Textos

06 de agosto de 2013

Ainda bem

Ainda bem que eu nunca mais te encontrei, foi só aquela vez mesmo e depois disso cada um seguiu sua vida, até o último dia sem nunca mais se cruzar. Ainda bem. Ainda bem que eu não perguntei o seu sobrenome, porque então quando eu chegasse em casa eu poderia te encontrar em alguma rede social – em uma das duzentas e setenta e duas buscas que eu fiz – e até tentar me aproximar de você. Mas ainda bem que existem muitas pessoas com o seu primeiro nome que moram nessa cidade, e ainda bem que eu não te encontrei. Ainda bem que foram só umas poucas dúzias de noites sem dormir depois que eu te vi. E a impossibilidade de te encontrar uma segunda vez, dado o tamanho dessa cidade e a quantidade de gente nela, foi um presente dos céus. Ainda bem que o seu cheiro saiu logo do meu corpo, que foram só algumas vezes que te imaginei andando pelo meu apartamento de roupa íntima e subindo em meu sofá. E depois logo passou. Ainda bem. Ainda bem que o seu café chegou logo em seguida e a gente não deu espaço para um entrar na vida do outro, e fazer dela o que bem entender. Depois viria o sexo, depois o amor, depois o afeto, depois a primeira briga, depois o sumiço na multidão de gente. Mas deu tudo certo. Você seguiu para o seu trabalho, eu segui para a minha casa e a gente nunca mais se encontrou. Ainda bem que a gente não construiu expectativas um no outro, só construiu um pouco de afinidade e já ficou de bom tamanho. Ainda bem que todas as vezes que eu voltei no mesmo café na esperança de te encontrar, eu não te encontrei. Imagina só, eu teria que fingir que tinha sido pura coincidência e olha-só-que-coisa duas pessoas se encontrarem duas vezes na mesma semana, fora de cogitação. Mas ainda bem, ainda bem que no fim das contas você ficou só no plano das ideias, você não se materializou na minha frente, apesar de eu ter torcido tanto pra isso. Ainda bem que foi só uma vez e nunca mais. Você não mudou a minha vida, eu não mudei a sua, ficamos quites e, acima de tudo, fomos felizes. Um sem o outro, com a graça do bom deus. Eu não imagino a minha vida com você dentro dela. Ainda bem.

 

*Imagem do próprio autor, postada em seu perfil no Instagram.

Fabricio Teixeira
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