Textos

30 de julho de 2015

Ilustração:
Thiago Thomé

Meio-dia na Vila Olímpia

Se na hora do almoço você começar a ouvir palavras em inglês no meio de diálogos em português, como brainstormingbenchmarking, turnover, budget e deadline, pode ter certeza: você está na Vila Olímpia! O bairro de São Paulo que faz fronteira imaginária com Miami.

Um reino encantado onde a moeda de troca chama Visa Vale.

A terra do crachá ostentação.

Aqui, encostar sua perna todos os dias em uma catraca dourada faz de você um vencedor.

Eleito pelo Guinness como o bairro que tem o recorde mundial de lentidão na fila do quilo. As pessoas vivem correndo e atrasadas, mas a escolha do palmito é feita em câmera lenta. Sempre toca Carruagem de Fogo nesse momento mágico.

Um bairro que se basta.
Somos Los Angeles.
Temos coqueiro.
Somos Itália.
Temos Eataly.
Somos Somália.
Temos favela.
Somos CEO.
Temos motoboy.

A Marginal (mesmo lenta) é nossa; a Bandeirantes também; um pedaço da Faria Lima, com certeza.

Se a gente quisesse, poderíamos declarar guerra e virar um país.

Aqui você pode dar dez passos e comprar um Porshe na esquina. Ou dar três e negociar qualquer coisa por dez reais com o camelô. Ou ainda comprar uma bolsa de trinta mil no Shopping JK e depois fazer uma cara triste quando passar na favela ao lado:

—Puta desigualdade, né?
—Esse pais tá foda.

Às vezes, vejo guias de viagens com grupos.

—Ali fica a Nestlé.
—Lá: Starbucks, Alpargatas e a Oi!
—Ah, e ali ó, atrás daquele prédio, tem a Motorola, a Sony, a Ericsson, Intel e a Microsoft.

Visitantes se emocionam como se o Mickey, o Papa e a Torre Eiffel estivessem juntos em um lugar só.

Na hora do almoço, o restaurante japonês da Cardoso de Melo bomba. Engravatados ostentam seus crachás de multinacionais. O shoyu está ralo de tanta água, mas todo mundo está dando risadas altas e corporativas; ninguém se importa.

-Aceita Visa Vale?
-Ah, então tá ótimo.

Moças bonitas com saltos altíssimos se equilibram na fila dos restaurantes lotados e se chamam de “amiga”. Ou pior, “miga”.

Quero morrer de desgosto, mas continuo viva em pleno sol do meio-dia.

Todo mundo aqui fala muito alto e precisa ser ouvido. Se chegou na Vila Olímpia é porque o sujeito é foda. Deixa ele gritar e escuta, mortal.

Assim, os restaurantes estão cheios de gente supostamente muito foda berrando no ouvido de gente nem tão foda assim, mas que está fazendo MBA para chegar lá.

Todo mundo está muito atrasado para uma reunião muito importante daqui a pouco. Reunião essa onde brainstorming, benchmarking, turnover, budget e deadline serão pronunciadas 3897 vezes em vinte minutos. Eu já contei.

Em todos os grupos barulhentos, o assunto é apenas um: o chefe escroto babaca filho da puta. Falar mal do chefe é o hino da Vila Olímpia.

Tenho vontade de sentar no meio fio e rezar por nós.

Nem a seca do sertão nordestino deixa as pessoas tão miseráveis.

Mas aqui não é sertão.
Aqui é mar.
Sem água.
Mas quem se importa?
É só um detalhe.

—Aceita Visa Vale?
—Ah, então tá ótimo!

Francine Bittencourt
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