Textos

22 de janeiro de 2014

30 verões de distância

Uma picada de pernilongo num dia em que faz 30 graus.

“Mãe, tá coçando, tá coçando, tá coçaaaaando!”

Juqueí não existe mais sem o H e o Y. Nem meu filtro solar da época, o Eversun FSP 4, passado com a mão pesada da minha mãe, sobre as costas já ardidas.

O verão de 84 tinha cheiro de suor doce, creme protetor e um álcool canforado que usávamos para aliviar a coceira. Eu não tinha mais do que meia dúzia de sardas, mas as canelas já eram grossas e viviam arranhadas: “Não coça com a unha, menina!”

Dava pra identificar o inseto de acordo com o aspecto da alergia. Geralmente, eram os borrachudos que picavam ardido, coçava muito e deixavam apenas um pontinho vermelho na pele, que era espremido com as pequenas unhas dos dedões para que saísse um caldinho de sangue e, depois, um caldinho do “veneno” do bicho. Essa operação complexa e terapêutica aliviava um pouco, quando não machucava mais e formava casquinhas que, por mais arrancadas que fossem, insistiam em se refazer até que parássemos de prestar atenção nelas. As minhas eram campeãs em se formar novamente e rápido.

“Sangue doce”, dizia minha mãe.

Haviam feridas raras, que formavam pequenas bolhas d’água, deliciosas de estourar, mas que ardiam muito e não coçavam tanto. Diziam que era de aranha, mas nossas teorias da conspiração também consideravam ser uma reação a formigas famintas, xixi de sapo ou lambida de barata.

Uma vez, consegui cruzar a trajetória de uma abelha e continuei correndo com o rosto em chamas. Passado o susto, sobrou um inchaço tão grande, que me perguntaram se era caxumba.

Nossa casa tinha muretas no lugar das paredes internas (falta de dinheiro ou tendência?). Nelas, a gente deitava para esfriar as costas, no limite entre tombar para algum dos lados. Uma vez, por falta de forro no telhado, um morcego caiu do teto no peito de uma tia sonolenta. Meu pai e meu tio mergulhavam para pegar lagostas e robalos até “estourarem os ouvidos”. E, de vez em quando, levavam as crianças (eu, meu irmão e minha prima) para pescar porquinho num barco de alumínio laranja, que tinha só dois metros de comprimento. Voltávamos com as coxas e costas vermelhas, em cima do descascado.

“Por que não botaram camisetas nas crianças?”

Tínhamos um Opala marrom e vínhamos atolando pela praia, porque a estrada ainda não chegava até lá. À noite, conseguíamos ouvir umas seis espécies de sapos e enxergar vagalumes. O único livro da casa era “O Menino do Dedo Verde” e, mesmo com umas vinte páginas faltando, ainda nos atraía, verão após verão. A TV pegava raramente à custa de uma antena antiga e bombril. O tempo passava lento, andávamos um quilômetro a pé no sol quente para chegar à praia e tínhamos um gato hiperativo chamado Pingo. Nossos amigos eram caiçaras, participávamos de gincanas para limpar a praia e comíamos lambe-lambe (arroz com mariscos) na casa de um amigo pescador do meu pai, que um dia arpoou um tubarão e fez uma peixada pra toda a cidade.

Insetos, peixes, aracnídeos, crustáceos e anfíbios que hoje soam estranhos para a molecada. Bichos que eles só vêem nos livros de ciências ou dentro de algum aquário de ecoresort nas férias, entre as aulas de axé da piscina e as atividades do Kids Club. O sol mudou muito nesse tempo também. Talvez só as picadas ainda cocem como antes.

 

* Imagem: Pia Bramley.

Jan Bitencourt
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