Textos

25 de Fevereiro de 2015

Empatia

A empatia é a resposta afetiva vicária a outras pessoas, ou seja, uma resposta afetiva apropriada à situação de outra pessoa, e não à própria situação.”

— Todos esses milhões de filmes e livros têm, sim, um motivo.
— E qual é?
— Empatia. Quando você se coloca no lugar de tantas outras pessoas, personagens, histórias, dramas, você aprende a enxergar o mundo de outros pontos de vista possíveis. É como ser uma porção de pessoas numa só.
— É… Por isso tantos livros já foram queimados no mundo. O iluminismo amedronta.
— Muito.
— Mas por que empatia?
— Para nunca, nunca aceitar um ponto de vista só sobre as coisas. O mundo já é binário demais hoje em dia. Ou você é de um partido político, ou de outro. Ou você é contra o aborto, ou é a favor. É uma dicotomia desnecessária, cada um tentando impor seu ponto de vista achando que é o certo – como se existisse o “certo” ditado por alguma instituição sobrenatural e como se todo o contexto do outro pudesse ser completamente ignorado. E o pior: querer que todo o resto da sociedade viva sob as mesmas regras.
— É, o mundo é mais complicado que isso…
— Prefiro pensar que o mundo é mais bonito que isso. Mas por algum motivo as pessoas adoram escolher um lado, adoram levantar uma bandeira. Talvez porque aprenderem que terem opinião formada é importante.
— E não é importante?
— É perigosíssimo. A gente passou longos anos da vida estudando ciências sociais justamente para aprender a relativizar as coisas. Toda unanimidade é tola, lembra? A gente estuda antropologia e sociologia justamente para aprender a levantar a origem das questões sociais. E depois estuda filosofia para lembrar que a subjetividade existe e é importante. Faz parte do que a gente faz como designer, né?
— Se colocar no lugar do outro.
— Exato. E saber desconstruir um problema em suas menores partes, ao invés de tentar resolver tudo de uma vez.
— Você acha que é culpa da mídia?
— A simplificação excessiva dos tópicos?
— Sim.
— Em parte. Eles precisam envelopar questões complexas para torná-las mais digeríveis, mas por isso mesmo acabam pintando tudo com um pincel largo demais. Outro dia, depois de anos, assisti a Jornal Nacional outra vez. Foi um show de horrores. Todas as falas dos âncoras matematicamente construídas para que o fulano do outro lado da tela ou concorde ou discorde. Mas aí a outra metade do problema: pessoas que aceitam tudo do jeito que vem.
— Ignorância?
— Preguiça?
— Não dá medo?
— Medo de quê?
— De escolher viver todas as vidas, essas vidas dos livros, dos filmes – e não viver nenhuma?
— Por que escolher uma só?

 

* Imagem: Naomi Okubo.

Fabricio Teixeira
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