Cinema, Resenhas

24 de maio de 2015

Casa Grande

A poupança dos meninos

Quando saiu O Som ao Redor, Paulo Arantes esboçou uma análise grandiosa do filme — amigos em bares frequentemente são obrigados a ouvi-la. Mas ele não escreveu a análise, apenas falou em um grupo (e eu recebi de segunda mão).

Em linhas gerais, Arantes usava as imagens de movimentos sociais que aparecem no começo do filme para mostrar como o percurso de enfraquecimento dos movimentos de trabalhadores transformou em rixa o que antes era luta de classes. Se houve um tempo em que o embate entre patrões e empregados se dava de modo classicista e ideológico, no seio de um movimento político organizado, o que restou no lulismo foi a rixa — daí o conflito final ser resolvido como uma vingança pessoal contra o antigo senhor de terras.

A análise dele relacionava aquela cena da masturbação com a máquina de lavar à inclusão social pelo consumo trazida pelo governo do PT (e à famosa orientação de Lula para que os brasileiros comprassem) e dizia que o filme falava da passagem do 45 — que aparece num muro em ruínas — ao 13 — que surge na vela de aniversário da neta.

Mas o protagonista de O Som ao Redor não é o fazendeiro, não são os seguranças da rua: o protagonista é João, o neto sem talento e cheio de boas intenções que se esvaem assim que a namorada toca o interfone. João acha injusto que o porteiro seja demitido sem seus direitos, mas não fica até o fim da reunião para poder votar e só pensa desse modo porque mil reais para ele não significa o mesmo que mil reais para o restante dos moradores do prédio. João não reclama da Veja sem plastiquinho nem usa suicídio como desculpa para chorar desconto em aluguel. Ele paira acima das mesquinharias de quem precisa se agarrar para manter seu padrão de vida.

Casa Grande é um filme bem intencionado, que aponta para uma direção parecida com a de O Som ao Redor, só que muito menos bem realizado e com problemas que lhe ofuscam os méritos. O deslize central (para além da fatura artística mediana) é que Casa Grande salva “João” (ou, no caso, Jean, que dá mais ou menos na mesma). Se em O Som ao Redor nós temos o espaço da esquerda classe média estética muito bem delimitado na figura do protagonista, que não é salvo pela narração do filme, em Casa Grande há uma possibilidade de conciliação através de Jean.

Enquanto O Som ao Redor expõe os limites (e o ridículo) do jovem que tem seu modo de vida assegurado pela violência e pela opressão, mas que acha que pode contornar isso sendo garçom na Europa, a impressão que dá é que Casa Grande realmente acha que Jean pode apagar o material abraçando pobres e dançando forró.

Entre os méritos do filme está uma representação quase documental de modos e costumes da classe abastada brasileira. Enquanto os meninos estudam na sala, vemos o caminho de mesa — aqueles paninhos estreitos de crochet — afastado, junto com a peça de porcelana igualmente inútil que repousa sobre ele. Quando o amigo dorme em casa, lá está a bicama. O lugar mais seguro para esconder dinheiro sempre será o bolso de uma camisa pendurada no armário. No discurso, esses clichês brasileiros de gosto familiar aparecem na ladainha de que economia na PUC é melhor do que na UFRJ (“de lá saíram todos os cabeças do Plano Real”), ou na narrativa self-made man dos trópicos que o pai conta sobre si. As idiossincrasias dos abastados também estão presentes: surgem na jacuzzi que está ali, mas não pode ser usada porque gasta muita energia (Jean só tem acesso a esse luxo no motel barato, que ele sequer paga); na casa cara, porém, com acabamento de gesso.

A fotografia — de Pedro Sotero, mesmo diretor de fotografia de O Som ao Redor — é outro ponto forte. A iluminação irritante de dentro da casa, a pele perebenta, mas de algum modo bonita dos atores.

No roteiro, há pontos de sutileza como na cena em que o pai abre o portão para uma das empregadas em vez de a outra empregada se encarregar disso (já não há duas empregadas, já não há empregada que dorme no serviço), ou nas cenas em que Jean diz para a professora que concorda com o que ela concordar (uma piada que evidencia uma postura intelectual disposta a se adaptar ao que lhe trouxer melhor resultado) e repete a opinião do pai sobre a PUC (mesmo questionado, o pai é sua referência intelectual).

A relação pai e filho é a mais bem realizada. Em alguns momentos, o espectador desconfia de que a rebeldia de Jean tenha mais a ver com hormônios e com o fato de o pai estar desempregado, endividado e o padrão de vida da família estar caindo do que com uma discordância ideológica abissal. Uma das melhores cenas é quando Jean está prestando vestibular e não sabe nada. Os pais acham que ele é bom em matemática enquanto ele cola do colega mais inteligente. Jean encara a prova e se compreende enquanto fraude. Do lado de fora, o pai lê o jornal de dentro do carro e também se compreende enquanto fraude ao ver as notícias sobre o Grupo EBX, motivo de sua bancarrota.

Embora tenha rendido essa boa cena, a tentativa de relacionar o filme ao caso Eike Batista enfraquece a proposta de que aquilo diga respeito a um movimento mais geral. Uma família falindo por conta de más escolhas financeiras é uma família falindo por conta de más escolhas financeiras, algo que pode acontecer independentemente de um movimento mais geral de perda de privilégios.

No começo do filme, a mãe está sempre preocupada com a “poupança dos meninos”, um dinheiro considerado sagrado. A tal poupança, no entanto é a primeira a rodar (sempre é). Quando ela percebe a urgência com que precisam de dinheiro, o impulso imediato é ligar para o banco para resgatar a poupança, e o marido precisa admitir que já fez isso, provavelmente meses antes. A poupança dos meninos funciona como uma metáfora do futuro daquele modo de vida, que é justamente o que está mais comprometido. A poupança dos meninos se esvai com a política de cotas, com a cozinheira que decide ser diarista.

A tentativa de fazer alguma discussão de gênero através do apagamento da irmã de Jean, sempre ignorada, me parece forçada. Na cena do boletim, por exemplo, fica implícito que a educação do menino importa, a dela não. Será que isso ainda faz sentido numa família de classe alta brasileira em 2014? Já os amigos de Jean, tanto o inteligente quanto o da barriga tanquinho, são bons personagens porque expõem o quanto o protagonista é, dentre o grupo, o que menos percebeu que as coisas mudaram um pouco. O “amigo inteligente” se tocou de que precisa estudar minimamente, de que já não basta frequentar uma escola de prestígio. Já o da barriga tanquinho percebe que agora os homens também precisam fazer um mínimo para agradar as mulheres (se objetificando, mas vá lá). Jean faz menos que o mínimo, em todos os casos.

A falta de profundidade dada aos personagens mais pobres é constragedora, índice de um amor simplificador. A coitada da cotista poderia ser qualquer cotista. A empregada evangélica é um tipo, assim como o motorista forrozeiro. Rita é a única que escapa da posição de mero recipiente para o afeto de Jean e é interessante que esse escape se dê através de seu desejo. É ela quem paquera o amigo dele na cozinha, que impõe seus limites no sofazinho, que tira fotos sensuais na cama da patroa, que atira camisinha usada no lixo da casa (pode ser irônico que a empregada evangélica encontre a camisinha revirando o lixo, entregue Rita e depois se demita justamente porque não aguentou lidar sozinha com o lixo da casa).

A cena que fecha o filme é bonita porque Jean dorme com Rita, mas agora ela é uma conquista de verdade: eles dormem na casa dela, a convite dela, sem uma hierarquia de trabalho envolvida. É bonita porque ele rouba um cigarro da bolsa dela e lhe beija a bunda — ele, que está sem dinheiro até para a condução. Mas depois daquele cigarro a gente pensa para onde a coisa vai, para onde o filme aponta. Para o menino branco que resolveu os problemas do país & virou homem contemplando a favela entre baforadas de cigarro? Parece que é isso.

Juliana Cunha
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