Cinema, Textos

25 de fevereiro de 2014

A volúvel da estatueta

Como boa neurótica que sou, tenho duas regras cinematográficas que levo muito a sério. A primeira delas é não dividir pipoca com ninguém. Quando eu digo ninguém, é ninguém. Porque algumas pessoas tentam burlar essa regra se achando mais importante que as outras. “Ela não vai recusar umas pipoquinhas para mim.” Pois fique sabendo que vou. Segurar um pacote só meu, sem dividir com ninguém, é uma neurose muito específica da qual eu não abro mão.

A outra regra é não me apaixonar por dois filmes, sem um intervalo de um mês. Eu preciso desse tempo para me recompor, falar exaustivamente para os meus amigos, postar no Instagram, no Facebook e no Twitter, ameaçar desfazer amizades com quem não assistir ou assistir e não amar tanto quanto eu. Tudo isso leva tempo.

Só que na leva de filmes com indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro neste ano, ficou bem difícil seguir essa segunda regra. Virei uma traidora, jurando amor eterno a cada 4 dias.

Tudo começou quando vi A Caça , do diretor dinamarquês Thomas Vinterberg. Um filme profundo e doloroso sobre os danos irreparáveis que a mentira e o julgamento precipitado podem causar. Era como se pudesse sentir a dor da injustiça dentro de mim. Fiquei dias falando sobre ele — até com desconhecidos na rua, eu puxava assunto.

Em seguida, veio Alabama Monroe. Por favor, uma pausa para Alabama. Esse é um filme que não dá para ir falando sem essa pausa. Sem um suspiro. Sem um olhar perdido no horizonte. O longa belga do diretor Felix Van Groeningen é um belíssimo conto de fadas rural de arrancar o coração com as mãos. Aquele tipo de filme em que os personagens saem do cinema com a gente, vão para casa, para o trabalho, para as festas, e se recusam a partir enquanto a gente não aceita e supera tudo que aconteceu com eles. Quando a gente aceita, eles vão.

E por último, A Grande Beleza, do diretor italiano Paolo Sorrentino, que me deixou extasiada com a beleza das cenas, da música e da desesperança toda que dançava animada ao pé do Coliseu. Um filme que me chamou de canto e disse: “Minha querida, a vida não passa de uma desilusão constante intercalada por festas divertidas. Mas, mesmo assim, pode ser linda”. Duas horas e vinte minutos de puro espetáculo.

Eu gosto de filmes que deixam conseqüências. Não gosto de sair do cinema do mesmo jeito que entrei. E nesse quesito, e em todos os outros, esses três citados estão de parabéns.

Alguns filmes são tão lindos que não terminam quando acabam.

Por isso, esses são meus favoritos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2014.

 

* Imagem: cena do filme Alabama Monroe

Francine Bittencourt
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