Textos

08 de janeiro de 2013

A viagem como investimento

Gosto muito desse texto de Osvaldo Javier López-Ruiz (abaixo) sobre como viajar deixou de ser um mero lazer e passou a ser um investimento no nosso “capital humano”. Uma forma de manter nossa “empregabilidade” em um mundo que valoriza o verniz cultural.

Embora a informação esteja disponível para muitos, viajar ainda é caro para quem não é porteiro da Danuza Leão. Daí que valorizar a viagem como uma forma de adquirir conhecimento é um truque muito esperto para excluir uma parcela da população que pode até se esforçar e estudar, mas dificilmente será “bem viajada”. Michel Laub disse algo parecido numa coluna muito legal sobre o ato de viajar. Ele diz que há uma “noção romântica e consumista de que se deve viver com intensidade, de que a experiência prática e sensorial é mais emocionante que a cultura livresca”.

É duro balancear o encantamento da viagem em si e nossa alegria por podermos nos dar a esse luxo com a consciência de que essa paixão coletiva por viagens que a gente vê atualmente não é uma coisa inocente.

“A diluição de uma diferença clara entre ‘consumo’ e ‘investimento’, promovida pela teoria do capital humano, torna-se um elemento fundamental para a compreensão da lógica sobre a qual funciona a sociedade atual e dos valores que a orientam.

A partir da área difusa que se cria entre o que se entende como consumo e o que se entende como investimento, é que se torna possível ordenar e legitimar socialmente prioridades cambiantes. É a partir dessa vaguidade que se articula e se reafirma a cultura de consumo – que em muitos casos se apresenta como uma cultura de investimento.

As pessoas capitalizam-se consumindo e podem fazê-lo de inúmeras formas: capitalizam em qualidade de vida, por isso é legítimo investir em viagens; capitalizam na própria carreira, por isso é legítimo investir tempo e dinheiro em treinamentos; capitalizam em relacionamentos, por isso é legítimo investir em sofisticados e caros objetos de design na decoração de suas casas; capitalizam em cultura, por isso é legítimo investir em cursos acelerados que dêem os códigos sistematizados para que a ‘fast culture’ possa ser digerida-comentada-capitalizada.

Antigamente, a ‘postergação de satisfações’ significava poupança. A poupança iria formar com o tempo um capital monetário que ficaria disponível para melhor gastar no futuro. Hoje, a poupança, entendida como um ‘não investimento’ — porque o mercado oferece ‘taxas de rendimento’ muito mais altas para quem ‘investe’, por exemplo, no seu capital humano —, perde o sentido fortemente positivo que tinha para a ética protestante do trabalho.

O consumo-investimento (e não a poupança) é o que nos dá a possibilidade, senão de mobilidade social, pelo menos de continuar pertencendo a um mesmo grupo social. Se deixarmos de investir (consumir) temos o alto risco de não ter nada no futuro: qual será nosso capital humano? Que experiência teremos capitalizado? E, curiosamente, qual será nosso capital econômico se, por não termos investido o suficiente em nossa carreira e em nossos relacionamentos, perdemos oportunidades de crescimento e ao final acabamos perdendo nosso emprego?

Por essa razão, quando o consumo é entendido no sentido proposto pela teoria do capital humano, como um ‘investimento’, a orientação que tomam os valores hoje parece ser mais claramente definida pela equação ‘consumo-capacitação-permanência social’, do que pela tradicional equação que guiava o espírito do capitalismo antigamente e que rezava ‘poupança-educação-mobilidade social’.”

(Osvaldo Javier López-Ruiz)

 

* Imagem: ilustração de Eric Hanson para o New York Times

Juliana Cunha
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