Textos

19 de agosto de 2013

O motivo certo pra odiar Strokes

Há poucos dias, o “Is This It” fez aniversário de 12 anos. Faz esse tempo todo que os Strokes caíram na terra com esse álbum e mudaram os rumos do Rock. Em 2001, ouvia-se um misto de pós-grunge, nü metal e sub-britpop, e se você era uma pessoa de bem, fazia uma leve careta de dor. Era uma daquelas épocas onde um estilo musical meteu-se num buraco de onde ele tenta sair cavando ainda mais fundo.

Aí chegaram uns garotões com um trator soterrando aquilo tudo. Onde um Limp Bizkit louvava ad nauseam uma cultura do branco playboy com boné pro lado tirando uma onda de favelado, os Strokes chegaram afirmando com total empáfia e arrogância a superioridade da música feita por intelectuais riquinhos – e pior ainda, bonitos e bem vestidos pra cacete – das altas rodas de New York.

A mensagem difusa de “eu sou uma ameaça à sociedade” das bandas pesadinhas foi totalmente silenciada pelas letras ácidas de Julian Casablancas, com a moral de quem se sabia totalmente integrado à sociedade, tendo crescido cercado de modelos, e não tinha nenhum problema com isso. O estilo foi descrito como garageiro, minimalista, o que como todas as outras coisas que envolveram a banda, foi minunciosamente calculado por músicos e produtor para ficar o mais longe possível do que se ouvia nas rádios. Os analistas logo perceberam as fortes influências das bandas nova-iorquinas dos anos 70 e suas guitarras cortantes mas não esporrentas. Ouvir aquilo pela primeira vez foi uma experiência complexa e cheia de epifanias. Soava moderno embora quase todos os elementos tivessem sido inventados uns 30 anos antes – e nenhum estava sendo usado há pelo menos 15. Era um som de quem pesquisou e dissecou o passado, mas não tinha a menor intenção de emular o que já tinha acontecido. Por mais que os moleques fossem nerds e cultos, ainda era o som de cinco moleques.

“Is This It” é jovem, impetuoso, não pede desculpas pelas referências assim como não pede a bênção de nenhuma. Não é uma homenagem a tempos passados, é um marco de passagem pro futuro. Ele soa ao mesmo tempo 100% familiar e 100% novidade, e não me peça pra explicar como isso é possível. É um desses milagres da boa música (e é exatamente o que os Strokes têm em comum com o Nirvana, fenômeno que definiu a década anterior). O que consigo explicar é porque agora devemos odiar os Strokes.

“Comedown Machine”, o quinto álbum, foi lançado em março (quando um autor responsável aproveitaria pra escrever este artigo) e seguiu-se uma gritaria. Metade dos entendedores de música achou um lixo, outra metade achou aquela maravilha. Se há 12 anos eles beberam nos anos 70, fazia total sentido que agora bebessem no pop dos anos 80, certo? Pois é: Errado.

Existe uma grande diferença. Mudou tudo de 2001 pra cá. A primeira década do milênio ficou conhecida exatamente pelo seu revival dos anos 80 e tudo que havia de mais dançante e colorido. Isso ficou tão forte que hoje os antenados da sociedade vivem uma cultura de roupas coloridas e uma caricatura de música pop com teclados estridentes, batidas eletrônicas e falsetes andróginos. Tudo é válido, tudo é regurgitado, tudo é relativo. O que era brega passa a ser cultuado. O senso crítico foi esnobado pra dar lugar a um carnaval constante de celebração irônica de qualquer coisa que possa ser usada de pretexto pra sorrisos e danças com a mão pra cima. As bandas do ano nitidamente copiam as do ano passado, e em resumo chegamos naquele ponto novamente: O buraco vai ficando mais fundo, segue-se escavando no mesmo lugar e estamos sendo tragados.

Aí os Strokes lançam um álbum com as mesmas referências que as outras bandas “moderninhas” já estavam explorando. As discussões sobre o álbum giraram em torno deles terem ou não permissão divina pra fazer isso, renegando o Rock garagem anterior que os fez explodir. Essas discussões fogem totalmente do ponto importante. Claro que como artistas eles podem e devem fazer aquilo que quiserem. Artista não pode ficar focado em estilo, precisa focar em fazer a melhor música que puder e torcer pros outros gostarem. Exigir coerência dos mesmos caras por 12 anos é chamá-los de idiotas, porque gente normal cresce e vê o mundo com outros olhos e espera-se que isso reflita em sua arte (Sim, por tabela estou chamando de idiota quem faz o mesmo som por 12 anos). Isso não deveria nem ser discutido. Ou você gosta e ouve, ou vai ouvir outras coisas e deixa os caras.

O problema dos Strokes é que o que eles fizeram em 2013 é equivalente a lançar um álbum de Nü Metal em 2001. Seria mais do mesmo, por melhor que fosse seria irrelevante e ninguém estaria falando deles hoje. O “Is This It” definiu uma década. Eles foram os moleques inconformados, os messias sem medo e sem reverência que expuseram toda a macaquice piegas das outras bandas só com 10 segundos de suas posturas no palco que remetiam a estátuas de deuses julgando os mortais. Isso é muito Rock’n’Roll, não admira que todo mundo tenha captado a mensagem e hoje “Last Nite” seja um clássico até entre quem não tem a menor ideia do que eu estou falando. Também não admira que o Rock tenha dado uma tremenda guinada de lá pra cá.

Agora descobrimos que os autores da guinada querem passar despercebidos, se deixando levar pela onda que algum dia eles mesmos começaram. O poder divino não emana mais dali. Eles deram as costas pro que representaram. Deixaram de ser a solução pra virar parte do problema. E aí penso em quanto gente gostaria de ter o mesmo talento nos instrumentos, a educação refinada, o senso estético impecável, a cultura abrangente, a genética privilegiada, e o que mais dói: A certeza de já saber o caminho. Os Strokes nasceram com vocação para nos salvar, mas nos traíram para caírem nas farras mundanas. Esse é um ótimo motivo pra odiá-los. Ou, no mínimo, chorar num cantinho pela utopias perdidas nesse mundo.

Fábio Martinelli
Leia mais textos de Fábio aqui.