Textos

17 de julho de 2012

Formiga nova-iorquina

Uma perspectiva que eu espero que você adquira no tempo que passar em Nova York é a de quão pequeno você é. De quão, digamos, do tamanho de uma formiga você é. Perspectiva é algo tão pessoal que me sinto meio assim por desejar que alguém adquira uma, e especialmente a minha, mas o país é livre e o texto é meu—então pronto, eis aqui o meu desejo.

O fato é que Nova York é incrível. Não “eu cheguei ontem de Nova York e meu Deus, que lugar incrível!”, mas “eu moro há três décadas em Nova York e meu Deus, que lugar incrível.” Acontece com essa cidade o mesmo que acontece com quem você ama: conforme os anos passam, novos aspectos vão se revelando e você nunca vive tempo suficiente para conhecer todos. No começo, o que te deixa perplexo é a diversidade. A regra 34 pode ser facilmente adaptada para a Big Apple: se é possível imaginar uma coisa, ela existe em Nova York. Passados uns meses, a surpresa: você virou nova-iorquino. O seu apartamento é do tamanho da sua cama, você jamais pega o ônibus e não saberia dizer se é mais trágico viver em Nova Jersey ou em Los Angeles.

Todas essas coisas (e um milhão de outras) são verdade sobre Nova York, e cada uma te permite repensar a própria vida, se você for, é claro, do tipo que repensa a própria vida. Eu sou dessas que buscam significado em tudo, e para gente como eu, essa cidade é um prato cheio: quanto mais você a conhece, mais se conhece.

Atualmente, venho tentando enxergar a minha pequenez (não de uma maneira depreciativa, pelo contrário; aceitar a minha insignificância tem se provado um exercício de coragem dos mais frutíferos) e novamente Nova York vem a calhar: em que outro lugar do planeta isso ficaria tão claro? Basta olhar pela janela. Há mais estrelas brilhando no céu ou mais lâmpadas acesas nos prédios de Manhattan? Atravessando a ponte do Brooklyn, você quase consegue adivinhar o tamanho do universo. Em Nova York, você é apenas uma formiga e essa é a sensação mais libertadora do mundo: ninguém é mais livre do que uma formiga. I wish it upon you.

 

* Imagem: “New York Rises”, de Eugene de Salignac.

Flávia Stefani Resende
Leia mais textos de Flávia Stefani aqui.