Textos

14 de Abril de 2014

Dos que nunca dormem

Olhou mais uma vez pela janela e viu a multidão de sempre. Cada um de uma cor. Na primavera, as pessoas voltavam a levar as cores para passear na rua, depois de um inverno branco, negro, longo e rigoroso. Todos os transeuntes devidamente ocupados em seu anonimato. A cidade que esmigalha a identidade das pessoas com a imponência de seu concreto. Pensou mais uma vez se deveria comprar uma nova cortina para a sala, já que a sua era quase transparente e alguém no prédio da frente poderia ver tudo o que se passa nos restritos metros quadrados de seu apartamento. Mas essa cidade te faz automaticamente anônimo — há uma cortina invisível que cobre a vida das pessoas. Do outro lado da rua viu uma menina de cabelos vermelhos, refletindo a luz tímida do sol que arriscava deixar o cinza amarelo. Acompanhou com olhos atentos aquela explosão de cores enquanto ela andava despreocupada pela sexta avenida. A única certeza, quase diária, era de que nunca mais a veria. As pessoas naquela cidade só existiam por cinco segundos: o tempo de atravessar de um lado a outro sua vida. Depois elas evaporavam, entravam no vórtex das pessoas instantâneas e reapareciam em algum outro quarteirão daquela cidade lotada. Eram milhares de pequenos encontros de cinco segundos como esses, todos os dias. Aos poucos desaprendia a olhar nos olhos e aprendia a olhar para o vazio, rarefeito, que se estendia a sua frente. Aos poucos, entendia a humanidade como um desenho sem rosto, um borrão de nacionalidades que aprendera rapidamente a adivinhar. Esquecia as particularidades que fazia as pessoas únicas; elas nem eram assim tão únicas, afinal. Mas deixar de perceber os detalhes tinha suas vantagens: permitia enxergar o esquema mais amplo das coisas. Desde muito cedo, tinha aprendido a pensar sistematicamente, observar o fluxo das pessoas e o que as movia, não literalmente, pela vida. Mas foi ali naquela cidade que ele começou a perceber que todos os problemas pareciam (e eram, de fato) muito pequenos, se comparados à grandiosidade das possibilidades.

Naquele dia, tirou todos os quadros das paredes de casa. Sentia-se nauseado com os detalhes. De vez em quando, ao sair na rua, olhava para cima para se lembrar onde estava.

* Imagem: Vitality Piltser.
Fabricio Teixeira
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