Textos

13 de abril de 2014

Bolinha de sabão

“Na semana passada, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) recomendou o fim da veiculação de propagandas voltadas às crianças. Segundo o órgão, “a prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço é abusiva e, portanto, ilegal segundo o Código de Defesa do Consumidor.” (Carta Capital)

Não pude deixar de fazer uma retrospectiva dos anos 80 e encontrar muitas pequenas frustrações decorrentes da propaganda, sendo a maioria da Estrela (que se já não estivesse falida, mandava um processo).

Quem não lembra desse jingle: “A Estrela é nossa companheira, nossa brincadeira, nossa diversão…” — não sei, notem que tudo rima com frustração — “Toda criança tem uma estrela dentro do coraçãoooooooooooooo”?

Minha infância não foi nem um pouco rica, mas a gente conseguia, “negociando bem”, a maioria dos brinquedos.

Por negociando bem, entendam: birra, gritaria, choro sentido, greve de fome e ameaça de matar o irmão.

Eu tive o Lápis de 36 cores da Faber Castell  (“Numa folha qualquer, eu desenho um sol amarelo” — e o meu sol tinha que ser com o lápis amarelo que só tinha naquela caixa). Tive a Caloi pink com cestinha (sem garupa, porque eu já era uma mini- egoísta). Tive o Pogobol verde com roxo, tive a Barbie de gala ruiva e tive a Quem me Quer (um beijo para a linda da minha Tia Dal).

Tive muitos brinquedos incríveis. Portanto, não era para eu estar reclamando da vida. Mas a Bolinha de Sabão, que era tudo que eu mais queria aos 7 anos de idade, eu não tive.

Lembro de assistir à propaganda na TV com os olhos brilhando:

“Sentada na calçada de canudo e canequinha …tchubetchubim… eu vi uma bonequinha… “tchubetchubim”… fazendo uma bolinha “tchubetchubim”… bolinha de sabão”.

Lembro de chorar na loja “Pincel de Mel” e implorar:

—Peloamordedeus, eu quero essa boneca, faço qualquer coisa.

Minha mãe argumentava dizendo que não tinha dinheiro e o assunto estava encerrado.

Então, no desespero, eu dava ideias maravilhosas:

— Não precisa ser dinheiro, mãe. Dá um cheque, eles aceitam.

Tenho vontade de voltar em 1985 e abraçar essa menininha que, chorando, dava uma ideia genial para mãe que estava sem dinheiro: dá um cheque, eles aceitam.

Resumindo, não ganhei a boneca. Mas a parte mais curiosa da história vocês não podem imaginar.

Corta. São Paulo, 2008.

Quem se torna meu diretor de criação? O publicitário que criou o jingle da Bolinha de Sabão. Foi como um acerto de contas do passado, sem o acerto. Cada vez que eu ia pedir aumento, me lembrava dessa história e lançava a chantagem:

—Você foi o culpado pela maior tristeza da minha infância, vai me negar um aumento?

E ele sempre negava.

Tudo isso eu escrevi para dizer que, apesar de ser publicitária, e ter tentado colocar uma criança para vender apartamento (sim, sou uma hipócrita), ainda assim, sou completamente contra a propaganda infantil em todas as suas formas.

Acho uma covardia impor a indefesos desejos que não podem se cumprir.

Acho uma crueldade incentivar o consumismo desenfreado, que promove a competição e a frustração.

Mas, mesmo assim, queria comprar a coleção inteira da Monster High de páscoa para a minha sobrinha Duda.

Talvez para suprir a falta que a Bolinha de Sabão me faz até hoje.

 

* Imagem: Blog É da sua época?

Francine Bittencourt
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