Textos

13 de outubro de 2014

Essa casa de crescer sonhos

Então Alexandra me contou do dia em que mudou para essa cidade, para o trabalho novo. A profissão que de certa forma compartilhávamos tinha dessas coisas de arrancar as pessoas de suas cidades-raiz e “confrontá-las com o desconhecido em troca de experiências positivas que contruíssem caráter”. Sempre achei engraçada essa expressão “construir caráter”; sempre foi uma coisa das mães dizerem. E saindo da boca de Alexandra, essas palavras a faziam envelhecer uns 20 anos antes mesmo da próxima sílaba.

Era uma tarde quente e nas poucas horas do dia em que saíamos do ar-condicionado, estávamos a nos refrescar com algo. Naquela tarde tomávamos um café — mas toda a gente comum sabe que café não é refresco, nunca teria sido, a não ser para nós, arrancados de nossas raízes e destituídos de senso comum. Para nós café era refresco, era pretexto, era o que fosse. Penso que para a gente, tomar café no calor era uma certa vingança secreta por termos sidos arrancados de nossas cidades-raiz. Um tapa na cara do óbvio, do destino, das nossas próprias cidades, da nossa própria raiz.

Ela contava do bafo quente que grudou em sua pele assim que ela saiu do aeroporto após sua mudança. O clima dessa cidade era muito úmido e nos dava a sensação de que havia um cachorro babando em cima do nosso braço o tempo todo. A mim, lembrava o Rio de Janeiro. Mas isso eu não dizia a ela, pois sabia que Alexandra não fazia ideia de como seria o clima de lá. Pensava, mas não dizia.

Muitas vezes durante a conversa eu pensava em dizer coisas e elas voltavam para dentro da boca goela abaixo. Às vezes saía um som engolido, como se eu falasse com uma Alexandra que morasse dentro de mim. Eu também tenho as minhas histórias, mas eu não as considero histórias até que eventualmente eu as conte para alguém e perceba que elas causam uma reação na pessoa que ouve. Eu anoto bem quais são as impressões que cada história causa em cada pessoa. Depois eu as fecho — as histórias — e as tranco em gavetas que eu nunca mais me lembro. Tenho esse problema de memória. Parece que os anos da minha vida são desconectados um do outro. Ou talvez o problema de memória seja deles, dos anos da minha vida, que esquecem de se apresentar uns para os outros. É como se fosse uma porção de vidas separadas. Ou uma porção de dedos em uma mesma mão, que são parte do mesmo conjunto mas estão sempre, de certa forma, distantes um do outro.

Eu não sabia nem o endereço do hotel quando cheguei aqui, ela disse. Tinha perdido o papel em algum lugar entre a poltrona do avião e a sala de desembarque. Ou talvez nem o tivesse trazido, já que sempre confiei em minha boa memória para guardar endereços e os sabores de pizza preferidos de seus amigos. Comigo acontece o mesmo, eu disse, mas esqueci de explicar se me referia aos endereços ou aos sabores de pizza.

O garçom nos olhava com um ar repreensivo, como que aguardando o pedido que normalmente sucede o primeiro café. Mas estava muito quente e o café estava demoradamente refrescante para ambos.

Então ela me contou das coisas de seu país. Alexandra tinha um hábito estranho de interromper suas falas e puxar assuntos desconexos entre um parágrafo e outro de suas histórias. E quando ela me perguntou do meu país eu fiquei surpreso, porque esse hábito de perguntar sobre a vida das outras pessoas não era algo recorrente entre os americanos. Quando acontece, normalmente é seguido de um ligeiro rubor ou pigarro, como se fosse desconfortável para eles tentar se aproximar mais da vida dos outros.

Por um momento me distraí com o menino que andava de coleira na calçada, amarrado ao braço da mãe como se fosse um animal domesticado. Aqui nesse país eles têm esse hábito de encoleirar os filhos quando vão a um grande evento ou a um parque muito movimentado. Entendo a preocupação que eles têm, muito nobre. Mas é como se eles tentassem atribuir à coleira a carga de responsabilidade que eles, os pais, não possuíam. Ou que não tinham aprendido antes de decidirem ou não decidirem virarem pais.

O menino não sabia que a coleira era um hábito estranho. E talvez nem devesse, por ser muito novo, ou por talvez frequentar parques onde todas as mães prendiam seus filhos em coleiras — e onde todos os pais soltavam seus cachorros para que corressem atrás de bolinhas. Porque quando se perde um cachorro a dor é menor, ou porque o débito dos anos não-vividos na companhia do cachorro talvez seja menor do que o dos filhos. Mas eu não era o único ali na cafeteria que olhava o menino encoleirado com um ar de estranhamento.

A marca de suor na camiseta do menino contornava as tiras da coleira e fazia um desenho engraçado em suas costas, como se os meninos encoleirados tivessem asas de borboletas guardadas debaixo de suas camisetas. Como se, quando chegassem em casa, seus pais desatariam os nós da coleira e deixariam o menino voar livremente com suas asas de borboleta, desde que não subissem a mais de um metro e meio do chão, não voassem mais rápido que o permitido e desde que tomassem cuidado com o lustre novo da sala.

O país onde se encoleiram crianças. Por que prender a criança nos únicos anos de sua vida em que ela não precisa estar presa à coleira invisível da vida?, eu pensava. E ria de mim mesmo. Depois as crianças crescem, se formam na universidade e saem de lá endividados por longos anos. Depois eles ganham carros e os batem, e depois namoram o amor de suas vidas, e depois eles se casam com uma outra pessoa para tentar esquecer os amores impossíveis de outrora. E essas crianças têm filhos que nascem de amores possíveis, apenas.

Talvez seja por isso que eles prendam seus filhos em coleiras.

Alexandra ainda falava, enquanto aqui na minha cabeça falava esse monte de pensamentos. Aqui na minha cabeça eu já estava uns bons anos no futuro, passeando com meus filhos sem coleiras e acompanhado de sua bela mãe de amores possíveis-apenas.

Aqui na minha cabeça muita coisa acontecia enquanto Alexandra bebericava o café aguado. Aqui na minha cabeça meus filhos viviam suas vidas e elas não eram aguadas.

Às vezes passa muita coisa ao mesmo tempo aqui na minha cabeça. Esse poço de pensamentos mortos. Essa casa de crescer sonhos.

* Imagem: TuukiTuuki.

Fabricio Teixeira
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