Cinema, Resenhas

19 de dezembro de 2013

Frances Ha

O ano não poderia acabar sem Frances Ha

Frances Ha, do diretor norte-americano Noah Baumbach, encontrou um lugar quentinho e confortável no meu coração logo numa das primeiras cenas, quando Frances diz: toda vez que tento fazer omelete, vira ovo mexido. Quase gritei no cinema: eu também, eu também. Sempre tive essa dúvida: em qual momento o omelete deixa de ser omelete e vira ovo mexido? É como tentar descobrir o momento exato na vida em que aquilo que tinha tudo para dar certo dá errado — achei o ovo mexido uma interessante metáfora.

Foi essa colocação sutil que nos uniu de cara, embora não tenha sido tão simples assim. Frances me ganhava e me perdia a cada minuto num constante e sofisticado embate.

Perdeu quando, à primeira vista, pareceu ser uma amiga chata e carente no melhor estilo “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Tenho sérios problemas com Saint-Exupéry.

Ganhou quando saiu cantando pelas ruas, mesmo com tudo que estava dando errado. “But, i try. I try”.

Perdeu de novo quando, num jantar entre amigos, não parava de falar coisas absolutamente equivocadas.

Ganhou quando percebi que era apenas alguém agonizando frustrações em frente a um grupo bem sucedido.

Ganhou novamente quando as coisas equivocadas se transformaram em um dos diálogos/ monólogos mais lindos do cinema, quando Frances relata o que espera de um relacionamento: algo como a felicidade de saber, só de cruzar olhares distantes em uma sala, que aquela pessoa é a sua pessoa nessa vida. Nessa hora, eu derreti na cadeira. Equivocada era eu, por julgar precocemente alguém tão complexa como Frances.

E ganhou definitivamente quando, mesmo desempregada, resolveu passar dois dias em Paris, usando todo limite do cartão de crédito. Chegando lá se perdeu na tarja preta e acordou no meio da tarde. Uma vez, acordei no meio da tarde em Paris e vou carregar essa culpa para sempre.

Esse pode até parecer um filme que vai nos deixar sem grandes conseqüências. Mas, aos poucos, a gente vai percebendo que não.

E embora eu tenha dito que queria dançar pela Paulista quando saí do cinema, a verdade não era essa. Minha vontade mesmo foi de sair correndo para minha casa, para poder chorar bem alto. Pela Frances. Por mim. Por todos nós que, mesmo frustrados, seguimos tentando.

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Acordar todo dia acreditando em algo, que talvez nunca se realize, é meio como dançar pelas ruas sem ouvir Modern Love.

Frances existe e está por aí em todas as pessoas que tentam fazer omeletes que viram ovos mexidos. Frances está por aí no medo que sentimos de imaginar que nossos sonhos, às vezes, podem ser maiores do que nosso talento.

Frances está por aí.

Espero que todos possam encontrá-la ou, quem sabe, reconhecê-la em si.

Francine Bittencourt
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