Textos

18 de fevereiro de 2014

A jardineira

Existem pais que passaram toda a infância dos filhos fazendo promessas vazias sobre uma futura viagem à Disney que nunca se concretizou ou sobre um presente caro que eles sempre quiseram, mas que ficava além das posses familiares. Dizem que isso é muito bom para a formação da criança: ensina a lidar com as frustrações, ensina que na vida nem tudo é possível.

Quando eu era criança, um ônibus bonito, de janelas grandes e banquinhos que mais pareciam bancos de parque, rodava os pontos turísticos de Salvador. As pessoas chamavam aquilo de jardineira. Era um ônibus especial, com uma tarifa levemente acima da tarifa convencional e um trajeto um pouco fora de mão para os moradores já que o objetivo era apresentar a cidade e não levar do ponto A ao ponto B. Eu e minha irmã sempre quisemos andar nesse ônibus. Minha mãe prometia que um dia nos levaria, mas nós crescemos, o ônibus saiu de circulação e ela nunca levou. Minha mãe me negou não uma viagem à Disney, não o carrinho de Jorge Del Salto, mas um mísero passeio em um ônibus bonito.

Isso me ensinou que não apenas nem tudo é possível como me deu uma demonstração precoce da aleatoriedade dessas impossibilidades. O universo não lhe negará apenas aquilo que está distante de seus bracinhos curtos. No mais das vezes, ele lhe negará coisas extremamente simples e plausíveis, coisas que foram feitas impossíveis só de brinks. O universo não lhe negará somente o que for muito caro ou muito longe ou muito difícil, ele lhe negará também o que é barato, simples e perto apenas porque ele é grande e você é pequeno, ele é o universo e você é você.

Creio que esse ensinamento tenha me dado grandes vantagens em relação aos meus pares que aprenderam apenas que algumas coisas são muito caras e papai não pode pagar.

Hoje, quando já tenho 26 anos e achava que minha educação estava completa, minha mãe me manda uma mensagem de texto dizendo que está passeando de jardineira pela primeira vez e se divertindo muito. (As jardineiras voltaram a circular há alguns anos). Pois hoje eu aprendi que o universo não apenas é aleatório em suas negações como às vezes ele também é escroto e te manda mensagens avisando que aquilo que era tão simples e lhe foi negado é mesmo excelente.

 

* Imagem: ilustração de Kanaes

Juliana Cunha
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