Textos

15 de outubro de 2015

Por onde andará Tia Lucinda?

Nunca fui boa em matemática.
Muito menos em química.
Geografia então, nem se fale, até hoje não sei onde estou.
Sempre vivi num mundo paralelo e considero um milagre não ter ido parar na Cracolândia.
Só havia um dia na semana em que a palavra “colégio” fazia sentido.
O dia da aula de redação.
Quando encontrava a Tia Lucinda e mostrava tudo que tinha escrito durante a semana.
Levava pilhas de folhas com uma letrinha infantil cheia de urgência.
Tinha muita coisa para contar.
Só não sei o quê, naquela idade.
Ela pedia uma redação; eu levava cinco.
Era minha única chance de ser feliz naquele mundo chato, cheio regras e equações incalculáveis.
Desenvolvi um verdadeiro fascínio pela Tia Lucinda e seus lenços de seda coloridos na cabeça. Para mim, ela era uma fada encantada em forma de professora que vinha para me salvar e mostrar que existia um outro caminho.
Me puxava pela mão e me levava lá para a frente da classe para ler em voz alta o que tinha escrito.
Depois virava para os alunos e falava:
— Isso que é redação, não essas três linhas que vocês escrevem.
E então para mim:
— Muito bem “minha pequena escritora”, pode voltar para o seu lugar.
Voltava flutuando com patins imaginários numa mistura de felicidade e arrogância, me sentindo a pessoa mais importante do mundo.
De humilhada nas aulas de química, virava celebridade nas aulas de redação.
O jogo virava bonito.
“Vocês podem até saber a tabuada de cor, mas nunca vão passar das três linhas”.
Chupem esse halls de cereja, seus burros.
Nunca mais ouvi falar dela.
Não sei onde foi parar.
Queria muito reencontrá-la, para dar um abraço apertado e agradecer por tudo.
Até hoje, quando as coisas se complicam, eu me lembro dela me puxando pela mão e me levando lá para a frente.
Alguns mestres são para sempre dentro da gente — é o caso da Tia Lucinda.
Feliz Dia do Professor.

* Imagem: ilustração de dsguy411

Francine Bittencourt
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