Textos

12 de novembro de 2012

Sobreviventes

Na última semana, tive a chance de conviver com duas simpáticas velhinhas europeias. A primeira, holandesa e a segunda, inglesa. A primeira, judia e sobrevivente do campo de concentração de Bergen-Belsen. A segunda, escritora, talvez a mais famosa autora de histórias de detetive em atividade. A primeira, nascida em 1929 e a segunda em 1920. De uma forma ou de outra, muito do que é de fato do século 20 está guardado na memória destas duas senhoras.

Nanette König, nasceu em Amsterdam, morou em Londres e, desde a década de 50, reside em São Paulo. Estive em sua companhia em um auditório lotado da Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis. Nanette foi a primeira convidada do 2º Ciclo de Palestras dos Sobreviventes do Holocausto. Por pouco mais de duas horas, tive o prazer de ouvir uma lição de história de uma fonte primária. Um delicioso sotaque holandês-judaico descrevia uma infância feliz na Holanda e uma adolescência das mais terríveis que se possa imaginar. Segurava um pequeno papel com anotações e contou com sua voz firme a experiência trágica vivida a partir dos 13 anos, a guerra em sua escalada insana e a perseguição aos judeus, que aniquilou uma família inteira.

P.D. James foi a outra senhora com quem convivi nos últimos dias. Não ao vivo, infelizmente. Estive com ela nas páginas do ótimo livro “Segredos do Romance Policial” (lançado este ano pela editora Três Estrelas, pertencente a Folha de S.Paulo). Nascida também na década de 1920, mas com a sorte de estar um pouco mais distante de Hitler, do outro lado do Canal da Mancha, pode se dedicar à literatura. É tida como uma das herdeiras de Agatha Christie, mas seu livro deixa claro que a herança é bem maior.

O livro é quase que uma homenagem às histórias de detetive. Estudiosa e apaixonada pelo tema, James nos revela as origens e os grandes nomes deste gênero tão inglês e tão peculiar. Em suas páginas, investiga o aspecto social das tramas detetivescas, bem como o estilo e a biografia de seus autores favoritos. Personagens e escritores são elevados e analisados sob a lente da escritora. Desde Wilkie Collins e seu “The Moonstone”, de 1860, tido como o primeiro livro de detetives da história até a Era Dourada, situada entre as duas guerras mundiais. Estão lá Dorothy Sayers, Margery Allingham, Ngaio Marsh. Tem todo um capítulo o Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle, é claro. Agatha Christie também tem seu espaço, mesmo que criticada por seu estilo e pela fraqueza das tramas. G. K. Chesterton e seu Padre Brown e até mesmo os detetives mais brutos criados pelos americanos Raymond Chandler e Dashiell Hammett.

Volto a provocar um paralelo entre as duas senhoras, que se encontram, mesmo que de forma indireta, no universo literário. A holandesa foi amiga de escola de Anne Frank, responsável pelo diário mais famoso do mundo. A pequena garota judia, que se escondeu dos nazistas com a família e sobreviveu aos horrores da guerra apenas na descrição de seus dias adolescentes. “Quando li o Diário de Anne Frank pela primeira vez, não me surpreendi com nada daquilo, era, afinal, a minha vida também. Mas tenho certeza de que Anne teria sido uma grande escritora caso tivesse vivido”, disse Nanette sobre a colega de escola e de campo de concentração.

Nanette König e P.D. James. Duas contadoras de histórias, duas sobreviventes. A primeira vive em Higienópolis, em São Paulo, e consegue rir ao lembrar das histórias da guerra, do amor que conquistou no pós-guerra. A sua simples presença no mundo é um deboche à loucura fracassada de Hitler. A segunda vive no interior da Inglaterra, vive de literatura, escreve sobre o triunfo da lei e da razão sobre a loucura dos assassinos. Viveram de formas tão diferentes um mesmo século. Formataram as duas, cada qual de um jeito, uma era na história humana.

Aqui vai um apelo do colunista. Um não, dois. Compre o livro se aprecia as histórias que incluem mortes com golpes de candelabro na biblioteca. É realmente uma joia literária. E compareça em alguma palestra na Livraria da Vila. Elas acontecem todas as segundas-feiras de novembro (hoje, portanto) e são oportunidades únicas de ouvir sobre morte e vida na realidade, que por vezes teima em ser mais cruel que a ficção.

 

* Texto publicado originalmente no Colherada Cultural, com ilustração de André Hellmeister.

James Scavone
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