Textos

12 de janeiro de 2016

Do que faz o tempo parar

Ouve essa música.

Ok.

Espera, vou dar play aqui também e a gente ouve juntos.

3, 2, 1…

Play.

Play.

A janela para de piscar por alguns instantes.

Sabe o que eu sinto quando eu ouço essa música?

O quê?

Que o mundo é um lugar fascinante.

E o que mais você sente?

Que o tempo parou. Congelou neste exato momento. E que eu estou explodindo num tempo congelado.

Tem um pouco de tristeza embutida na voz do cantor, percebeu?

A tristeza tem esse efeito em mim.

Sabe o que eu tenho vontade de fazer agora? De abraçar cada pessoa aqui no escritório e chorar. E dizer a cada uma delas que eu entendo todas as suas falhas. E dizer que eu as perdoo por isso.

É o que todo mundo precisa ouvir.

Queria ter essa capacidade de me apaixonar pelo mundo mais vezes.

É pra isso que a gente existe, não é? Quando a paixão pelo mundo morre, morre um pedaço da gente.

Mais alguns segundos de silêncio.

Cara, essa música.

E tudo o que existe de errado evapora.

O que evapora continua no ar, você sabe. Só fica invisível aos olhos.

Eu sei.

Sabe o que eu lembrei agora?

O quê?

Quando minha irmã e eu colocávamos música alta e dançávamos em cima da cama.

E você gostava?

Eu amava. Se pudesse faria isso de novo. Mas agora ela mora em outro país. E seria estranho duas mulheres adultas dançando em cima da cama.

Estranho para quem?

Para os olhos do mundo. Esses olhos que veem tudo e censuram. Depois de um tempo esses olhos viram nossos próprios olhos, olhos de gente séria.

Você faria tudo de novo?

Dançar com minha irmã?

Não. Tudo o que fez até agora desde o dia em que parou de dançar em cima da cama.

Não sei dizer o dia em que o mundo me obrigou a parar de dançar. Mas eu me senti obrigada. E os dias que vieram depois foram como uma montanha-russa. Muitos altos e baixos, muitos.

Mas se você tentasse tirar uma média entre os altos e baixos, como seria?

Seria como essa música.

Intensa?

Necessária.

Boa?

Incrível.

Não dá pra ser feliz o tempo todo, né?

Não dá. Não pode. É contra o princípio maior de querer buscar algo. Sabe isso que a gente está sentindo agora enquanto ouve essa música? Tem um autor que li esses dias que fala sobre como o que a gente sente se esconde nas pequenas sutilezas.

“You can taste it in the shock and roar of a first, unexpected kiss, or in the blood in your mouth that instant after an accident when you realize you’re still alive. It blows in the wind, you feel on the rooftops of a really reckless night of adventure. You hear it in the magic of your favorite songs, how they lift and transport you in ways that no science or psychology could ever account for. You might have seen evidence of it in the movies they make to keep us entertained. It’s in between the words when we speak of our desires and aspirations, lurking somewhere beneath the limitations of being ‘practical’ and ‘realistic.’”

O que mais ele fala?

Que você não é o único que tenta buscar esse sentimento o tempo todo. Ele, o autor, também está procurando. E que existem pessoas que já estão lá, nesse lugar/sentimento, esperando por você.

É uma espécie de outro plano?

Não acredito em segundos planos. É um sentimento onde se pode “estar”.

Essa música, por exemplo.

É. A gente “está” nela.

É a essa sensação que o autor se refere. Tem gente que chama de alegria, mas eu acho um nome muito inocente para isso que estamos sentindo.

E como faz para estar lá mais vezes, todos os dias?

Não dá. É essa quebra que alavanca o efeito. É essa saída.

E é nobre buscá-la?

É mais que nobre. É necessário.

Essa música, esse texto.

Eu sei.

Essa vontade de fugir do óbvio como a mocinha foge do monstro num daqueles filmes de terror de que a gente gosta.

Porque é uma questão de sobrevivência.

 

* Ilustração de Diego Mouro para Confeitaria

* * Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Fabricio Teixeira
Leia mais textos de Fabricio aqui.