Textos

14 de setembro de 2015

No meio do caminho tinha um outro caminho

Foi então que reparou em algo diferente enquanto andava pela rua naquele dia, pelo mesmo caminho corriqueiro que traçava todas as manhãs. Uma mensagem discreta em um canto da calçada. Anything is possible. Em letras azuis, apagadas, quase tristes. No meio do caminho entre a precisão de um estêncil e a inexatidão de um manuscrito, entre o ceticismo maçante dos que são sistemáticos e o coração ingênuo dos que enxergam, acima de tudo, os mundos possíveis.
 
Na mesma hora sua cabeça viajou alguns bons anos para o passado e umas boas milhas para o sul. De onde viera, nem tudo era assim tão possível. Nem tudo era assim tão ~simplesmente~ possível, como uma mensagem apagada na calçada, um recado desavisado para um qualquer que viesse ali pisar. No meio do caminho entre os sonhos de um menino que queria viver um milhão de vidas e a realidade de um homem que descobre-se um milhão de vezes mais vivo — por aceitar a incerteza de uma vida só.
 
Parou por um segundo e reparou no cadarço desamarrado. Cadarços desamarrados lhe eram raros; sempre gostara de dar um segundo nó por cima do primeiro por precaução.
 
Talvez fosse um sinal. Tudo seria possível enquanto houvessem cadarços desamarrados e mensagens apagadas que ainda insistiam em serem lidas; enquanto houvessem desamarras. Abaixou ali perto da mensagem na calçada e, com o pé sobre as letras azuis, amarrou mais uma vez seus sonhos. Passou um por cima dos outros, deu uma volta meticulosa com a ponta dos dedos e puxou as extremidades, firme, prendendo tudo que é futuro no passado e no futuro de novo. No meio do caminho entre a insegurança e a certeza, entre as memórias quase completamente apagadas e o acaso do que estaria por vir. No meio do caminho entre o primeiro e o segundo nó havia uma porção de nós.
 
Ainda agachado, ergueu a cabeça e olhou para a imensidão de concreto a sua frente.
 
Se tinha aprendido alguma coisa aquele dia, era que tudo, ainda, era possível.

Fabricio Teixeira
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