Textos

03 de agosto de 2014

Dos franceses

Sentada no velho sofá, ela falava sobre os filmes de seu país, enquanto ele deitava na cama em diagonal, como se tentando fazer caber o corpo na precisão geométrica dos lençóis. Tinha essa coisa de procurar pequenos jogos matemáticos escondidos nas trivialidades da vida. O número de dias que tinha vivido até hoje, o número de fios de cabelo, o número de noites em que tinha propositalmente esquecido de apagar a luz antes de dormir. Deixava os próprios pensamentos flutuando no ar, até que a outra voz puxasse com força o cordão da realidade com perguntas sobre o desconhecido.

– How come you’re from Brazil and you watch that many French movies?
– Well, you guys know one or two things about telling sad stories.

Nas horas que se seguiram, eles falaram sobre seus roteiros favoritos, sobre a recorrência do amor na temática dos filmes, sobre os nuances escondidos nas histórias, sobre a interpretação impecável de Binoche, Cassel, Cotillard e tantos outros. Sobre a vida d’Adèle, le musique, le péché, le religion, le agnostique. Ele encantado com a forma como ela pronunciava os nomes dos artistas que aprendera a admirar olhando para a grande tela; seus nomes vinham acrescidos de mistério quando ditos com o sotaque de seu país de origem. Como se quando ouvisse o nome dos atores em francês pudesse enxergar a infância de cada um deles, a jornada até o estrelato, as lições aprendidas no meio do caminho e as cicatrizes que os faziam capazes de encenar tão bem as dores do amor com um imperceptível franzir de alma.

Sentada no velho sofá ela acendia e apagava a luz do quarto, brincando com o interruptor, fazendo reverberar a luz e a escuridão repetidas vezes. Como quem brinca de criar infinitos mundos entre quatro paredes, onde o intervalo entre o visível e o invisível é menor que a distância entre um sussurro e outro.

Ele, deitado em diagonal sobre a cama e com os olhos matematicamente fechados, imaginava que os dias e as noites passavam diante de si em questão de segundos.

Irréversible.

 

* Imagem: rustyjaw.

Fabricio Teixeira
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