Textos

28 de junho de 2013

A corrupção do tempo

Pode ser um texto gonzo, disse o caro editor. Quem conhece o termo vai logo se lembrar de Hunter S. Thompson e seu tipo pra lá de peculiar de jornalismo. Para quem não é familiar, explico que o jornalismo gonzo é geralmente narrado em primeira pessoa, vem da experiência do próprio jornalista, que toma parte na ação. Torna-se, desta maneira, parte da matéria. Matéria que deveria girar em torno da bicicleta em São Paulo.

Não faço o tipo que pega o carro com ar condicionado na garagem e dirige — já com o crachá dependurado no pescoço — até um edifício de vidro na Berrini. Faz mais de 6 anos que não tenho carro e essa parte do gonzo até que foi razoavelmente simples. Não precisei mudar de hábitos, comprar uma bicicleta, suar ladeira acima e nem sujar a mão de graxa. É de bicicleta que vou trabalhar todos os dias.

Para a decepção de Hunter S. Thomson, o cenário da rota casa-trabalho que tomo todos os dias não começa em algum submundo fétido. Não preciso desviar de ladrões de bicicleta e nem pego avenidas cheias de caminhões transportando líquidos inflamáveis ou tóxicos. São apenas 2.1km arborizados e planos separando o prédio em que moro e a agência de publicidade onde trabalho. Fica tranquila, mãe.

Essa aparente moleza diária não significa que não tenha tomado algumas das famosas “finas educativas” de motoristas de ônibus, que não tenha esfolado joelhos, cotovelos e mãos ao evitar um buraco no asfalto de nossas maravilhosas e bem cuidadas ruas e cair em outro ainda maior — uma espécie de primo mais velho do buraco desviado. Não significa que não tenha chegado em casa encharcado de chuva até os ossos ou ao trabalho pingando de suor em dias de Senegal Paulista. Quer dizer que, como toda rotina, o trajeto é feito sem muitas surpresas. Sei onde me posicionar para ficar mais seguro nos cruzamentos, sei onde fica a pequena pickup que vende maçãs e que me abastece no caminho, aprendi o melhor ponto para pegar embalo e pedalar menos nos dias mais quentes. Nothing to write home about (nada a se escrever para a família lá em casa), como diria um soldado inglês em um dia sem batalhas.

Para a decepção dos cicloativistas mais barulhentos, não sou de impor o meu jeito de locomoção para as outras pessoas. Se ao longo dos anos acabei convencendo mais gente a trancafiar o carro na garagem, foi através do exemplo. Reconheço que as manifestações, as bicicletadas, as pedaladas sem roupa e a pressão diária no governo têm acelerado algumas conquistas. Nesta meia década de bicicleta, consigo notar que ao menos reconhecem que bicicletas podem estar ali, ocupando um espaço magrelo de asfalto. É como aquele amiguinho que a professora impõe ao seu grupo de trabalho ou time de futebol. É a contragosto da maioria, mas estamos ali e o número só faz crescer.

Sinto falta de ouvir rádio. Nos congestionamentos, gostava de ouvir música ou alguns programas da CBN. Hoje, em alguns dias, coloco fone de ouvido e ouço música baixinho, mas na maioria das vezes me pego pensando. Pensando na cidade, nas calçadas, nas árvores — passo todo dia por duas delas que são perfeitos brócolis gigantes. Por mais estranho que pareça, levo menos tempo de bicicleta ao trabalho do que levava de carro, mas tenho mais tempo de pensar. O stress automobilístico nos deixa mais zumbis, ligados apenas no carro ao lado, no farol que vai fechar, no cruzamento que está cada dia mais demorado de atravessar. No trânsito, somos o congestionamento até mentalmente. A bicicleta me faz pensar. O mesmo acontece quando estou nadando na academia ou caminhando para o trabalho. O ritmo parece mais propício a formulação de pequenas teorias.

Uma delas, se o leitor me permite, é a que dá título a este texto. A corrupção do tempo. Qualquer um que acompanha o noticiário no Brasil já perdeu a conta dos milhões de reais que são roubados por políticos, empreiteiros, cartolas, juízes, publicitários. Dinheiro público desviado para contas privadas é quase regra. A coisa toda é tão generalizada que atingimos uma fadiga contábil, não conseguimos mais apontar este ou aquele corrupto: todos o parecem ser. Milhares, milhões e bilhões misturam seus zeros em nossas cabeças e as cifras acabam perdendo o sentindo. É como quando repetimos uma palavra à exaustão até que o seu som se desconecte de seu significado. Sabemos que o homem só consegue compreender números até certo tamanho, depois disso fica difícil imaginar.

Que me perdoe Santo Agostinho, mas com o tempo, a percepcão é um pouco mais fácil. E, para mim, é esta a pior das corrupções brasileiras. Temos uma média de 80 anos de vida, certo? Fácil de entender esta conta. Quando uma obra do metrô é superfaturada ou parte de seu investimento é desviado para uma ilha no Caribe, uma pessoa (ou grupo de pessoas) fica mais rica e nós (a sociedade) arcamos com o prejuízo (alguns zeros a mais em uma soma impossível). Mas e o tempo a mais que nos roubam? Como se não bastasse o roubo monetário, em geral nos levam tempo também. Em São Paulo, desde a inauguração do metrô, historicamente adicionamos menos de 1km de trilhos por ano. A obra pública não é só mais cara, é também mais demorada que em outros países.

Faz algum tempo que o New York Times apontou a corrupção na cúpula do partido comunista chinês. É de se acreditar que uma boa quantidade de dinheiro para construção do metrô de Pequim tenha sido desviado para contas em Macau ou Hong Kong. Mas em apenas duas décadas, os chineses tem uma malha metroviária mais extensa que Nova York ou Londres (pioneiros na modalidade). Por aqui, ainda esperamos pela inauguração de estações que ficam pelo caminho nas linhas já inauguradas. O mesmo acontece com os corredores de ônibus, que são planejados e embolsados, mas não saem do papel. Com nossos aeroportos, que além de superfaturados nos tomam o tempo na fila do passaporte, do estacionamento e do táxi. Sem falar dos congestionamentos que tiram dos paulistanos uma média de 2 horas diárias e quase um mês de vida em um ano. Estão pilhando o nosso tempo. Canalhas, trombadinhas de milhões de minutos alheios!

Voltando ao jornalismo gonzo, à bicicleta e à minha perspectiva. Comecei a andar de bicicleta também para economizar alguns trocados em uma época que abria meu próprio negócio. O dinheiro do IPVA, seguro, troca de óleo, estacionamento e das multas viria a calhar ao final do mês. Hoje sei que economizo tempo também, que é inegavelmente o maior de nossos bens. Vou salvando minutos preciosos diariamente e devo ficar mais rico no longo prazo. Espero, com certa ansiedade, o tapinha nas costas de um médico lá pelo ano de 2060 dizendo: “Aquela sua decisão de parar de dirigir foi o que te deixa com esse corpinho de 60 aos 85. Parabéns, Sr. James”.

 

* Texto originalmente publicado pela MYMAG.

Imagem: Ond man riding bicycle, by Ixion-TdC.

James Scavone
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