Textos

13 de fevereiro de 2013

Alergias

Mamãe ontem fumou dezesseis cigarros.

Às vezes ela fica na varanda do nosso apartamento fumando cigarros e olhando para alguma coisa entre a rua e o céu. Mas eu nunca consegui ver essa coisa que ela fica olhando. Mesmo quando eu vou de fininho sem ela perceber, eu nunca consigo ver. Eu acho que deve ser alguma coisa que só gente grande consegue ver, porque eu juro que eu nunca vi.

Quando ela termina de me trocar ela sempre fala que eu estou virando gente grande muito depressa. Às vezes eu fico pensando como é que faz pra não virar gente grande, só pra deixar mamãe contente. Mas depois que ela fala isso ela penteia meu cabelo e para de falar e dá um sorriso bem pequeno, então eu não sei se ela está alegre ou está triste.

Eu gosto quando tem requeijão de manhã. Mas não é todo dia que tem requeijão, é só na semana seguinte que o meu pai vem me visitar. Daí o requeijão dura assim, uns seis dias, e acaba. Eu peço pra mamãe passar bem pouco requeijão no meu pão que é pro requeijão durar bastante tempo, porque eu adoro requeijão. Ela sempre fala pra eu não me preocupar, que quando acabar ela compra outro. Mas ela nunca compra. Só no mês seguinte quando o meu pai vem.

Minha tia Lúcia outro dia me falou que vai me dar um computador de aniversário. E faltam só onze quadradinhos pro meu aniversário, então acho que isso quer dizer que o meu computador está chegando. Eu não sei usar um computador, mas a tia Lúcia falou que eu sou inteligente e aprendo fácil. Eu acreditei porque a tia Lúcia usa um computador lá no trabalho dela e disse que é facinho.

Outro dia tocou o telefone quando eu já estava na cama dormindo. A mamãe chama de telefone, mas eu chamo de alegrofone, porque toda vez que ele toca a mamãe para de chorar e começa a sorrir quando atende. O alegrofone tocou quatro vezes, e a mamãe falou que se tocasse quatro vezes e continuasse tocando eu podia atender. Saí da minha cama, coloquei o meu chinelo e fui até a sala, mas mamãe já tinha atendido. Dessa vez o alegrofone não tinha funcionado, porque mamãe continuava chorando e falava bem baixo pra não me acordar.

 

Eu estou acordado, mamãe, não precisa falar baixinho.

Volta pro quarto, filho.

Mas você falou que eu podia atender depois que tocasse quatro vezes!

Eu sei, lindo, mas a mamãe já atendeu. Volta pro quarto que eu já vou lá te dar um beijo.

 

Acho que mamãe pensou que eu tinha dormido de novo, porque ela continuou falando baixinho por mais um monte de voltas do ponteiro fininho do relógio. E acho que ela não foi me dar um beijo pra não me acordar.

Um dia a mamãe foi na escola brigar com a professora porque a professora não quis me ensinar a ver as horas no relógio de três ponteiros. A professora falou que esses relógios não vão mais existir e que eu não precisava aprender, mas eu acho que ela estava mentindo. Aqui em casa só tem relógio de três ponteiros, tirando o da sala que só tem dois e o do quarto da minha mãe que tem números vermelhos. Toda vez que toca a campainha eu acho que é o moço que veio trocar os relógios de três ponteiros pelos relógios que minha professora falou que são mais novos. Mas é só a advogada da minha mãe ou a tia Lúcia que chegam.

Essa semana aprendemos na escola sobre as alergias. A professora de ciências que explicou que as alergias podem ser graves ou pequenas. As pequenas são as que fazem os olhos da gente chorar, daí eu perguntei pra professora se era essa alergia que minha mãe tinha porque minha mãe chorava muito. Mas a professora não quis responder e disse que depois me explicava.

No mesmo dia eu cheguei em casa e pensei em pegar o alegrofone pra ligar pra um médico de alergias que eu achei no caderno de médicos da minha mãe. Mas eu tive que fazer isso no sábado enquanto a mamãe estava no quarto dormindo, porque toda vez que eu tento usar o alegrofone ela briga comigo.

 

Oi, eu queria marcar um médico pra minha mãe.

Er… Oi, querido, o que é que sua mãe tem?

A minha mãe chora muito e eu acho que é alergia.

Hmm… Pode ser alergia sim. A sua mãe está em casa?

Tá.

Posso falar com ela?

Agora ela tá dormindo.

Agora? Mas são duas da tarde. Faz assim, me passa o seu telefone e eu ligo quando sua mãe já tiver acordado, que tal?

 

Mas eu queria fazer surpresa pra ela.

A ligação caiu e eu nem tentei ligar de novo, porque eu ouvi um grito no quarto de mamãe e fui ver se estava tudo bem. Mas depois eu descobri que minha mãe às vezes grita enquanto dorme. Ela me explicou que tem gente que ronca e tem gente que grita e tem gente que solta pum.

Tem dias que mamãe sai logo cedo e a tia Lúcia que vem ficar comigo.

 

Sua mãe está doente e vai ter que ficar no hospital hoje. E eu trouxe iogurte pra você, olha aqui!

Mas ela vai ficar bem?

Claro que vai! Mas quando a gente fica doente a gente tem que ir no médico.

Tia Lúcia, você acha que a mamãe pode ter alergia?

Por que?

Ah, não sei.

Acho que pode ser alergia sim… Você é danado de esperto hein! Você já pensou em ser médico quando crescer?

Eu não vou crescer, tia Lúcia!

Hahaha não vai é?

Não.

Por que não vai?

Porque eu não vou, ué.

Ajuda a tia aqui com as compras, filho.

Tia Lúcia, eu gosto muito de você.

Ah, eu também gosto muito muito muito de você, menino.

Tia Lúcia, a gente pode ir pra praia?

 

Meu pai tem uma casa na praia e de vez em quando eu e minha mãe vamos pra lá. Às vezes, a tia Lúcia vai também com o marido dela, mas meu pai não vai. Eles sempre pedem pra eu esperar no carro antes de entrar na casa. Mamãe fala que antes de eu entrar na casa ela vai ver se meu pai deixou tudo em ordem ou se deixou alguma calcinha espalhada pela casa. Mas eu falo pra ela que meu pai não usa calcinhas e ela ri com aquele sorriso pequeno dela.

Eu gosto quando minha mãe ri.

Outro dia, eu fiz uma lista de coisas que fazem a minha mãe rir:

 

– Quando eu falo a palavra “inconsequente”.

– Quando passam vídeos engraçados na televisão.

– Quando ela fuma um daqueles cigarros pequenos na varanda.

– Quando eu canto a música do Eduardo e Mônica pra ela.

– Quando o marido da tia Lúcia fala que vai ganhar na loteria.

– Quando meu pai vai lá em casa e fala que está procurando emprego (esse é o que faz ela rir mais alto).

– Quando toca o alegrofone.

 

Outro dia eu perguntei pra minha mãe qual era a diferença entre Hotel e Motel e ela me explicou que Hotel é pra pessoas e Motel é pra carros.

 

E por que o nosso carro não dorme em um motel, mãe?

Porque no nosso prédio tem garagem, filho.

 

A tia Lúcia é contra a gente ter um cachorro, porque ela fala que minha mãe não consegue nem cuidar da própria vida, quanto mais da vida de um cachorro. Eu falei que eu podia tomar conta do cachorro, mas mesmo assim ela não deixou.

 

E tem outra, você não disse que sua mãe tem alergia?

Disse.

Então, o pelo do cachorro vai deixar ela com mais alergia ainda.

 

Hoje minha mãe não fumou cigarro nenhum, porque ela estava com tosse. Eu perguntei pra minha mãe quando é que a tosse dela ia sarar e ela disse que não ia sarar nunca. Daí eu perguntei por que e ela disse que só ia sarar no dia em que a mamãe fosse embora.

 

Pra onde você vai, mãe?

Eu vou pra um lugar beeem longe.

Eu vou poder te ligar?

Lá não tem telefone, filho. Mas você pode me escrever um monte de cartas.

Eba! Eu nunca escrevi uma carta! E você vai responder?

Lá onde eu vou não tem caneta…

Nem lápis?

Nem lápis.

Mas não tem problema, mãe. Eu vou te escrever mesmo assim. Eu vou te escrever todo dia e eu vou pedir pra tia Lúcia mandar as cartas pro carteiro e eu vou te mandar todos os desenhos que eu fizer.

Eu vou adorar, lindo!

E eu vou poder ir pra praia depois que você for embora?

Se a tia Lúcia deixar, vai sim.

 

Nessa hora mamãe começou a sorrir aquele sorriso pequeno de novo e eu já não sabia se ela estava feliz ou se estava triste. O olho dela começou a chorar e eu dei um beijo no rosto dela mas a alergia piorou.

Vim pro meu quarto e decidi que eu quero crescer sim e quero ser médico pra mamãe sarar da alergia.

 

 

* Imagem do Flickr de Chatérine.

Fabricio Teixeira
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