Textos

19 de setembro de 2012

Em resposta

Não venha bancar o melhor amigo.

Não queira ser presente, agora que engatinho com meus próprios pés.

 

Você fugiu por anos.

Eu sempre precisei de alguém.

Meu quarto sempre foi aqui.

E você nunca me visitou – mesmo estando no quarto ao lado.

 

É claro que amo, pai.

Eu agradeço por ter você.

Mas nem nossas afinidades nos aproximou.

Você me salvou de um nome brega.

Você me ensinou a gostar de Led Zeppelin.

Mas você sabia que Beatles é a minha banda preferida? Que eu gosto de futebol?

Que aquelas férias não fui para Caraguá com minhas amigas.

Fui de carro, com meu namoradinho da época, sei lá para onde. Dormimos, e fizemos tudo, no carro.

Sim, dentro do carro dele.

Não sabia, né? Claro.

Eu tive que conhecer muita coisa com os outros.

 

Aliás, a lista do que tive que aprender por aí é imensa.

Só não supera, mesmo, essa nossa distância.

 

Não, não quero mais suco.

Perdi a fome.

Satisfeito em ouvir minha voz?

 

Ah, pai.

“She’s leaving home” é a música mais bonita da minha vida.

 

 

 

* Nota da Confeitaria:

Guilherme leu o texto “De, Para“, de Fabricio Teixeira, e nos disse que aquele conto, de tão bonito, acabou por deixá-lo tímido em escrever aqui na revista. Mas, de certa forma, também o inspirou a pensar em uma possível “resposta” da filha.

O que você leu acima é a tal resposta que Guilherme imaginou. Provavelmente, diferente da que o Fabricio teria imaginado. E essa que é a graça da história.

A gente acredita que texto bom é assim: comove, transforma, inspira e pode, até mesmo, desdobrar-se em outros textos bons.

Guilherme Nunes
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