguia saber pra quem ele podia oferecer serviços além dos cafezinhos eu não faço ideia. Mas um cara que viajava o mundo fazendo isso devia ser um mestre na arte da observação e comunicação sutil.

Só que, naquele dia, ele não estava pra sutileza:

“Porra, vocês não querem saber o que são essas mulheres na cama, as coisas que me pedem, as coisas que me contam dos maridos. Eu tenho saudades da minha vila no México. Lá eu conheci a única garota que presta nesse mundo.”

Fiz a pergunta óbvia. A resposta veio sem hesitação:

“Pra que eu ia voltar? Pra viver de amor? Não vale a pena. Amor não vale a pena. Aqui eu ganho plata, amigo… Talvez um dia, quando eu juntar o suficiente. Aí compro um sítio e fico lá, sem querer saber do resto do mundo.”

Aquilo foi um bocado deprimente, mas acabou animando a conversa. Tínhamos um novo tema favorito. Quem eram as freguesas, o que pediam, o que falavam dos maridos. Era uma inesperada janela pra podridão debaixo dos tapetes mais luxuosos dali.

A graça passou, afinal as pessoas são só pessoas e,no fundo, isso nem é tão interessante assim. Mas nunca consegui esquecer aquele dia. Às vezes, imagino Antonio Banderas, o puto globalizado, no seu sítio em Chimichanga, nos braços de Conchita. Na cama, ela optava por um papai e mamãe trivial, porém glorioso. E nem dava atenção se ele pedisse sexo quando ela não estava a fim. Nunca elogiava a performance dele, gostava mesmo era das piadinhas que ele fazia de tarde, tomando uma piña colada, olhando crianças correndo de sombreros e bigodes postiços pelas ruas de terra batida. Alguém estourava uma piñata e chovia pétalas de rosas brancas, que caíam lentamente sobre o casal sorridente, banhado pela luz dourada do sol que se punha.

Eu queria o direito de manter essa fantasia idiota, mas o fato é que o Antonio se demitiu do Café e virou personal trainer. Mais fácil para a clientela.

Fábio Martinelli
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