Pam Houston

Pam Houston é uma escritora norteamericana renomada que, há cerca de um ano, tornou-se uma referência na minha vida, bem como uma amiga. Sobre a escritora eu não pretendo me estender muito: além de ser professora da Universidade da Califórnia, em Davis, e de ter publicado livros de sucesso (cinco até hoje), Pam viaja o mundo dando aulas de escrita criativa em companhia de autores norteamericanos que fazem o aprendiz menos deslumbrado entre nós suspirar: Steve Almond, Lidia Yuknavitch, Josh Weil, Cheryl Strayed etc. Mas me interessa mesmo falar sobre como ela se tornou uma referência, e uma amiga.

Em julho do ano passado, eu participei de uma conferência no Instituto Esalen, três horas ao sul de São Francisco. Pam Houston compunha o quadro de professores escolhidos por Strayed para darem palestras e oficinas durante os cinco dias do evento. Eu nunca tinha ouvido falar dela. Lembro inclusive de tê-la olhado com desdém na primeira noite, “uma professora aí qualquer.”

Na manhã seguinte, a primeira palestra foi a de Pam. Apesar do ar gélido de Big Sur, ela subiu ao palco descalça, usando bermudas azul marinho e uma camisa de linho branca desabotoada até a altura do sutiã. Em menos de cinco minutos de palestra, mandei um torpedo para o meu marido. “Acabei de descobrir a minha nova paixão literária: Pam Houston.” Ele me respondeu com o link para o verbete de Pam na Wikipedia.

“Eu não escrevo em diário”, disse ela logo de cara. “Você lê esse conselho por todos os lados, mas eu nunca tive diário nem quero ter. Não perco tempo tentando analisar o que eu sinto, e muito menos o que os meus personagens sentem. Quem tem que encontrar sentido nisso é o leitor. Me dá uma tristeza quando um autor subestima a inteligência do leitor, quando faz o trabalho dele.”

“Há alguns anos uma aluna me deu uma almofada de presente”, ela disse minutos depois. “Um lado da almofada dizia: ‘Confie no leitor’. O outro dizia: ‘Conte detalhes específicos’. Se eu tivesse que resumir o trabalho da minha vida em dois mantras, seriam esses. Mas eu não preciso, minha aluna já resumiu.”

“Eu amo cachorros. Escrevo sempre sobre cachorros porque acho que eles são o ser perfeito.”

“Nada nesse mundo é mais bacana do que um livro bem escrito. Com exceção de cachorros, é claro.”

“Viajar é a minha prioridade. As viagens conduzem a minha escrita, eu organizo as minhas aulas de acordo com as minhas viagens, e às vezes a própria viagem é o ensinamento.”

Essas foram algumas das coisas que consegui anotar nos primeiros cinco minutos de palestra. Depois, desisti. Minha mão não conseguia acompanhar.

No fim da manhã eu senti que havia encontrado uma amiga, a pessoa que seria para sempre uma de minhas principais referências literárias. Almoçamos juntas nesse dia por acaso: a minha mesa era a única vazia todo o refeitório. Desde então, tem sido assim: onde ela vai, eu faço o possível para estar. Participei da conferência que a própria Pam organizou alguns meses depois do evento em Big Sur, e tenho duas conferências com ela marcadas para este ano. Estou vendo se consigo me enfiar em uma terceira.

Qual não foi a minha alegria, então, ao descobrir que a Bruna Lobato tinha entrevistado a Pam há poucos dias para o Plain China. Eu conheci a Bruna no começo do ano, no Facebook. Nós duas éramos as únicas brasileiras em um grupo secreto de mais de mil e quinhentas pessoas, todas neuróticas: o grupo das pessoas que se candidataram a um mestrado em escrita criativa nos Estados Unidos e que não conseguiam fazer mais nada a não ser aguardar a resposta. Para nossa sorte (e ao contrário da maioria dos candidatos dentro e fora daquele grupo), fomos aceitas em dois programas de mestrado incríveis; a Bruna em Nova Yorkeu em São Francisco. No meu caso, o dedinho mágico de Pam fez toda a diferença: a carta de referência que ela escreveu para mim não apenas está pendurada na parede do meu escritório, como foi, tenho certeza, o que me colocou dentro programa com o qual tanto sonhei.

Com autorização da Bruna, reproduzo abaixo a entrevista que Pam deu a ela (em inglês), que considero repleta de lições e pontos válidos para quem se interessa por literatura contemporânea. Eu gostei das perguntas da Bruna, mas se as respostas foram boas eu deixo o leitor decidir. 🙂

 

Pam Houston on Reading and Writing

Pam Houston is the author of eight books, including the novel Sight Hound and the short story collection Cowboys Are My Weakness, named a New York TimesNotable Book. Her stories have been selected for The Best American Short Stories 1999, The 2013 Pushcart Prize, and The Best American Short Stories of the Century. She served in 2000 as a prize judge for the O. Henry Awards, alongside Michael Cunningham and George Saunders. She currently is Professor of English at UC Davis and lives on a remote ranch in southwestern Colorado. Pam served as the 2014 Fiction Prize Judge for plain china.

Much like her characters, Pam loves to travel. I had the opportunity to interview her before she headed to a small eco-resort in the Bahamas.
—Bruna Dantas Lobato ’15

 

BRUNA LOBATO – I just finished reading the novel Sleepless Nights by Elizabeth Hardwick, and her protagonist is called Elizabeth. There are a lot of great works of fiction that blur the line between fiction and nonfiction. The protagonist in your latest novel, Contents May Have Shifted, is also a woman named Pam. Can you talk about the fine line between fact and fiction?

PAM HOUSTON – Well, I don’t think of it as a fine line, I think of it more as an ever-widening grassy field, and I wanted Contents May Have Shifted to sit right in the middle of it. My task as a writer has always been to take the scenes, the concrete physical objects, the moments, and the sensory details the real world offers, and shape them into story. The shaping is an all-important part of it, and that is why fiction is my true love, but not fiction as in something that didn’t really happen, just fiction as in something for which the shaping is as least as important as the representational qualities. The things that happened to Pam in Contents May Have Shifted are also things that happened to me—and yet, we know language, for all our trying, won’t stand still, won’t mean absolutely. That is the good news, of course, and why we are in a lifelong unrequited love affair with it. That slippage of language, of memory, of what was true, and what we have convinced ourselves might have been true—this is rich ground for fiction (and in my opinion, nonfiction). It is at least as important to me to wind up with a scene that is shapely, as it is to represent the scene as it really happened. I want the scene to serve the story, whatever the story becomes as it goes along. And yet I do believe in all my raw materials coming from actual happenings. I call it fiction so the nonfiction police don’t come after me, and because so far at least, there is not a law against saying it is fiction, even if everything in it actually happened.

 

BRUNA LOBATO – What was it like to read undergraduate writers for Plain China?

PAM HOUSTON –  I enjoyed reading the plain china manuscripts a great deal. I know I only saw the cream of the crop but I was so impressed with the pile I got, and with the winners and honorable mentions I chose. I teach undergraduate creative writing as well as graduate creative writing, and quite honestly, some students—by the time they get to grad school—can be a bit jaded, a bit arch, a bit too reliant on what we call in my house, the hollow chuckle. But for undergrad writers, the whole world is opening up in a particular way all around them…It’s a thrilling thing to witness.

 

BRUNA LOBATO – Who are the writers who have influenced you the most? What kinds of stories are you drawn to?

PAM HOUSTON – A short list of writers who have influenced me the most: Larry Levis, Mark Doty, Toni Morrison, Alice Munro, Ron Carlson, Lorrie Moore, Robert Boswell, Carl Phillips, Amy Hempel, Mary Gaitskill, James Baldwin, James Joyce. I am drawn to a strong narrative voice, and stories that are full of the concrete physical world. I also like to be invited into the story. I think a big part of story writing is about knowing what not to tell, what connections to leave to the reader to work out. I like stories that ask me to be an active reader.

 

BRUNA LOBATO – Do you have any advice for young writers?

PAM HOUSTON – The most important part of my writing practice is paying very strict attention to and in the specifics of the world. I move through my days waiting for something to arrest my attention, to glimmer at me. It could be a line of dialogue overheard in a coffee shop, or the way the light reflects off the surface of the river at sunset, or a big bull elk walking through my pasture at dawn. I watch and listen, and wait until I see something that feels a little like it hits a gong inside me that says, Hey writer, over here, pay attention. I think the most important thing I would say to your question is to develop your own curious attention, to start noticing everything.

 

BRUNA LOBATO – Can you tell us about what you’re working on right now?

PAM HOUSTON –  I am working on a memoir about the 120-acre homestead I have lived on for the last 25 years. It is, I suppose, a memoir of place. Contents May Have Shifted was all about velocity, about flying and flying and jumping rapid fire from place to place and grabbing the thing that shined the brightest in each one. This book is just the opposite. It is about sitting still. It is about what can be found by looking deeper, and then deeper into the tall grass. It is a giant challenge for me, because I do so love to go fast, but I love challenges most of all that ask me to reconsider everything.

Bruna Dantas Lobato ’15 is a fiction editor for Plain China. She studies comparative literature and creative writing and was recently awarded the Bennington Undergraduate Writing Fellowship in Fiction.

 

* Imagem: Adam Karsten.

Flávia Stefani Resende
Leia mais textos de Flávia Stefani aqui.