Textos

30 de junho de 2014

Sobre o incerto

As melhores épocas da vida são as mais incertas.

Como quando você abre uma página de “ligue os pontos” no seu passatempo preferido e se depara com aquela minúscula fração de segundos onde tudo é possível. Aquele momento da página em branco, antes de que a primeira linha seja traçada. Onde só existe você e as possibilidades. Porque depois do primeiro traço vem logo o último. Depois do primeiro traço o caminho a ser percorrido já está todo indicado ali, mesmo que por pequenos números que flutuam discretamente ao redor do lápis. E o não poder mudar ou reinventar o desenho no meio do caminho é desesperador.

Como quando você se muda para uma nova cidade e precisa abrir o mapa do local, completamente desconhecido, para descobrir onde fica cada coisa. Precisa descobrir qual a linha de metrô que te leva a cada lugar. Precisa descobrir os nomes das ruas, e os números, a imensidão dos números criados por outras pessoas. Precisa errar para acertar, precisa acertar para seguir adiante e precisa seguir adiante para errar novamente.

Como quando você deixa o chocolate de lado para abrir o brinquedo-surpresa que vem de recheio. Depois monta o brinquedo e também o deixa de lado, junto do chocolate, porque o que realmente importa são aqueles pequenos segundos do desconhecido. A surpresa é o brinquedo, não o brinquedo.

Com o passar do tempo, aprendeu a respeitar os que vivem em linha reta, um passo após o outro. Mas, para si, sempre preferiu os jogos menos lineares. O Banco Imobiliário ao Jogo da Vida. O RPG ao Adventure. Os parques aos museus. O turismo de investigação às excursões pré-fabricadas. Os filmes sem final. Os hyperlinks aos livros.

Por uma vida menos linha-reta.

Amém.

* Imagem: Patrick Jones.
Fabricio Teixeira
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