Textos

11 de janeiro de 2013

Gazu

Era madrugada da noite de natal. Digo, a madrugada que vem depois da noite que antecede o dia de natal. As luzinhas piscavam na rua, como se estivessem tentando reanimar o mundo depois de um enfarto invisível.

Olhei mais uma vez para o cartão que eu havia recebido e reli aquelas poucas palavras. Eram palavras de menos para papel demais. Ficavam recolhidas num canto do cartão, como se tivessem medo da imensidão de branco que as rodeava. Não sei se tinha faltado inspiração para escrever mais palavras, ou se tinha faltado sentimento mesmo – o que era muito mais grave.

Na capa, um desenho de unicórnio. Ela sabia que eu gostava de unicórnios, e sabia que ao chegar em casa eu colocaria o cartão na parede do quarto, afixado junto às outras imagens de unicórnio da minha coleção.

A coleção de unicórnios começou meio sem querer, depois que ela havia me explicado a diferença entre unicórnios e pégasus.

 

Adoro esses cadernos que vêm com cavalos mágicos desenhados na capa.

Isso é um unicórnio, Marta.

Não é pégasus o nome do cavalo mágico?

É unicórnio. Porque ele tem um chifre, um corno, bem entre os olhos, está vendo?

E por que esse cavalo mágico não tem asas?

Porque o que tem asas é o pégasus, Cristo – disse ela entediada.

Entendi…

 

Por ter percebido o tom atravessado com que tinha dito a última frase, ela tentou se desculpar demonstrando interesse pela minha nova descoberta.

 

Qual deles você prefere, o unicórnio ou o pégasus?

O unicórnio, claro – eu disse. Cavalos mágicos não precisam de asas para voar. Cavalos mágicos já são mágicos, basta.

 

Namoramos por três longos anos, Gabriela e eu. Eu a chamava de Gazu; ela nunca precisava me chamar. Eu sempre estive ali para ela, mesmo que eu tivesse que deixar de lado um encontro com as minhas amigas do colégio para consolar Gazu numa noite em que ela se sentia sozinha. Ela chamava de solidão, eu chamava de princípio de overdose.

Ela me chamava, eu ia.

Nos últimos meses de namoro, eu pensei em desistir de tudo. Quando digo tudo me refiro não só ao namoro, mas também à minha profissão de professora primária. Pensei em desistir da coleção de unicórnios e começar uma coleção de decepções, mesmo sabendo que não se costuma colar decepções na parede como se faz com unicórnios, troféus e medalhas. Pensei em nunca mais ligar pra Gazu. Pensei até em passar a chamá-la pelo primeiro nome, como fazem os casais quando discutem seriamente sobre um assunto.

Mas Gazu era um buraco negro e eu não conseguia me afastar. A sua droga era uma, a minha droga era ela. E também o seu corpo, e o seu cabelo, e os seus braços perfeitos. Eu não conseguia desistir dela. Dava o último trago no cigarro e ia encontrá-la, de onde quer que viesse o telefonema.

Gazu era um pouco mais baixa que eu, e por isso seu corpo cabia perfeitamente em meus braços. Eu encostava sua cabeça em meus seios e ali ficávamos, por horas, sem dizer nada uma à outra. Eu entendia cada uma de suas palavras confusas, entendia o seu não-entender do mundo. Ela culpava o mundo por tudo e não dava a ele chance alguma de se defender. Eu achava injusto e a perdoava.

 

O que tem de errado?

Tudo está errado, tudo!

Por exemplo…?

Por exemplo, aquele quadro.

Mas é o quadro da sua mãe.

Ela fez e me deu para eu colocar na minha sala quando eu tivesse minha própria casa.

E você tem sua própria casa e colocou o quadro na sua sala. Fim.

Mas não era assim que ela queria que fosse!

E desde quando você faz as coisas pra agradar alguém?

O que você quis dizer com isso?

 

Depois da terceira discussão desse tipo, eu entendi que era melhor abraçá-la. Era melhor abraçá-la e protegê-la dos fantasmas que rondam as pessoas que se deixam rondar por fantasmas.

Ela não me abraçava de volta. Suas mãos faziam movimentos desconexos por sobre as minhas coxas, como se tentassem batucar um ritmo que só ela ouvia. Ela chamava de samba, eu chamava de medo.

No natal, as coisas ficam mais tristes. Muita luz é desespero.

 

Posso te contar um segredo?

Todos, minha menina.

Quando eu era pequena eu sempre desenhava o sol no canto da folha, aqui nesse canto aqui de cima, sabe? E só aparecia um pedaço do sol.

Ué, mas tá certa. O sol fica sempre acima da gente.

Mas não era por isso que eu o desenhava ali.

E era por que, então?

Era porque eu tinha vergonha de não saber desenhar círculos perfeitos. Então eu desenhava o sol no canto da folha, pra precisar desenhar só um pedaço.

Você não existe.

 

Depois que eu fui descobrir que na vida não existem círculos perfeitos. Que a primeira curva já é logo a última. E que é muito difícil acertar nas duas.

Era essa mistura de ódio e ternura que me fazia amar Gazu. Ela amava meus ouvidos, minha pele, minhas pernas. Eu amava ela inteira. No finzinho dos domingos, quando a gente voltava do jantar e dormia abraçadas (e quando a última coisa que eu via antes de apagar a luz era o contorno do rosto dela) eu amava Gazu. Quando eu ia comer uma azeitona do pote de azeitonas e eu descobria que ela tinha comido tudo e sequer tinha se dado ao trabalho de tirar o pote da geladeira, eu amava Gazu.

Mas ela, penso que ela só me amava às segundas-feiras.

Aos poucos, o silêncio foi tomando conta da gente. Nos últimos dias em que estivemos juntas, decidimos não falar mais uma com a outra. Decidimos manter sempre um caderno por perto e, quando precisássemos dizer algo importante, escrevíamos em uma das folhas e mostrávamos para a outra.

Escrevíamos apenas aquilo que não podia deixar de ser dito. Na verdade, nos dias que precedem o fim parece que não existe nada que precise obrigatoriamente ser dito. Aos poucos, eu fui deixando de contar a ela sobre os meus sonhos, ela foi deixando de me contar sobre seus anseios.

Eu já sabia quando Gazu teria fome e ia antecipadamente à cozinha preparar o almoço para nós duas. Tudo para evitar que algo fosse dito. Eu ouvia minhas músicas no quarto, ela fumava seus cigarros no quintal dos fundos. Depois trocávamos: eu ia para perto dela ouvir o barulho dos cigarros sendo apagados enquanto ela cantarolava uma música só para si.

Na última página do caderno, ela me escreveu “sejamos felizes” e partiu.

Era madrugada da noite de natal. Digo, a madrugada que vem depois da noite que antecede o dia de natal. As luzinhas piscavam na rua, como se estivessem tentando me reanimar depois daquele enfarto invisível.

Olhei mais uma vez para a última página do caderno e reli aquelas poucas palavras. Sejamos felizes. Eram palavras de menos para papel demais. As palavras que ela havia me escrito ficavam recolhidas num canto da página, como se tivessem medo da imensidão de branco que as rodeava. Não sei se tinha faltado inspiração para escrever mais palavras, ou se tinha faltado sentimento mesmo – o que era muito mais grave.

Eu amava a letra de Gazu.

 

* Imagem: estátua de unicórnio em Londres. Foto do blog A life less ordinary.

Fabricio Teixeira
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