Textos

16 de agosto de 2013

Sem remetente

A gente nunca falou sério porque nunca precisou. E também faz parte da multidão de gente pra colecionar na vida: aquelas com as quais você não precisa falar sério – e então tudo bem. Você também coleciona, eu sei. E também passeia, e também conversa, e também espalha desenhos pequenos nas paredes e também vê beleza onde pouca gente vê. Encho o copo de café e digo qualquer bobagem e a gente ri, porque a gente sabe da tristeza um do outro e ainda assim a acha bela. Como testemunhas de um crime que ninguém cometeu. A gente até marca encontro e não vai, e eu acho essa cumplicidade incrível. Agora apaga a luz, fecha a porta (mas não tranca), deixa um recado escrito em um post-it para alguém ler. Faz um dos seus desenhos pequenos. Leva as chaves, testa em outras portas, todas elas vão abrir quando você chegar. Adoça um copo, prepara as torradas, passa um café pra eu não ir. Esvazia o pulmão, me escreve uma carta. A gente é melhor por extenso.

 

* Imagem: Trecho de “You aren’t like them“, de Timothy Leary.

Fabricio Teixeira
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