Textos

12 de janeiro de 2016

Na mosca

Para Renato Maroni

 

Em uma das memórias mais antigas de minha infância, estou sozinha no meu quarto, em Goiânia, desenhando uma mosca com uma caneta Bic azul e recortando-a com os dedos em seguida. Se eu tivesse que apontar apenas um motivo pelo qual amo crianças, diria que é pela imaginação. Não tendo atingido ainda a complexidade de pensamento dos adultos, ao mesmo tempo em que tiram conclusões simples, elas estão abertas às mais diversas possibilidades. A mente delas é um caderno em branco.

Por volta dos quatro anos de idade, assumi que da mesma forma que existia menino e menina, devia existir mosca menino e mosca menina. Partindo daí, desenhei com capricho a minha versão de uma mosca menina: um serzinho com cílios compridos, lábios carnudos, minissaia e asas em formato de coração, pouca coisa maior do que a unha do meu polegar. Satisfeita com minha criação, dei à mosquinha recém-nascida a missão mais importante de sua vida: ser resgatada por um mosquito de verdade e viver para sempre ao lado dele — naquela época eu não imaginava que a vida das moscas era tão curta.

Eu quis muito que a minha mosca fosse feliz. Bonita demais ela já era, e eu via mosquitos no quarto quase diariamente, logo concluí que, para ter um final de cinema, eu só precisaria adicionar uma pitada de conflito à trama: rasguei uma de suas asas e, sentada na cabeceira da cama, passei a soltá-la de cima. Era apenas uma questão de tempo. Mosquito nenhum seria capaz de resistir aos apelos de uma dondoca — certamente, não um mosquito de boa reputação, marriage material.

“Socoooooooooooorro! Estou ferida, alguém por favor me ajuuuuuuuude!” Eu dizia em voz alta enquanto a mosquinha caía no travesseiro. Se aos 31 a minha voz é aguda, imagine aos quatro.

“O que foi, minha filha?” Minha tia Vuqui, que morava conosco na época, entrou no quarto. “Está tudo bem?”

“Sim, tia. Sabe essa mosca?” Eu coloquei o desenho na palma da mão dela. “Ela se machucou e precisa ser salva pelo mosquito.”

“E cadê o mosquito? Você não desenhou um?”

“Por um mosquito de verdade, tia!” respondi, impaciente. Minha tia não sabia de nada.

“Entendi.” Ela me devolveu o pequeno pedaço de papel. “Eu tenho uma ideia: que tal você tomar um lanche comigo na cozinha e deixar a mosca descansar um pouquinho? Se ela se machucou, precisa descansar. Você pode ajudá-la em seguida.”

“Tá bom,”, respondi. Em toda a minha vida, nunca fui capaz de recusar um convite para lanchar. “Vou deixá-la na janela, onde passam mais mosquitos.”

Terminado o lanche, voltei ao quarto, apressada. Para minha surpresa, a mosca não estava mais lá. Incrédulos (ou seja, adultos) dirão que o vento a levou, mas, cá entre nós, eu acho que foi um mosquito sabido.

 

* Ilustração de Laís Soares para Confeitaria

* Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Flávia Stefani Resende
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