Textos

17 de abril de 2014

Ilustração:
Thiago Thomé

Esposas do Silício

* Texto publicado no ada.vc

Do nosso grupo de tech wives, eu diria que Anne é a mais bonita. O que para ela não faz muita diferença —o que Anne considera importante mesmo é a sua carreira. Ela trabalha em uma empresa de aparelhos médicos de ponta de linha, está estudando para se tornar uma neurocirurgiã em Stanford (após ter feito duas outras faculdades) e é filha de um dos principais cirurgiões de câncer dos EUA. Aos 28 anos, Anne é também a mais nova do grupo. O restante de nós tem aproximadamente a mesma idade, entre 30 e 33 anos, e a mesma ocupação: ex-alguma coisa. Denise é ex-relações públicas da Slate. Julie é ex-empresária de médio porte. Eu sou ex-redatora publicitária. Somos diferentes como bananas e maçãs, mas cumprimos o mesmo papel que milhares de outras mulheres no norte da California: nossos maridos trabalham em empresas de tecnologia no Vale do Silício. E nenhuma de nós tem emprego fixo.

As middle class Silicon Valley housewives, como secretamente me refiro a nós quatro, conheceram-se em Nova York, em algum dos poucos eventos de trabalho da Apple nos quais os cônjuges ou plus one eram bem-vindos. Na minha experiência, eventos assim são raros: festas de final de ano, e, se muito, um aniversariozinho. As demais atividades que as empresas de tecnologia promovem são restritas a funcionários. Semana passada, Fábio, meu marido, aprendeu a imprimir em letterpress e depois fez um tour de duas horas pelos pubs do Tenderloin, bairro de São Francisco famoso pela comida “étnica” (como é chamada a culinária estrangeira) e pela quantidade alarmante de moradores de rua. Há alguns meses, ele foi voluntário na cozinha de um dos “sopões” mais antigos de São Francisco: passou o dia picando cenouras, aipo e batatas. No fim da tarde, ele se reuniu com os colegas em um dos pubs e bebeu e comeu por conta da empresa. Nenhum cônjuge foi convidado.

Atividades assim, ou outings, como eles dizem, acontecem mês sim, mês não, e são diversas demais para categorizar: bourbon brunchs, visitas a museus, aulas de arco de flecha, curso de cerâmica, exotic food-tastings. Um programa mais divertido que o outro ao qual todo funcionário deve comparecer sozinho, sem a família. O meu interesse por políticas corporativas é pequeno demais para averiguar se essa restrição existe por motivo de custos ou se o principal objetivo de tais atividades é a interação entre os funcionários, o que talvez justifique a ausência de cônjuges. Além disso, eu sempre trabalhei em agências de publicidade, onde eventos como esses não existem, logo não tenho uma explicação oficial. Só sei que a mensagem é clara: “Misturem família e trabalho somente na festa de fim de ano; no restante do tempo, vocês são nossos.” Dependendo do cargo do funcionário na empresa, a intersecção família X trabalho não acontece nem mesmo em tais festas. Eu me lembro de ver Gaby, mulher de Richard, chefe do meu marido, na confraternização de Natal de 2013. Ela passou a noite em um lado do salão, bebendo em companhia da secretária do escritório, enquanto Richard se divertia e contava piadas aos subordinados do outro lado.

Além das atividades corporativas, que alienam, ou, dizendo de uma maneira mais publicitária, “enriquecem a vida pessoal e o senso artístico” de apenas uma das partes do casal, há um outro elemento, mais sutil, que distancia os cônjuges do Vale do Silício: o segredo. À medida que o funcionário de uma empresa de tecnologia vai progredindo na carreira, ele vai tendo acesso a informações confidenciais sobre o lançamento de produtos e serviços, informações que ele é obrigado por lei a não compartilhar com mais ninguém. Se outras famílias seguem essa regra à risca eu não sei dizer, mas aqui em casa é assim: o meu marido não pode discutir determinados assuntos comigo. Por exemplo: o trabalho que tem feito nos últimos seis meses. Voltando para casa após uma semana longa, Fábio não pode me contar nada sobre a nova ferramenta que passou centenas de horas aperfeiçoando. De maneira quase desapercebida e “para a nossa proteção”, o trabalho que ele realiza, que é o motivo pelo qual nos mudamos para a Califórnia, acaba se colocando entre nós. O segredo é tamanho que eu não posso sequer visitar a sala de trabalho dele. Mandei flores outro dia, mas nunca saberei se deixaram o ambiente mais bonito porque eu não faço ideia de como seja o ambiente. Longe de ser uma característica exclusiva das empresas de tecnologia — imagino que advogados de pessoas famosas, pessoas ligadas a chefes de estado, VPs de grandes laboratórios, donos de redes de televisão, dentre outros, também tenham que velar por certas informações confidenciais—, a expressão “casado com o trabalho” faz bastante sentido no Vale do Silício. De atividades extracurriculares a informações sigilosas, a maior parte dos esforços do meu marido vai sem dúvida para a empresa onde ele trabalha —antes a Apple, hoje o Twitter.

Quando o time de design de iAds, a plataforma de publicidade móvel da Apple na qual o Fábio trabalhava, foi inteiro transferido de Nova York para o Vale do Silício há dois anos, nós, as então tech wives do Brooklyn, passamos a fazer parte de um time mais amplo: o das tech wives do norte da Califórnia. A diferença é que agora, além dos fatores desemprego e marido geek em empresa de tecnologia, nós temos uma outra renúncia em comum: a vida estimulante que tínhamos em Nova York. Julie e Denise têm mais razões para sentir falta da cidade do que eu; ambas nasceram e cresceram lá, ambas têm família em Manhattan. Mas eu fui certamente a que mais se debateu com a mudança. Eu já vivia em Nova York há quase cinco anos quando conheci meu marido. Nova York não é a norma para mim, como imagino que seja para elas: eu trabalhei em outras cidades antes, em outros países, inclusive, e acordar lá todos os dias quando eu poderia acordar em qualquer outro lugar do mundo era uma escolha consciente, e que me fazia feliz. A principal motivação para continuar em um emprego que eu sabia que não me levaria a lugar nenhum era o fato de que tal emprego me permitia viver na cidade dos meus sonhos. Eu nunca quis nada na vida como quis envelhecer lá, logo a ideia de partir para o oeste aos 28 anos para acompanhar o meu marido não foi exatamente bem-vinda. Foi a primeira vez que eu falei em divórcio. Não foi a última.

A vida de uma tech wife californiana que trabalha em casa é mais ou menos assim: você não trabalha em casa. O seu trabalho é ocupar o tempo com qualquer atividade que ajude a não jogar todas as frustrações no casamento. Yoga. Crossfit. Aulas de filosofia. Workshop de meditação. Você lê o dobro do que normalmente leria se tivesse um emprego, em parte porque tem mais tempo para ler, em parte porque é importante que as outras pessoas pensem que “Ok, ela fica o dia todo em casa, mas pelo menos ela continua a par das coisas.” Você passa mais tempo na Internet do que é saudável para qualquer ser humano. Você transforma a sua casa em um mural do Pinterest. Você chama os cachorros da vizinhança pelo nome. Você se pergunta se ter um filho ajudaria a atribuir mais valor ao que faz. Ou, no caso, ao que não faz —você não sabe mais a diferença. Você sente saudade da moça que trabalhava catorze horas por dia, que pagava sozinha o próprio aluguel, a mulher que não era casada com ninguém, que não tinha que se sacrificar por ninguém. Em algum momento da transição de redatora em Nova York para dona de casa do Vale, essa mulher adormeceu. Não é beijo de sapo ou príncipe encantado que irá despertá-la, mas uma carta do departamento de imigração dos Estados Unidos.

Eu não posso voltar a trabalhar, no Vale ou em qualquer outra cidade americana, enquanto o meu greencard não sair. A esperança dos advogados de imigração do Twitter é que saia esse ano, mas estou há tanto tempo nesse exílio que às vezes sinto que a minha realidade nunca mais vai mudar. Existe vida inteligente em outros planetas? Que dia eu vou poder voltar a trabalhar? Será que alguém vai querer me contratar após todos esses anos? Perguntas que só o tempo será capaz de responder.

Se eu pudesse voltar a trabalhar, não seria em uma empresa de tecnologia. Eu sou uma escritora. Entrar para o time dos geeks, ser CEO da Apple, Google ou Twitter nunca foi o meu sonho. Mas é o de muitas garotas que conheço. Algumas se atrevem, inclusive, a verbalizar esse desejo. Sarah, de 29 anos, é designer no Twitter desde a fundação da start-up, em 2006. Semana passada, por iniciativa dela, todo o departamento de design e pesquisa do Twitter se reuniu por uma hora para discutir a questão da liderança feminina na empresa, que atualmente é bastante desigual. “Eu fico feliz por poder levantar essas questões lá dentro,” ela me disse ontem enquanto almoçávamos. “Algumas empresas aqui no Vale instruem os funcionários a não trazer certos assuntos à tona pelo desconforto que eles podem gerar.” Se o meu maior desafio hoje é esperar pelo greencard, o desafio de moças como Sarah parece ser um pouco mais árduo: elas precisam forçar a própria entrada em um ambiente que claramente não as trata com igualdade. Dos tempos da corrida do ouro à IPO do Twitter no ano passado, a Califórnia, com toda a sua beleza natural, ainda é um vale (ou deserto) hostil para as mulheres ligadas à indústria de tecnologia.

Eu saio de casa apressada para me encontrar com Julie em uma praça no centro da cidade. Marcamos de tomar um café juntas até que o ônibus que diariamente leva e traz os funcionários do Google chegue ao ponto, a duas quadras dali. Dave, o marido de Julie, vem nesse ônibus. Eles irão juntos a uma apresentação de balé no city hall. Eu pergunto em tom de brincadeira o que Julie fez para conseguir esse milagre, já que não é segredo para ninguém que Dave odeia balé. “Eu abri mão da minha vida para estar aqui com com ele”, ela diz enquanto sopra a bebida. “Ele pode passar duas horas comigo no balé.”

* Ilustração: Thiago Thomé (aka Liquidpig) para a Confeitaria.
Flávia Stefani Resende
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