Textos

20 de dezembro de 2013

Ilustração:
Thiago Thomé

A gente só sabe o que sabe

Meu namorado não come. Quer dizer, ele até come, mas numa quantidade que uma pessoa normal só comeria se tivesse acabado de receber um ultimato do médico, se o médico tivesse acabado de lhe esfregar um exame de pré-diabetes no nariz ou algo do tipo. Ele come assim todo dia, nós moramos juntos há alguns anos.

Um dos motivos de brigas domésticas é a falta de materialidade das refeições que ele prepara. Quando for a vez dele de cozinhar, prepare-se para ser apresentado a uma porção que mal dá para uma pessoa. Ele serve dizendo: “só quero um pouco, não estou com fome”, enquanto eu me apodero da panela como quem diz: “você vai almoçar na tua mãe, não é?”.

Quando tem visita, as visitas também passam fome. Mesmo quando sou eu que cozinho, fico atrapalhada com aquela voz que questiona a todo momento a quantidade de comida. “Nossa, assim vai sobrar muito”. E de fato sobra: as pessoas ficam assustadas quando percebem o tamanho do jantar e comem pouquíssimo, ninguém repete. Ninguém quer ser o cara que deu a última raspada na cozinha dos outros.

Devem voltar para casa e pedir um Habib’s, devem enfiar esfirras na boca enquanto comentam que somos muito pobres ou muito anoréxicos ou quem sabe as duas coisas. Enquanto isso, na cozinha da discórdia, meu namorado lava a louça satisfeitíssimo: “Eu não disse que ia sobrar?”. E ainda há quem pense que a experiência empírica nos diz algo sobre a realidade.

 

Juliana Cunha
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