Um defeito de cor

Eu já me apaixonei por muitos livros na vida, mas foi a primeira vez que fechei a última página e fiquei abraçada com um deles por alguns minutos, agradecendo muito, muito mesmo, por a gente ter se encontrado.

Um amigo havia me indicado e passei uma semana procurando em todas as livrarias de São Paulo, sem sucesso. Esgotado. Consegui na Cultura, que traria o único exemplar disponível de Fortaleza, mas poderia demorar até 15 dias. Vendo minha desilusão, o vendedor tentou me animar: vai passar rápido. Não acho que 15 dias passam assim tão rápido, principalmente quando a gente está esperando algo que quer muito. Sem outra alternativa, encomendei. No dia seguinte, passei num sebo que fica a 100 metros da minha casa e lá estava ele na vitrine, esperando por mim.

Comprei e voltei para casa em seguida para começar a ler suas novecentas e quarenta e sete páginas. Só o deixei agora, depois do nosso longo abraço de despedida.

Um defeito de cor conta a história de Kehinde no começo do século XIX, capturada no Daomé, região da África, e trazida num navio de tráfico de escravos para o Brasil. As primeiras páginas ganham conotação de fábula, porque a maneira que a autora conta seu encontro com os originais do livro é tão linda quanto o livro em si.

“Eu nasci em Savalu, reino de Daomé, África, no ano de um mil oitocentos e dez. Portanto, tinha quase sete anos quando esta história começou. O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino.”

Durante a travessia, os negros capturados eram mantidos em condições extremamente precárias no porão desse navio, numa viagem que durava meses. Passavam fome, frio, adoeciam, morriam — muitos até se enforcavam por não aguentar tamanho sofrimento. Depois eram atirados ao mar e viravam comida de peixe.

Foi quase assim que Kehinde perdeu toda sua família e chegou ao Brasil sozinha com apenas oito anos. Comprada por um fazendeiro em seus primeiros dias no Brasil, foi trabalhar como escrava na sua fazenda em São Salvador, onde sua história recomeça.

A saga atravessa oito décadas e usa como fio condutor da narrativa o desaparecimento de um dos seus filhos, para quem ela descreve com detalhes cada uma dessas novecentas e quarenta e sete páginas. São muitas páginas, mas acreditem: não sobra uma vírgula.

No meio desse caminho, perdeu  todos que amava, reconstruiu tudo à sua volta, e a si mesma, incontáveis vezes. De uma maneira que não tenho certeza que é possível — mas deve ser, porque há quem passe por coisas inacreditáveis na vida.

Um defeito de cor é uma viagem ao epicentro da dor da escravidão e nos leva para o contexto histórico absurdo e inaudível de violência contra os negros. Repugnância, tristeza e ternura se alternam e, capítulo por capítulo, a gente vai se apaixonando cada vez mais pela personagem, a ponto de querer largar absolutamente tudo para ouvir o que ela tem a dizer, embora muitas vezes seja tão difícil ouvir.

— Pula essa parte, Kehinde, não quero viver sabendo de detalhes tão tristes.

Mas a leveza de um próximo capítulo me fazia querer continuar ao lado dela até o fim.

Passei 15 dias alternando entre o choro e o espirro iminentes. Quando não estava chorando, estava espirrando, devido a poeira do sebo. Passei 15 dias mergulhada numa história que precisava acabar para poder voltar à vida, mas, ao mesmo tempo, desejava que não acabasse, porque se tornou uma das experiências mais lindas que a literatura já me proporcionou.

Meu amigo, quando me indicou, disse: Ana Maria Gonçalves é a melhor escritora desse país. Agora aqui, abraçada com o livro recém terminado, só posso concordar com ele: a melhor, de todas.

“O que aconteceu antes disso não tem importância, pois a vida corria paralela ao destino.”

Francine Bittencourt
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