Textos

04 de abril de 2014

Saia da seção de literatura estrangeira

“Escreva sobre o que você experimentou, ou não vai soar verdadeiro.”

Então não vou escrever sobre clássicos da literatura mundial, porque nunca herdei um livro dos meus pais. Também não sobre romances de 500 páginas, porque me formei em propaganda e nunca tive tempo para me aprofundar, com raras exceções.

Mas quero usar essas não habilidades para escrever sobre literatura curta, contemporânea e nacional, não porque eu seja especialista, mas porque adoro e porque muita gente ainda torce o nariz para ela.

Sim, com certeza você sabe de muitos nomes que eu nunca li, mas tente segurar os seus e abrir a cabeça para os nossos. Se quer sutileza, comece com Adriana Lunardi. Delicadeza? Tatiana Salem (inclusive infantis). Metáforas e associações, Adriana Falcão. Sonho, Andrea Del Fuego. Construções preciosas (e mágicas) de parágrafos, Adriana Lisboa. Tramas incríveis, Patrícia Melo. Poesia, Bruna Beber. Isso só pra falar das principais autoras que publicam fora.

Entre os autores, descubra porque Michel Laub está rodando o mundo. Recomendo todos do Daniel Galera. Para contemporâneo-marginal, siga o Marcelino Freire. Protesto bem escrito, Paulo Scott. Lirismo e reinvenção, Jose Luiz Passos. Estilo cinematográfico, Marçal Aquino ou Lourenço Mutarelli (que também desenha incrivelmente).

Nessa ânsia de descobrir sobre o que escrevem os brasileiros, fui conquistada por livros curtos, uma prosa próxima do meu cotidiano e por autores que demoram a ser reconhecidos, mas estão começando a ganhar o mundo. Antologias de contos como a “Geração 90” e “Geração Zero Zero”, “25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira” e, mais atualmente, a Granta e o selo Formas Breves, onde é possível encontrar na prosa dos nossos muitas referências a autores estrangeiros.

Ao contrário da maioria, esse é meu caminho para chegar a eles. Vou ler os grandes lá de fora apenas depois que conheci como eles inspiraram os meus conterrâneos. Isso sim é que é tradução.

Porque sim. E talvez porque esteja na hora de inverter a balança e exportar nosso talento. Comprar um livro, aumentar as vendas internas é o que os editores internacionais procuram no pessoal daqui. Não pegar o livro que todo mundo pega na livraria. Saber vender os seus quando você estiver viajando e perguntarem quem você lê. Parar de achar que literatura nacional é menor, café com leite. Nossa língua é linda (os estrangeiros também acham).

Pergunte-me mais e se eu não souber vou atrás para você, sem problemas. Adoro me surpreender, para o bem e para o mal.

Não é à toa que meus professores de criação literária (oh, você também tem preconceito contra isso?) foram brasileiros e o André de Leones está me ajudando com o segundo livro. Uma publicitária que virou escritora? Oh, por favor, não torça o nariz antes de ler.

 

Ilustração: Thiago Thomé (Liquidpig).

Jan Bitencourt
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