Textos

29 de novembro de 2012

Quem quer verdade?

Clark Gable abraçava Vivien Leigh como se nunca mais fosse soltar. E embora eu já estivesse um pouquinho alterada pelo vinho, não estava delirando, só olhando para a parede onde os amores que decidi que seriam para sempre estão emoldurados.

No cantinho sagrado da mentira, eles serão verdade para mim.

— Mas para que essa festa? — Ela havia me perguntado no dia anterior. Expliquei que era para comemorar o aniversário de dois amigos e a viagem de outra. Eu só queria comemorar alguma coisa. Qualquer coisa que fosse.

Todo mundo que importa um pouco topou ir para a minha casa comigo e inventar um motivo para festejar numa quinta-feira.

Enquanto eles riam alto do amigo que contava a história do forninho, eu olhava para a parede quietinha pensando que consegui fazer a Vivien Leigh ficar para sempre com o Clark Gable. E estava me sentindo poderosa por isso.

— Nada é impossível nesse mundo e aqui em casa eles vão ficar juntos.

Então, voltei para história do forninho. Dava para pegar a última parte e rir com eles, mesmo que todos nós já a tivéssemos escutado mil vezes.

Acho até que a história do forninho não é totalmente verdadeira, mas ele conta de uma maneira tão engraçada que desejamos acreditar que seja.

E quem quer verdade quando se tem bons amigos reunidos na sala da sua casa?

Eu não faço a menor questão.

Se pudesse, emoldurava a gente rindo também e colocava ali na parede ao lado da Vivien e do Clark.

A vida é tão cheia de franquezas demolidoras que eu decidi dar uma festa para comemorar tudo que não precisa ser verdade ou não precisa ser “para sempre” para que seja bonito.

Quem quer verdade é a polícia. Eu estou muito bem assim.

 

* Imagem: cena do filme … E o Vento Levou

Francine Bittencourt
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