Textos

08 de agosto de 2014

Flip 2014

Entro no carro em direção a Paraty. Daqui a cinco horas estaremos lá. Com sorte, até em quatro. Sinto aquele cansaço que beira o tédio. A Marginal está parada. Cheia de gente cansada e desiludida. Ver as mesmas coisas todos os dias é o que desilude todo mundo. O trânsito não anda nem um pouquinho. Acho que não serão quatro, nem cinco horas. Talvez seis ou sete. Não dá para contar com a sorte na Marginal. Gente desiludida anda devagar.

Estou cansada como se já fosse o último dia do ano. Mas estou na estrada indo para Flip, a Feira Literária Internacional de Paraty.

No meio do caminho, pergunto para minha amiga: Paraty é com Y ou com I? Cada placa está de um jeito.

Ela não sabe responder, mas diz que estamos quase chegando. E isso é tudo que importa agora.

Chegar nessa cidade muda tudo.

Ainda é como se fosse o último dia do ano. Mas estamos aqui, num lugar onde até o cansaço é bonito e tem um clima de contagem regressiva no ar.

 

— Que pena que daqui a pouco acaba.

— Calma, ainda nem começou.

 

Dez. A primeira mesa foi com Elaine Brum, Charles Peixoto e Gregório Duvivier. O tema do debate era: “O limite entre a prosa e a poesia”. Eliane me arrancou lágrimas já na primeira leitura do texto, mas Gregório me fez sorrir no minuto seguinte. Escuto fogos, mas ainda de longe.

Nove. Na casa Folha não consigo entrar, mas ouço lá de fora a voz do Xico Sá. “Todo casamento deve começar com uma ilusão. Com uma ilusão suprema imediata e maluca, onde o cara vai para o Google pesquisar como se faz um ovo poché para agradar a moça pela manhã. Deve começar assim porque nunca sabemos para onde vai uma relação. O amor é ingovernável, como a cidade de São Paulo. ” Lá de fora, suspiro.

Oito. Essa palestra é como aquele momento  em que a festa está começando, mas ainda está vazia e um pouco chata. Nunca conheci alguém com tão pouco carisma como a indiana Jhumpa Lahiri. Saí como entrei, e apesar do seu livro Aguapés ser muito elogiado, não sei se quero ler.

Sete. Em seguida, um debate com George Moura, Sergio Goldenberg e José Luiz Villamarim, os responsáveis pela nova adaptação da novela O Rebu, de 1974. Uma aula de roteiro. Tenho certeza que Bráulio está sorrindo no céu. Ouço os fogos de artifício cada vez mais perto. Já sinto um clima de festa dentro de mim. 

Seis. Essa era a mesa a que mais queria assistir. Andrew Solomon, escritor americano que veio para falar dos seus livros. Entre eles, o principal (para mim): O Demônio do Meio Dia, que aborda de maneira profunda a depressão. A plateia aplaudiu de pé.   

Cinco. Encontro com Antônio Prata e o escritor paquistanês Mohsin Hamid, autor dos livros Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente e Fundamentalista relutante. Ambos esgotados no Brasil. Essa mesa era incrível, mas não consegui assistir até o fim, porque coincidiu com o horário de outra, que queria acompanhar também. #Correria. Mas já consegui ver pelo site da Flip, onde quase todas as palestras estão disponíveis. Recomendo.

Quatro. Palestra com meu muso maior: Silvio de Abreu. O autor que escreveu Rainha da Sucata e fez a Laurinha Figueroa pular de um prédio com os brincos arrancados da orelha da sucateira para incriminá-la. “Laurinhaaaaaaaa” — quem não lembra dessa cena não sabe o que é o amor por uma novela. Os fogos aumentam muito e agora sinto que a festa começou para valer.

Três. Entro numa mesa  sobre as narrativas do poder, com a jornalista argentina Graciela Mochkofsky. Acho incrível, mas não entendo nada. Saio correndo para a Casa do Autor Roteirista mais uma vez. Chego a tempo de assistir a quatro pessoas que admiro profundamente falarem sobre a influência da poesia nos roteiros: Paulo Lins, Adriana Falcão, Marcelino Freire e Thelma Guedes. A Thelma, depois do Silvio de Abreu, é minha autora preferida de novelas. Mais que isso, ela é minha inspiração e espalha generosidade por onde passa. É uma das idealizadoras de um dos melhores lugares da Flip, A Casa do Autor Roteirista. Um evento paralelo sobre roteiro de TV e cinema.

Dois. Essa palestra trouxe o clima de auge da festa. Fernanda Torres falou sobre seu primeiro romance, Fim, junto com o peruano Daniel Alarcón, que estava lançando À Noite Andamos em Círculos. Fogos se misturam com aplausos. Daqui a pouco já vai dar meia noite.

Um. Chego para a última: Livro de Cabeceira. Onde os principais autores falam trechos de seus livros preferidos, aqueles que eles levariam a uma ilha deserta. Fernanda Torres leu Millôr Fernandes, o grande homenageado. Todos os outros leram clássicos. Mas descobri, entre os convidados, um autor que não consegui ver durante o evento, mas que agora já está entre meus preferidos: o escritor Etgar Keret, de Israel. Valeu por isso, principalmente.

Essa é a mesa que mais espero e a que menos espero, porque quando chega significa que acabou. Deu meia noite dentro de mim.

Estou na estrada voltando para São Paulo. Ainda é quatro de agosto, mas é como se fosse o primeiro dia do ano. Continuo cansada, mas não é mais aquele cansaço que beira a desilusão. A Flip é uma espécie de ano novo que começa assim que ela termina.

 

* Imagem: André Conti. Veja mais fotos no flickr oficial da Flip.

Francine Bittencourt
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