Textos

12 de janeiro de 2016

Pirulito

Meu Deus.

Sonhei com o Pirulito de novo.

O gato da minha vó que morreu de câncer na cabeça se debatendo numa cadeira azul clara de madeira descascada.

Ele se foi numa tarde de 1983 quando eu era bem pequena. Mas até hoje ainda me atormenta com aquele olhar de quem está prestes a acabar com tudo.

— Pirulito, o que você ainda quer de mim?

Não é possível esse gato me perseguir para sempre.

No dia da sua morte, só estávamos eu e ele no quintal. Era um verão muito quente e imagino o quanto deveria estar sendo duro viver aqueles dias azuis com aquela dor terrível. Ele não podia mais ser aquele gato bacana, que não lembro se um dia ele foi.

Não podia ser aquele bichano desencanado, que anda tranquilo pela casa procurando um novelo para brincar.

Não tinha mais a leveza cínica e natural dos gatos cool.

Pirulito estava no auge da amargura quando se entregou às cabeçadas que colocariam fim em tudo de uma vez por todas.

Não tiro a razão dele, mas preferia não ter assistido.

Fiquei olhando. Não havia nada que eu pudesse fazer.

Talvez ele ainda volte, para me cobrar pelo fato de eu não ter buscado ajuda, ou apenas para me mostrar que algumas lembranças não desaparecem com o tempo.

— Pirulito, me perdoa por eu ter assistido a tudo isso imóvel sentada naquele murinho de tijolos laranja?

Não adianta, ele sempre volta e me olha com a mesma cara, como se dissesse:

—Você nunca vai me esquecer.

Foi assim que ele falou comigo naquela tarde de 1983, antes de a cadeira azul ficar vermelha.

No fundo, eu sei que ele não precisava de ajuda, ele precisava de plateia.

E me escolheu.

 

 

* Ilustração de Domingos Octaviano para Confeitaria

* * Este texto foi originalmente publicado em nosso fanzine Tempo; Achados e Perdidos.

Francine Bittencourt
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