Textos

13 de Março de 2015

Meu celular ainda lembra a senha do seu wi-fi

Os móveis continuam mais ou menos na mesma posição. Seu mural de fotos continua pendurado na parede ao lado da cama, seus casacos de inverno continuam meticulosamente envolvidos por sacos plásticos aguardando o frio que nunca chega, e ao redor do guarda-roupa as pequenas luzes de natal parecem continuar acesas o ano todo. O tapete ainda é o mesmo, e ainda é possível enxergar os resquícios daquela mancha de vinho que causamos, atrapalhados, numa das nossas tardes de folga. Não, não se preocupe, a mancha só fica visível ao examinar bem de perto, com a precisão de um cientista forense. E ainda assim só é possível distinguir seu contorno — apesar de eu sempre achar que o contorno das lembranças é a parte que dói mais.

Sua cama ainda carrega a alegria de sempre. As almofadas festivas, os bichos de pelúcia de alguma infância que você recusa em deixar para trás. A maior parte das cores ainda são as mesmas, mas tanto no quarto quanto em seus olhos eu sinto falta de algumas delas. Pelo visto você decidiu se livrar daquela pequena mesa vermelha de cabeceira — talvez na mesma época em que decidiu se livrar do amor que você sentia por mim.

A reação do meu corpo ao entrar novamente no seu espaço é um pouco confusa. Meus olhos ainda gravam a imagem do quarto mal iluminado, como quando acendíamos minúsculas labaredas de parafina e velávamos as noites que não queríamos ver acabar. O cheiro, esse sim continua igual. Meus braços ainda conseguem sentir a leveza das suas cortinas, mesmo sem tocá-las. Meus pés, não mais descalços, ainda conseguem sentir a textura do seu tapete entre os dedos. No meu bolso, alguns apitos afobados. Meu celular ainda lembra a senha do seu wi-fi.

Entrego o livro em suas mãos e esboço um sorriso forçado. Não tenho certeza se você terá coragem de ler. Talvez com o passar do tempo você se esqueça dele, e de sua mão ele pule direto para uma gaveta, para uma pilha de papéis pouco importantes ou para o fundo de um armário de memórias que você não quer nunca mais ter que abrir. Talvez você o dê de presente para alguém, embrulhado em papel bonito, passando adiante essas palavras antes de deixá-las te perseguirem o sono. Ou talvez você abra o livro assim que eu virar as costas. Apressada, com medo de eu ter esquecido algum detalhe, como se estivesse procurando alguma resposta ou algum pedaço seu ali dentro.

Você não vai precisar procurar muito. As marcas de seus dedos estão nesse livro tanto quanto as minhas. Suas marcas estão em mim, tanto quanto o que me conheço ser.

 

* Imagem: Here so you know I’m gone, de Lydia Roberts.

Fabricio Teixeira
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