Textos

03 de setembro de 2012

Se é popular, é bom? Se é popular, é ruim?

No último fim de semana, tive a chance de ser jurado na categoria digital de um importante prêmio de publicidade. O Clube de Criação São Paulo reuniu algumas cabeças para não só julgar, mas pensar e repensar a propaganda brasileira. Foi lá que surgiu a questão da popularidade. Um prêmio de excelência criativa deve se render ao número de visualizações no YouTube? Foi muito visto, logo é bom?

Em literatura, existe um paradoxo interessante. A popularidade de um “best-seller” deve ser considerada tanto a prova quanto a negação de seu valor. Se são muitos os leitores que aprovam e indicam um livro e este se torna um fenômeno de vendas, são duas as possíveis conclusões. 1- É uma obra-prima e sua originalidade, estilo ou enredo são determinantes para seu sucesso; é, portanto, boa literatura. 2- É um “livro fácil” ou contém truques, armadilhas capazes de cativar a massa sem que haja um valor técnico, criativo ou, digamos, literário.

O inglês George Orwell costumava dizer que existem os “bons-maus livros” (good bad books). Que qualquer um pode ser ver vítima satisfeita de um tipo de literatura que o cérebro se recusa a levar a sério. O prazer pelo prazer de ler ou mesmo o humor como fonte de satisfação. Há quem diga que assistimos a filmes “trash” ou viramos as páginas de bons-maus livros com a mesma curiosidade mórbida de quem desacelera o carro ao notar um acidente no acostamento da estrada. Queremos ver sangue e vidro no asfalto.

Li outro dia que alguns autores chegam a renegar suas peças mais populares assim como Los Hermanos se recusavam a tocar o fenômeno pop “Ana Júlia”. WH Auden fez questão de arrancar de toda e qualquer coletânea que publicasse um de seus poemas mais populares, “September 1, 1939”. Implicou em especial com uma de suas linhas, que traduzo livremente: devemos amar uns aos outros ou morrer. Tentou consertar a frase que viria a se tornar uma de suas linhas mais repetidas e citadas, mudando para: devemos amar uns aos outros e morrer. Mas acabou por insistir que o poema inteiro não faria parte de sua obra.

É certo que podemos repensar e reconsiderar a nossa obra. Amadurecer e questionar as soluções encontradas na aurora criativa. A raiva ou a indignação do artista jovem pode se tornar motivo de chacota ou vergonha mais tarde na vida, mas é inegável que aquelas mal-traçadas ou raivosas linhas o levaram até o ponto em que se encontra. Quem sabe se o escritor conseguiria chegar em suas obras mais bem acabadas sem o que produziu na juventude? Sortudo talvez tenha sido o escritor russo Sergei Dovlatov. Perseguido e censurado por vinte anos, só publicou depois de maduro e não coleciona os textos mais “verdes” dos quais se arrependeu.

Claro que divago e insisto em elevar e comparar a propaganda à literatura. O grande mérito ou teste final de uma obra literária é a sua sobrevivência ao tempo. Um livro que sobrevive ao tempo se torna um clássico e, desta forma, por sua perpetuação, acaba vendendo mais e sendo mais “consumido”. Em propaganda, sem sombra de dúvida, popularidade é mérito sim. Se o jingle colou na cabeça do consumidor ou se o vídeo foi muito visto, a mensagem se propagou. E se propagou, caro leitor, tenha certeza de que a caixa registradora registrou.

 

* Texto publicado originalmente no Colherada Cultural, com ilustração de André Hellmeister.

James Scavone
Leia mais textos de James aqui.