Cinema, Resenhas

23 de fevereiro de 2015

Cinquenta Tons de Cinza

Qualquer rico bonito serve

Pouca coisa é tão importante na vida quanto ajustar suas expectativas. Vamos supor que você entre numa sala de cinema para assistir a Cinquenta tons de cinza. Você pode se decepcionar ainda nos créditos iniciais. Mas, se você for o ser humano generoso que imagino que seja, você pode respirar fundo e pensar que está assistindo a uma adaptação cinematográfica de uma fanfic de Crepúsculo. Crepúsculo é uma trilogia interessante? Adaptações cinematográficas costumam ser boas? Fanfics tradicionalmente dão em algo que preste?

Eu, de minha parte, fiquei bastante satisfeita com alguns cortes feitos em relação ao livro. Não ver na tela uma representação do Subconsciente e da Deusa Interior de Anastácia foi um alívio. Pular toda aquela troca de e-mails que constitui boa parte do primeiro volume da série também não foi nada mau. Outra coisa que achei positiva no filme foi a insistência com que o termo “consensual” foi usado. Tentei me importar com essas discussões sobre como o livro e o filme distorcem a imagem do BDSM, mas realmente não consegui. Agora até o BDSM é uma religião monolítica que precisa ter sua imagem preservada?

Como a trilogia de livros já foi suficientemente escrutinada de 2011 para cá, vou tentar me ater ao filme. Uma coisa que me chama atenção é como Crepúsculo e Cinquenta tons de cinza, séries literárias de grande sucesso entre as mulheres, foram transformadas em filmes tecnicamente mal feitos. Entendo que a história não renda uma obra de arte e que o propósito seja apenas entreter e seduzir as espectadoras, mas esses são filmes notoriamente abaixo do padrão de qualidade de Hollywood em aspectos básicos como maquiagem, figurino e cenário, isso sem falar no roteiro e nas atuações. Em Crepúsculo, a maquiagem é tão porca que nota-se uma diferença de tom entre o rosto e o pescoço dos vampiros. Em Cinquenta tons o figurino é tão banal que não consegue sequer sugerir uma modinha de verão enquanto os cenários são mais insossos que mostruário de loja de móveis. Não houve nenhum cuidado nesses aspectos. O figurinista apenas pensou: “como agrupar o maior número possível de clichês da boa moça? Ah, sim, corta uma franja. Precisamos de um cabelinho longo, de babados, de um cardigã. Tandan, tá feito”. O cenário é apenas uma ostentação contínua em forma de casa, de empresa. A coisa é tão asséptica que demoramos a perceber se os personagens estão num hotel ou num apartamento porque tudo tem a mesma cara. A atuação é apenas passável e a qualidade geral da coisa lembra produções feitas para a televisão, não filmes que renderam milhões em bilheteria.

Essa falta de apuro me parece desrespeitosa com o público feminino. Não é assim que eles fazem Transformers. O mais chato dos filmes de superherói, de gangue de carro ou de machão num mundo pós-apocalíptico conta com uma produção decente e com uma atriz linda e famosa. Por que quando a coisa é feita para as mulheres temos que nos contentar com um ex-modelo desconhecido que mal ensaia expressões faciais?

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Muito se fala sobre mocinhas que querem salvar homens, reformar homens, sobre mocinhas loucas para casar, mas pouco se diz sobre homens que querem ser salvos, reformados e casados. Para mim é um mistério que o arranjo do casamento seja tão obviamente vantajoso para os homens e ainda assim queiram nos convencer de que eles fogem do compromisso enquanto nós o perseguimos. Esse jogo de perseguição e fuga me parece funcionar como uma encenação. No caso do nosso protagonista, por exemplo, é difícil pensar que um sujeito jovem, bonito e que sai por aí panfletando Audis tenha alguma dificuldade em encontrar namoradas dispostas a brincar de submissão por uns meses, mas Christian Grey resolve se obcecar por uma virgem leitora das irmãs Brontë. Para mim, a história do filme é a de um pobre menino rico desesperado para ser domado por uma fofinha. O que se estabelece entre eles no filme é um jogo de esconde-esconde em que Christian banca o inacessível, o misterioso e o problemático apenas para manter o interesse da mocinha.

Há uma cena em que eles ainda estão se conhecendo — mas ele já sabe tudo que há para saber sobre ela, ou seja, que usa roupas meigas, pouca maquiagem e estuda literatura — e Anastácia diz que “é romântica”. Christian encerra o encontro prontamente dizendo não ser “o cara certo para ela”. Porque, claro, o cara errado para a gente sempre tem a fineza de informar que é o cara errado para a gente e ninguém jamais poderia adivinhar que uma mina envolta em franjinhas e babados era romântica.

Christian se objetifica tanto que tudo que sobra dele é um fiapo de arquétipo. Ele é o tipo que pilota aviões, dá presentes, corre e se veste de modo impecável. Nada o individualiza. Não há um só gesto do personagem que tenha qualquer outro objetivo que não seduzir. Aqui vale lembrar de onde veio Christian: ele é o Edward sem a parte da imortalidade. Ou seja, ele é um Edward ainda mais apagado. Sua única função é ser um referencial externo da autoestima inexistente da mocinha. Qualquer rico bonito serve. Não tem nada de específico nele assim como não tem nada de específico nos príncipes da Disney. As princesas até que são mais ou menos individualizadas, já os príncipes — fora Aladim — são intercambiáveis.

Gosto das cenas em que Christian abre o armário e escolhe gravatas: não tem o que escolher. Tudo é igual a tudo. Caro, correto, controlado, ameaçador, mas igual. Gosto mais ainda da cena em que ele revela nunca ter dormido ao lado de uma mulher com a mesma pompa que Anastácia usou para anunciar sua virgindade. São ambos virgens naquilo que se espera de cada gênero. Uma nunca transou, o outro nunca amou e há quem ache isso irresistível.

Juliana Cunha
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